Medidas anticrise deixam fatores ambientais de lado, dizem especialistas

As medidas do governo brasileiro para tentar amortecer os impactos da crise financeira internacional na economia interna, ao contrário de países como Estados Unidos e Inglaterra, não consideram fatores ambientais na tomada de decisões e estão entre as “menos verdes” do planeta. De acordo com o diretor de políticas públicas da organização não-governamental Greenpeace, Sérgio Leitão, o governo está perdendo a oportunidade de fortalecer o desenvolvimento sustentável e estimular a chamada economia verde.

“As medidas anticrise estão sendo tomadas de forma totalmente desvinculada de critérios ambientais. O governo poderia fazer o ‘casamento do ótimo com o bom’ – ao mesmo tempo em que estimula o emprego também estimula uma economia moderna, do século 21, que é aquela com baixo consumo de eletricidade e gerando pouco dióxido de carbono,”, apontou.

O professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Eduardo Viola, pondera que a maioria dos pacotes de socorro financeiro mundo afora tem elementos para “favorecer a transição para economias de baixo carbono”, o que não é o caso do Brasil.

Segundo Leitão, em países como Estados Unidos e Inglaterra a crise tem sido uma oportunidade para experiências como a exigência de carros menos poluentes para indústrias que receberam socorro financeiro e estímulo à criação de empregos verdes – adotadas pelo presidente norte-americano Barack Obama e pelo primeiro ministro inglês, Gordon Brown.

“Aqui no Brasil só se olha um lado da crise – o econômico – sem olhar o lado da oportunidade, de se resolver o problema do emprego e da economia do ponto de vista da geração de menos poluentes”, comparou.

Um dos maiores exemplos da ausência de contrapartida ambiental nas medidas de socorro à economia, segundo os especialistas, é o programa habitacional lançado no último dia 25, que prevê a construção de 1 milhão de casas, mas sem referências à utilização de tecnologias verdes nos projetos.

“O governo poderia ter feito uma série de exigências de que as casas que serão construídas tivessem coletores de luz solar, que ela é muito mais econômica do ponto de vista da eletricidade. Se o governo desse uma contribuição do ponto de vista da produção massiva, o custo (dessa tecnologia) iria cair de forma significativa”, avaliou Leitão.

O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, chegou a anunciar a inclusão do sistema de aquecimento solar de água para as casas do pacote habitacional. No entanto, a informação não foi confirmada pela Caixa Econômica Federal. De acordo com a assessoria do Ministério do Meio Ambiente, o aval para o projeto ainda depende da área econômica do governo. Procurada pela reportagem, a Caixa informou apenas que os detalhes da participação do banco na execução e financiamento dos projetos serão anunciados esta semana, mas não confirmou a inclusão de subsídios para instalação de placas de energia solar.

De acordo com Viola, o programa também poderia prever a utilização de técnicas de construção sustentáveis. “As casas poderiam ter um padrão de edificação verde, o chamado greenbuild, por exemplo, com tetos com camadas de grama, que tornam o ambiente mais fresco”, apontou.

As medidas adotadas para fortalecer a indústria automobilística também poderiam incluir ações compensatórias do ponto de vista ambiental. A redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), por exemplo, poderia ter sido condicionada à maior rapidez no desenvolvimento e na produção de motores adaptados a diesel menos poluente.

“O pacote para o setor teria que ter tido um componente no sentido de favorecer o transporte público. Os congestionamentos são grandes problemas hoje. Por causa das horas parados no trânsito, a eficiência do quilômetro rodado é muito baixa o que torna as emissões de carbono muito altas, principalmente em ônibus e caminhões movidos a diesel”, acrescentou Viola.

Apesar da “oportunidade perdida” pela ausência de critérios ambientais nos pacotes, Viola acredita que o Brasil ainda poderá reverter a demanda por investimentos verdes. “Até porque o pacote [de medidas anticrise] só representou 1,5% do PIB [Produto Interno Bruto], nos Estados Unidos foi 7% e na China chegou a 13%. Esse é um processo muito longo, há bastante tempo para recuperar.” (Fonte: Luana Lourenço/ Agência Brasil)

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