Pesquisa sobre pecuária na Amazônia revela detalhes sobre desmatamento e ocupação

No começo desta semana a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) anunciou os resultados de um estudo que pela primeira vez registrou uma relação matemática entre desmatamento, criação de gado e índice de desenvolvimento humano (IDH). O estudo, que ainda não teve seus resultados oficialmente divulgados, teve como foco os Estados de Rondônia e Acre e ressaltou o papel da ocupação da floresta tendo a pecuária como catalisador.

Organizada com base na metodologia chamada “Análise Fatorial”, que visa comparar as diversas variáveis analisadas, a pesquisa concluiu que as áreas com maior intensidade na criação de gado são também as áreas mais desmatadas e mais desenvolvidas. “O que chama a atenção é que historicamente as regiões de pecuária são menos desenvolvidas em outras áreas do país. Isto devido à produção mais extensiva e o baixo uso de tecnologia. Aqui estamos tendo evidência do contrário”, afirma Samuel Magalhães, coordenador da pesquisa.

Para Magalhães esta diferença na Região Norte ainda exige alguma pesquisa para ser totalmente explicada, mas arrisca um palpite “Como é uma região pouco povoada, embora a pecuária seja bem extensiva, são muitas áreas canalizando recursos para áreas menores, que são pequenas cidades com pouca população”, afirma.

Outro dado bastante pertinente levantado pelo trabalho revela os mecanismos de expansão das pastagens sobre a floresta. Segundo o estudo, na região sul de Rondônia as pastagens têm dado espaço para agricultura mecanizada de arroz e soja, obrigando a abertura de novas áreas para o gado.

Sustentabilidade – Tanto para o pesquisador quanto para a Embrapa, o grande triunfo da pesquisa está em evidenciar a pecuária como forma de desenvolvimento das comunidades da floresta, e não a relação com a devastação do bioma. Segundo Magalhães, os resultados servem para mostrar que as políticas ambientais não devem reprimir o desenvolvimento econômico da Região Norte. “Por que é que não se pode desmatar mais? Se tem uma área que pode ser cultivada e alguém vai cultivar ela de maneira correta, por que não?”, afirma o pesquisador.

A despeito disso, o estudo ainda mostra alguma preocupação com a questão da sustentabilidade destas criações sem interferir no desenvolvimento humano. “O que nós temos que nos perguntar é se estas áreas estão sendo abertas de maneira correta, estão sendo repostas e se haverá pastagem daqui a 50 anos”, afirma Magalhães. Para colocar em prática este plano, a Embrapa pesquisa uma técnica chamada “Integração lavoura-pecuária”, que consiste em substituir as áreas degradadas pelo pasto por intensificação de agricultura.

Controvérsia – O caráter desenvolvimentista do trabalho vai contra a já conhecida e bastante criticada relação entre a expansão do gado e o desmate, no ciclo desmatamento, criação de gado, plantação de grãos, modelo severamente criticado por ambientalistas.

Entre eles está Roberto Smeraldi, diretor da organização Amigos da Terra – Amazônia Brasileira. Smeraldi critica os resultados apresentados no estudo, afirmando que não há como criar uma relação de causa efeito entre a pecuária e o desenvolvimento. “É claro que na Amazônia tudo está associado a áreas com mais pecuária, pois é a atividade econômica principal, portanto, pode-se dizer que onde tem pecuária tem mais dentista, tem mais assassinato, tem mais trabalho escravo, tem mais carteira assinada, tem mais escola, etc..”, afirma o ambientalista.

Para Smeraldi a existência de uma pecuária sustentável na Amazônia, como a defendida pelo estudo, é uma idéia plausível, porém longe de ser realizada. “Uma pecuária sustentável é possível, mas é também uma utopia. É possível tecnicamente, porém na prática ninguém o faz simplesmente porque é mais fácil e mais barato criar de maneira insustentável. Todos os subsídios estimulam para isso.”, afirma.

Do outro lado da discussão, Magalhães defende o desenvolvimento da Região Norte como uma iniciativa da população. “Eu falo em nome de quem mora aqui. As pessoas não gostam dessa imposição ambiental que cai em cima dos Estados. As políticas ambientais não são discutidas aqui e as pessoas não querem estas políticas. Parece que a humanidade toda resolveu brigar com a gente”, conclui.

Relevância – A pesquisa desenvolvida por Samuel Magalhães funciona como um projeto piloto, e ainda deve ser realizada em todas as demais regiões brasileiras. O resultado final será reunido pela Embrapa em um volume único sobre os impactos da pecuária nos biomas e no desenvolvimento humano.

A escolha do Acre e Rondônia como pioneiros foi feita devido à sua posição estratégia na expansão da fronteira agrícola e ao fato que, segundo o estudo, 10% de toda a carne consumida no planeta é proveniente da Amazônia. Rondônia é o quarto maior exportador de carne do país e tem a pecuária de corte como sua principal atividade econômica. (Fonte: Flávio Bonanome/ Amazônia.org)

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