Darwin: avançado para sua época, mas influente até hoje

A teoria da evolução, de Darwin, se tornou a pedra fundamental da biologia moderna. Porém, durante grande parte da existência dessa teoria, nascida em 1859, até mesmo biólogos a ignoraram ou a negaram veementemente, em todo ou em parte.

O fato de os biologistas terem levado quase meio século para entender a visão de Darwin corretamente é, por si só, uma testemunha de sua mente extraordinária.

Biólogos rapidamente aceitaram a ideia da evolução, mas durante décadas rejeitaram a seleção natural, o mecanismo proposto por Darwin para o processo evolucionário. Até meados do século 20 eles ignoraram amplamente a seleção sexual, um aspecto especial da seleção natural, proposto por Darwin para explicar ornamentos masculinos, como as plumas de um pavão macho. Eles ainda discutem sobre a seleção no nível de grupos, a ideia de que a seleção natural pode operar tanto na esfera grupal quanto na individual. Darwin propôs a seleção grupal – ou algo do tipo; estudiosos diferem em relação ao quê exatamente ele se referia – castas em sociedades de formigas e moralidade nas pessoas.

Como Darwin pôde ser tão avançado em relação à sua época? Por que os biólogos foram tão lentos para entender que Darwin havia oferecido a resposta correta para tantas questões essenciais? Historiadores da ciência observaram várias características distintivas da abordagem de Darwin em relação à ciência que, além de geniais, foram responsáveis por suas ideias. Eles também apontam vários critérios não-científicos que funcionavam como bloqueios mentais, dificultando a aceitação das ideias de Darwin pelos biólogos.

Livre pensar – Uma das vantagens de Darwin é que ele não teve de escrever propostas para bolsas de pesquisa ou publicar 15 artigos por ano. Ele pensou profundamente sobre cada detalhe de sua teoria por mais de 20 anos antes de publicar “A Origem das Espécies”, em 1859, e por 12 anos mais, antes de sua sequência, “The Descent of Man”, que abordava como sua teoria era aplicada ao ser humano.

Darwin trouxe inúmeras virtudes intelectuais para a tarefa. Em vez de varrer objeções a sua teoria, ele refletia sobre ela obsessivamente, até descobrir uma solução. Ornamentos masculinos chamativos, como as plumas do pavão, eram aparentemente difíceis de serem explicados pela seleção natural, pois pareciam mais um defeito do que uma ajuda à sobrevivência. “Sempre que vejo uma pluma no pavão, fico doente”, escreveu Darwin. Porém, de tanto se preocupar com a questão, ele desenvolveu a ideia da seleção sexual, de que fêmeas escolhem machos com os melhores ornamentos, e por isso os machos mais elegantes dão mais crias.

Darwin também era intelectualmente duro na queda. Ele se agarrava às consequências profundamente confusas de sua teoria, a de que a seleção natural não tem nenhum propósito ou objetivo. Alfred Wallace, que pensou sobre a seleção natural de forma independente, mais tarde perdeu a confiança no poder dessa ideia e recorreu ao espiritualismo para explicar a mente humana. “Darwin teve a coragem de enfrentar as implicações do que tinha feito, mas o pobre do Wallace não conseguiu”, conta William Provine, historiador da Cornell University.

A ideia de Darwin sobre a evolução não era somente profunda, mas também muito ampla. Ele se interessava por fósseis, criação de animais, distribuição geográfica, anatomia e plantas. “Essa visão bastante abrangente o permitiu enxergar coisas que talvez os outros não tenham visto”, afirma Robert J. Richards, historiador da Universidade de Chicago. “Ele tinha tanta certeza de suas ideias centrais – a transmutação das espécies e a seleção natural – que ele teve de encontrar uma forma de juntar tudo isso”.

Da perspectiva atual, os principais conceitos de Darwin estão substancialmente corretos. Ele não acertou tudo. Por não conhecer as placas tectônicas, os comentários dele sobre a distribuição das espécies não são muito úteis. Sua teoria sobre hereditariedade, já que ele não conhecia a genética ou o DNA, também não vem ao caso. No entanto, seus conceitos centrais sobre seleção natural e sexual estavam corretos. Ele também apresentou uma forma de seleção em nível grupal que foi durante muito tempo descartada, mas agora tem defensores como os biólogos E.O. Wilson and David Sloan Wilson.

Darwin não estava apenas correto em relação às premissas centrais de sua teoria. Suas visões prevalecem em várias outras questões ainda em aberto. Sua ideia sobre como novas espécies se formam foi ofuscada durante muito tempo pela visão de Ernst Mayr de que uma barreira reprodutiva, como uma montanha, força uma espécie a se dividir. Porém, inúmeros biólogos agora estão retornando à ideia de Darwin de que a especiação ocorre mais frequentemente através da competição em espaços abertos, diz Richards.

Darwin acreditava na continuidade entre humanos e outras espécies, o que o levou a pensar sobre a moralidade humana como relacionada à simpatia observada entre animais sociais. Essa ideia, rechaçada por muito tempo, somente foi ressuscitada recentemente por pesquisadores como o especialista em primatas, Frans de Waal. Darwin “nunca achou a moralidade uma invenção nossa, mas um produto da evolução, uma posição, hoje, com alto crescimento em popularidade, devido à influência do que sabemos sobre o comportamento animal”, afirma de Waal. “Na verdade, retornamos à visão darwiniana original”.

Inflamável – É notável que um homem morto em 1882 ainda influencie discussões entre biólogos. Talvez seja igualmente estranho o fato de tantos biólogos terem deixado, durante décadas, de aceitar as ideias de Darwin, expressas claramente em um inglês elegante.

A rejeição se deve, em parte, porque uma grande área da ciência, incluindo os dois novos campos da genética mendeliana e da genética populacional, precisava ser desenvolvida antes que outros tentadores mecanismos de seleção pudessem ser excluídos. No entanto, houve também uma série de considerações não-científicas que afetaram o discernimento dos biólogos.

No século 19, os biólogos aceitaram a evolução, em parte porque ela implicava progresso.

“A ideia geral de evolução, particularmente se você a tomasse como progressiva e propositada, se encaixava na ideologia da época”, diz Peter J.Bowler, historiador de ciência da Universidade do Queens, em Belfast. Porém, isso tornou muito mais difícil aceitar que algo tão despropositado como a seleção natural pudesse ser a força modeladora da evolução. “A Origem das Espécies” e sua ideia central foram largamente ignoradas e não voltaram à moda até a década de 1930. Nessa época, o geneticista populacional R.A. Fisher e outros mostraram que a genética mendeliana era compatível com a ideia da seleção natural, trabalhando em pequenas variações.

“Se você pensar nos 150 anos desde a publicação de ‘Origem das Espécies’, a obra passou metade desse tempo no deserto e metade no centro, e mesmo no centro ela não foi mais do que marginal, diz Helena Cronin, filósofa de ciência da Escola de Economia de Londres”. “Essa é uma rejeição bastante abrangente a Darwin.”

Darwin ainda está longe de ser totalmente aceito em ciências fora da biologia. “As pessoas dizem que a seleção natural é correta para corpos humanos, mas não quando se trata de cérebros ou comportamento”, diz Cronin. “Porém, fazer uma exceção para uma espécie é negar a doutrina de Darwin em compreender todos os seres vivos. Isso inclui quase o todo dos estudos sociais – e esse é um corpo de influência considerável que ainda está rejeitando o darwinismo.”

O desejo de enxergar um propósito na evolução e a dúvida de que ela realmente se aplique a pessoas eram dois critérios não-científicos capazes de levar cientistas a rejeitar a essência da teoria de Darwin. Um terceiro, em termos de seleção em grupo, pode ser a tendência das pessoas de pensar nelas mesmas como indivíduos, e não como unidades de um grupo.

“Cada vez mais, estou começando a pensar sobre o individualismo como nosso próprio preconceito cultural que explica mais ou menos por que a seleção em grupo foi tão fortemente rejeitada e ainda é tão controversa”, diz David Sloan Wilson, biólogo da Universidade Binghamton.

Historiadores cientes do longo eclipse enfrentado pelas ideias de Darwin talvez tenham uma noção mais clara de sua extraordinária contribuição, se comparados aos biólogos, pois muitos deles assumem que a teoria de Darwin sempre foi vista como uma grande moldura explicativa para toda a biologia. Richards, o historiador da Universidade de Chicago, recorda que um colega biólogo “teve a chance de ler ‘A Origem’ pela primeira vez – a maioria dos biólogos nunca o leu – graças a uma aula que estava dando. Encontramos-nos na rua e ele observou, ‘Sabe, Bob, Darwin realmente sabia muita coisa de biologia.'”

Darwin sabia muita coisa de biologia: mais que qualquer de seus contemporâneos, mais que um número surpreendente de seus sucessores. Com estudo e pensamento prolongados, ele foi capaz de intuir como a evolução funcionou sem ter acesso a todo o conhecimento científico subsequente exigido por outros para se convencerem da seleção natural. Ele teve objetividade para colocar de lado critérios com poderosa ressonância emocional, como a convicção de que a evolução deveria ter um motivo. No resultado, nós vimos com profundidade os estranhos funcionamentos do mecanismo evolutivo, uma percepção ainda não totalmente superada, mesmo um século depois de seu grande trabalho de síntese. (Fonte: G1)