Checagem antes de cirurgia diminui mortalidade em 47%

A adoção de um check-list antes das cirurgias reduz a mortalidade e as complicações pós-operatórias, revela um estudo publicado no “New England Journal of Medicine”. Durante o trabalho, foram testadas 19 recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde) que fazem parte de uma campanha mundial para cirurgias mais seguras.

No Brasil, ao menos 11 hospitais já adotam essas orientações – que também fazem parte das exigências para se obter o selo da Joint Commission International (JCI), entidade norte-americana que certifica serviços de saúde. O Ministério da Saúde prepara uma cartilha com as recomendações para ser distribuída nos hospitais.

A pesquisa, realizada entre outubro de 2007 e setembro de 2008, analisou dados clínicos de mais de 3.000 pacientes cirúrgicos – antes e depois da adoção das orientações da OMS – em oito hospitais de oito cidades de diferentes países (Canadá, Índia, Jordânia, Filipinas, Nova Zelândia, Tanzânia, Inglaterra e EUA).

Após o check-list, os pesquisadores verificaram uma redução de 47% na mortalidade operatória – a taxa média era de 1,5% e caiu para 0,8% – e de 36% nas complicações pós-operatórias – o índice médio era de 11% e caiu para 7%.

Entre as recomendações estão questões como perguntar o nome do paciente e questionar a equipe se os instrumentos necessários para o procedimento estão no centro cirúrgico.,

“As perguntas parecem muito enfadonhas e, de início, os profissionais não acreditam que elas possam fazer alguma diferença. Essa pesquisa vem provar que fazem”, afirma Alexandre Siciliano, chefe da Divisão de Procedimentos Cirúrgicos do INC (Instituto Nacional de Cardiologia) e cirurgião do Hospital Pró-Cardíaco do Rio.

Há quatro meses, Siciliano ajudou a implantar o check-list no INC e agora iniciou o mesmo processo no Pró-Cardíaco. Na sua opinião, outro dado relevante da pesquisa foi mostrar que a busca por mais segurança nas cirurgias independe de recursos financeiros e tecnológicos. “Basta a conscientização dos profissionais que estão no processo de que é preciso assumir responsabilidades.”

Ele relata um caso real que exemplifica a situação. Antes de uma cirurgia, ele perguntou à enfermeira se a válvula cardíaca que implantaria no paciente era mecânica. Ela disse que sim, mas, na hora de colocar o aparelho, o médico constatou que ele era de origem biológica, inadequada para o caso.

No Hospital Sírio-Libanês, onde o check-list está padronizado há dois anos, a verificação do paciente a ser operado passa por dupla checagem por meio de pulseira com código de barras colocada no braço do paciente. Os dados são checados no quarto e no centro cirúrgico por leitores ópticos.

Já o lado ou local a ser operado é marcado com uma caneta especial (cuja tinta permanece durante um tempo na pele) antes do doente ir ao centro cirúrgico, ainda acordado e com a presença do médico. “Apesar de parecer passos óbvios, é comum vermos em jornais ou revistas relatos de pacientes que fizeram cirurgias no braço direito, em vez do esquerdo, por exemplo”, diz o cirurgião de cabeça e pescoço Sérgio Samir Arap, gerente médico do centro cirúrgico do Sírio-Libanês.

Segundo José Antonio de Lima, superintendente do Hospital Samaritano de São Paulo, o check-list é rotina na instituição desde 2004. Ele afirma que, nesse período, foi observada uma redução em problemas relacionados a materiais e equipamentos durante a cirurgia.

“Nos últimos cinco anos, as taxas de infecção no sítio cirúrgico são menores do 1%. Também temos 0% de queimaduras com bisturi elétrico”, relata Lima.

O Hospital Albert Einstein também diz adotar o check-list como rotina desde 1999. (Fonte: Claudia Collucci/ Folha Online)