Anticorpo derrota vírus da gripe aviária, diz estudo

Três equipes de cientistas nos EUA conseguiram nocautear várias linhagens do vírus da gripe, incluindo a variante que causa a gripe aviária e a responsável pela gripe espanhola, a pandemia (epidemia global) que matou mais de 20 milhões de pessoas entre 1918 e 1920.

Os anticorpos que os pesquisadores produziram foram capazes de proteger camundongos de doses letais desses vírus, criando a possibilidade de novas terapias para tratar ou prevenir tanto pandemias quanto os surtos sazonais de gripe.

O método usado evitou o alvo mais tradicional do combate ao vírus da gripe, a sua superfície infectante, que costuma sofrer mutações rápidas e tem impedido a criação de uma vacina eficaz e universal. Em vez de dar um soco nessa cara mutante do vírus, a técnica foi equivalente a dar um golpe de caratê no seu pescoço rígido.

Esses vírus são conhecidos como vírus da gripe (ou influenza) tipo A. O influenza tem várias linhagens de acordo com o tipo de proteína na superfície. São duas as proteínas fundamentais para a infecção: a hemaglutinina (H) e a neuraminidase (N).

A hemaglutinina ajuda o vírus a “grudar” na célula e introduzir nela seu material genético para forçá-la a produzir novos vírus, cuja saída da célula é mediada pela neuraminidase. Os subtipos de vírus são nomeados de acordo com essas proteínas, como H5N1 (da gripe aviária) ou H1N1 (da gripe espanhola).

Surtos sazonais de gripe matam todo ano cerca de 250 mil pessoas em todo o mundo. As vacinas existentes fazem o organismo produzir anticorpos para se proteger apenas contra a linhagem do momento.

“E a cada trinta anos em média surge uma pandemia. Já está na hora de surgir uma e nós não sabemos como será esse vírus”, declarou um dos líderes da pesquisa, Robert Liddington, do Instituto Burnham para Pesquisa Médica, na Califórnia, numa teleconferência.

“Descobrimos anticorpos, agentes antivirais naturais, fora do comum, pois são capazes de se ligar a uma região abaixo da superfície do vírus”, diz Liddington. A descoberta está relatada em artigo publicado on-line na revista “Nature Structural & Molecular Biology”.

A hemaglutinina na superfície viral lembra um “pirulito”, diz outro dos 19 autores do estudo, Ruben Donis, do Centro para Controle e Prevenção de Doenças. Existem 16 “sabores” de hemaglutinina, mas a haste do pirulito permanece a mesma, “altamente conservada”.

O sistema de defesa do corpo geralmente não enxerga esse “pescoço” e tenta atacar a mais visível “cabeça”. Mas a equipe vasculhou e encontrou alguns anticorpos monoclonais (proteínas derivadas de uma mesma linhagem celular) que foram capazes de atacar a haste. Um deles, conhecido como F10, foi bem sucedido contra 8 dos 16 tipos de hemaglutinina.

Ao se ligarem nas hastes das proteínas, os anticorpos impedem que o vírus mude de forma e consiga se fundir na célula.

Segundo Wayne Marasco, do Instituto do Câncer Dana-Farber, de Boston, uma terapia usando esses anticorpos monoclonais poderia ser útil para pessoas mais vulneráveis, como trabalhadores de saúde. Já em 2011-2012 poderiam ser feitos testes clínicos, diz Marasco.

“Coquetéis” desses anticorpos poderiam ser eficazes contra todas as linhagens de gripe. “Ao fazer mutação (na haste), o vírus estaria cometendo suicídio”, diz Donis.

Em caso de uma pandemia, os anticorpos monoclonais também serviriam como uma linha de defesa adicional. (Fonte: Ricardo Bonalume Neto/ Folha Online)