Indígenas ameaçados voltam a expor Mato Grosso no cenário internacional

Os Enawene Nawe, um pequeno e remoto povo indígena que habita na porção estadual da Amazônia brasileira, se encontra ameaçado. Mais que isso: situação que expõe outra vez o nome de Mato Grosso no centro dos debates do mundo. O caso dos índios, que sobrevivem na região Noroeste do Estado, entre os municípios de Juina, Sapezal e Comodoro, foi tema central de um longo artigo publicado na revista do “Sunday Times”, escrito pela jornalista Christina Lamb. Lamb, que já foi correspondente no Brasil do jornal “Financial Times”, um dos mais importantes do mundo.

O artigo foi publicado para marcar os 40 anos da Survival International. Em 1969, a revista do “Sunday Times” chocou o mundo inteiro quando publicou o artigo denominado “Genocídio”, de Norman Lewis. Lewis viajou ao Brasil em 1968, onde relatou a extinção de centenas de povos e atrocidades cometidas contra os sobreviventes.

Lamb visitou os Enawene Nawe e ouviu em primeira mão sobre sua luta para impedir que um enorme complexo de barragens hidroelétricas seja construído no rio Juruena, que flui em suas terras. Eles lhe contaram como ocuparam e bloquearam um canteiro de obras de uma hidroelétrica em outubro passado: “Nossa idéia foi que fazendo isso todo o mundo vai ficar sabendo o que o governo está fazendo e vai força-lo a agir.” Disse Daliyamase.

Numa carta à ONU, os Enawene Nawe denunciam as barragens dizendo, “Não queremos as barragens sujando nossa água, matando nossos peixes, invadindo nossas terras.” O povo não come carne vermelha e depende quase exclusivamente do peixe. Sua vida espiritual gira em torno de rituais de pesca que têm lugar ao longo do ano. O ritual Iyaõkwa, praticado pelo povo Enawene Nawe, é de tamanha importância para a diversidade cultural do Brasil que está em processo o seu tombamento como Patrimômio Imaterial Brasileiro, realizado pelo IPHAN.

O artigo expõe o conflito de interesse devido ao fato do governador do estado, que emite licenças de construção de barragens, estar construindo as barragens para beneficiar sua companhia de soja, que é a maior do mundo.

O procurador da República em Cuiabá, Mário Lúcio Avelar, foi definitivo: “A construção dessas hidroelétricas não deveriam estar em andamento de maneira alguma… Nossas próprias leis não estão sendo cumpridas… Temo que nos próximos 10-15 anos os Enawene Nawe percam sua cultura centenária”.

Os primeiros contatos amistosos ocorreram em 1974, quando os jesuítas Vicente Cañas e Thomaz de Aquino Lisboa, da Missão Anchieta, acompanhados de alguns índios Rikbaktsa e Nambikwara, visitaram a sua aldeia no rio Camararé. Nos anos seguintes, os jesuítas com a colaboração de membros da OPAN fixaram uma rotina de visitas, para prevenir possíveis doenças infecto-contagiosas e melhor conhecer os Enawene-Nawe. A partir de 1978, Vicente Cañas (chamado Kiwxi, pelos Myky) e membros da OPAN passaram a atuar de forma permanente na área, dando ênfase aos trabalhos de saúde preventiva e aos encaminhamentos para a demarcação do território indígena.

Um dos fatos mais marcantes envolvendo os índios aconteceu em 1987: o missionário Vicente Cañas foi assassinato, a mando de latifundiários e grileiros que cobiçavam as terras dos Enawene-Nawe. Com isto, a OPAN aceitou a responsabilidade de dar continuidade ao projeto indigenista junto a eles. (Fonte: Amazônia.org)