Índios recebem dinheiro para aceitar brancos em reserva, diz coordenador do CIR

Mesmo com uma decisão quase certa pela demarcação contínua da reserva indígena Raposa Serra do Sol em Roraima, os índios ainda temem as condições que foram colocadas, discutidas e até removidas do julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal). A afirmação é do índio macuxi Dionito José de Souza, coordenador do CIR (Conselho Indígena de Roraima), e morador da reserva.

A decisão pela demarcação contínua já recebeu 8, dos 11 possíveis votos dos ministros do Supremo. O julgamento, interrompido em dezembro do ano passado, deve ser retomado em março deste ano.

Segundo Souza, a posição de índios que ainda defendem a permanência de não-índios na reserva são justificadas por auxílios financeiros. “Eu que sou indígena, que sou primo, que sou de carne, de corpo e alma, eles não me defendem. Isso é uma descriminação total. Eles defendem o invasor, o pistoleiro, o bandido. Isso é pura mentira, eles não defendem os não-índios, eles estão aí pelo trocadinho de R$10 ou por um grão de arroz”, afirma.

Para o macuxi, algumas condições colocadas durante o julgamento podem comprometer a “desinclusão” dos índios e também afetar o pleno direito do uso e gozo dos indígenas sobre suas terras e recursos naturais.

Durante o julgamento no Supremo, o voto de alguns dos ministros foram acompanhados por ressalvas que restringem o uso da terra pelas comunidades indígenas em favor da soberania nacional.

Conflitos – Souza também diz esperar que não ocorram mais conflitos na área e que o fim do julgamento possa dar melhores condições aos índios. “O indígena, no mundo globalizado e moderno, não quer viver mais em miséria, porque já está morrendo muita gente de fome no Mato Grosso do Sul. Existe toda uma riqueza, mas os indígenas que ficaram ali estão morrendo de fome, vivendo de cesta básica e de ajuda do governo”, diz.

De acordo com ele, alguns direitos previstos na Constituição estão sendo violados em relação aos índios. “O Exército, a polícia e todo o Congresso podem fazer qualquer trabalho sem consultar a comunidade, isso é uma coisa muito ruim. Outra coisa, o garimpo, a gente não tem direito a mais nada, nem de fazer nenhum trabalho em terras indígenas”, diz.

Souza nega que haja, por parte dos índios, interesses estrangeiros por traz da questão da demarcação da Raposa Serra do Sol, como afirma o governador de Roraima, José de Anchieta Júnior (PSDB).

“Eu vejo que os próprios governos federal e estadual são os que mais vão atrás dos interesses internacionais. Eu acredito que não é a Raposa/Serra do Sol e nem os indígenas que estão abrindo esses precedentes. Essas conversas de internacionalização são da parte dos ‘não-índios’ mesmo. O próprio Estado de Roraima tem um aeroporto internacional. Será que é a Raposa Serra do Sol que está internacionalizando o nosso aeroporto?”.

O coordenador também afirma que os índios precisam de um plano forte dentro de suas terras e de um acompanhamento técnico para a realização de seus trabalhos. “Eu acredito que o Supremo não vá considerar que os povos indígenas da Raposa Serra do Sol venham a ser tutelados, marginalizados, criminalizados ou escravizados novamente como no ano de 1.500. Isso pra mim já acabou”, afirma. (Fonte: Folha Online)