Dengue afeta 100 milhões de pessoas no mundo

A dengue – doença infecciosa aguda causada por um vírus da família Flaviviridae e transmitida aos humanos pela saliva dos mosquitos do gênero Aedes, sobretudo o Aedes aegypti – não é um transtorno só no Brasil. A doença é um dos principais problemas de saúde pública em todo o mundo, afetando cerca de 100 milhões de pessoas em mais de 100 países nas regiões tropicais e subtropicais – do Butão ao Havaí, das Ilhas Galápagos ao Nepal.

Segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS), as epidemias, que tendem a se agravar a cada ano, atualmente ameaçam 3 bilhões de pessoas que vivem em áreas de risco e em outras regiões do mundo antes consideradas não-endêmicas como Hong Kong, Madagascar e Sudão. Segundo o Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA, 22 mil pessoas morrem anualmente de febre hemorrágica ou da síndrome do choque causadas pela dengue.

O epidemiologista Davis Morens, do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA, conta que há cerca de 50 anos, uma tentativa de extinguir o mosquito na parte oeste foi executada com sucesso parcial nos EUA, Caribe e América Central. Porém, com o arrefecimento da iniciativa, e a proibição generalizada do inseticida DDT em virtude de preocupações ambientais, o mosquito ressurgiu com mais ímpeto que antes.

Hoje em dia, considera-se a erradicação total do Aedes aegypti praticamente impossível, devido ao crescimento da população mundial, a ocupação desordenada do meio ambiente e a falta de infraestrutura dos grandes centros urbanos. Assim, e até que seja descoberta uma vacina eficaz, o máximo que se pode fazer é controlar o mosquito nas cidades onde ocorrem infestações.

“O controle da dengue nunca será 100% efetivo”, lamenta Morens. “Se tivermos sorte, teremos uma vacina em cinco ou 10 anos.”

Segundo a OMS, Cingapura registra epidemias de dengue hemorrágica desde 1960, quando começou a notificar casos da doença aos órgãos de saúde pública. Na época, quando os esforços para controlar as epidemias se iniciaram, 50% das casas do país foram identificadas como viveiros do mosquito. Diversas campanhas, orquestradas por agências governamentais e institutos privados, baixaram o índice para menos de 1% – percentual mantido até hoje.

“Cingapura chegou perto de erradicar a doença, e hoje dispõe do melhor controle da dengue do mundo. Inúmeras organizações privadas e públicas do país, conhecidas como o Consórcio da Dengue, inspecionam todas as residências diversas vezes ao ano. Universidades e institutos de pesquisa também oferecem suporte ao Consórcio”, diz Morens.

Nos trópicos, o clima quente nos meses de verão são tipicamente responsáveis pelo aumento na taxa de reprodução do mosquito, o que gera infestações e um maior número de casos. Para controlar a doença durante este período crítico, quatro estratégias são fundamentais: combate ao mosquito, monitoramento do vírus, controle de epidemias e pesquisas em busca de uma vacina.

Na Colômbia, há de 30 mil a 50 mil casos de dengue regular e hemorrágica por ano. O governo adotou um protocolo bem estruturado de monitoramento de infestações que, como em Cingapura, incorpora hospitais e laboratórios de pesquisa, sob a coordenação geral do Instituto Nacional de Saúde. Segundo o virologista José Usme, da Universidade de Antióquia, em Medellín, o programa requer a notificação obrigatória sempre que uma nova suspeita de dengue é registrada em hospitais locais. Uma vez que a dengue é confirmada em laboratório, epidemiologistas iniciam o controle do vetor nas áreas afetadas.

“Em 2008, observamos um declínio em que foram registrados apenas a metade dos casos previstos”, informa Usme. “Isso pode ser resultado da imunização natural da população em relação aos sorotipos prevalentes no país, e aos programas de controle do vetor.”

Na Austrália, a dengue se concentra em Queensland, no nordeste do país. Segundo a diretora do instituto de pesquisa Panbio Dengue, Amy Yolston, a última epidemia ocorreu em 2003, com 498 casos registrados – um número insignificante, se comparado aos mais de 100 mil registrados anualmente no Brasil, hoje o país com maior incidência de epidemias da doença.

“Este ano, Queensland já registrou alguns casos da doença, que parece ter ressurgido devido a chuvas frequentes no norte do país”, observa Yolston. “Ainda assim, a doença está sob controle na Austrália. Voluntários fazem parte das forças-tarefas locais, que combatem a doença pelo monitoramento de registros e da educação da população sobre os métodos de prevenir focos do mosquito. Distribuímos inseticidas aos alunos das escolas públicas.”

Como o mosquito se alimenta de dia, Michael Voniatis, epidemiologista da Organização Mundial de Saúde nas Filipinas, recomenda o uso diurno do repelente, roupas de mangas compridas, e mosquiteiros para cobrir berços ou leitos de crianças e pessoas idosas, mais ameaçadas.

“Os mosquiteiros são mais eficazes com permetrina, um inseticida piretróide.” Cortinas também podem ser espargidas com inseticidas e penduradas em janelas ou portas para repelir ou matar o mosquito. (Fonte: Joana Duarte/ Jornal do Brasil)