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O uso do etanol e do biodiesel como combustíveis promete revolucionar a matriz energética mundial nos próximos anos, trazendo vantagens econômicas, sociais e ambientais – especialmente para o Brasil. Mas, dentro e fora do país, uma série de preocupações e críticas ainda é levantada em relação a essas soluções.

No livro Biocombustíveis – A energia da controvérsia, que acaba de ser lançado, os argumentos favoráveis e contrários ao uso dessas matrizes renováveis são esmiuçados e rebatidos por especialistas no tema.

De acordo com o organizador da obra, Ricardo Abramovay, professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), o objetivo da publicação é ampliar os pontos a serem debatidos a respeito dessas questões, hoje discutidas em âmbito global.

“O livro é voltado para o grande público – especialmente estudantes universitários e do ensino médio. A intenção é expor com toda a consistência o argumento de defesa de cada uma das partes, trazendo à sociedade o debate que tem sido realizado pelos especialistas em relação à viabilidade econômica e aos impactos socioambientais dessas novas fontes de energia”, disse Abramovay à Agência Fapesp.

A obra reúne textos de Ignacy Sachs, Marcos Jank, Jean Marc Von der Weide e Arnoldo de Campos. “Quisemos compor um panorama amplo e heterogêneo. Os autores apresentam pontos de vista diferentes sobre o etanol e o biodiesel”, disse Abramovay, que é coordenador do Núcleo de Economia Socioambiental da USP (Nesa).

O livro faz parte de uma série da Editora Senac que trata de temas polêmicos – como transgênicos e aquecimento global – e convida especialistas para apresentar três opiniões diferentes: a favor, contra e uma terceira posição intermediária.

“No caso dos biocombustíveis foi preciso trazer quatro pontos de vista, porque consideramos que a lógica da defesa do etanol é muito distinta daquela utilizada para defender o biodiesel – portanto os pontos de vista favoráveis aos biocombustíveis foram expostos em dois textos”, explicou.

As diferenças entre os argumentos favoráveis aos dois tipos de biocombustiveis, segundo Abramovay, decorrem do fato de que os atores envolvidos com a produção de cada um deles são essencialmente diferentes.

“No caso do etanol, temos um conjunto de fatores virtuosos. Entre esses aspectos estão a eficiência energética reconhecida internacionalmente. Essa é uma vantagem incontestável”, disse.

Outro fator importante para a defesa do etanol, segundo ele, é a resiliência econômica. “Ao contrário de outras culturas, no caso do etanol extensões de dezenas de milhares de hectares podem se manter ao longo do tempo sem rupturas decorrentes do ataque de pragas, por exemplo. E trata-se de um caso único, resultado de um bem-sucedido esforço de pesquisa e uma inovação impressionante”, afirmou.

Segundo ele, a produção de etanol se baseia em verdadeiras biorrefinarias, com utilização da maior parte do que resulta da produção. “Isso significa que a produção tende a ser limpa, com efeitos muito positivos sobre a matriz energética brasileira – tanto para a energia elétrica como em relação à captação de carbono.”

As principais críticas feitas ao etanol, para Abramovay, são provenientes de duas vertentes. Uma delas faz eco às críticas internacionais que enfatizam a competição com a produção de alimentos. “Mas isso se aplica mais ao caso do etanol norte-americano. No caso brasileiro essa competição geradora de crises alimentares não ocorre”, disse.

A outra vertente se deve ao fato de a produção de etanol se apoiar sobre o latifúndio, implicando na monotonia das paisagens rurais. “O mais preocupante é uma possível expansão do etanol em direção ao Cerrado, o que seria um problema ambiental importante”, afirmou.

Outro ponto crítico se refere às dimensões do trabalho. “As condições são melhores do que em outras áreas da agricultura, mas ainda assim as jornadas de até 12 horas diárias são extremamente intensas. O trabalho manual deverá ser extinto em São Paulo nos próximos cinco anos, mas existe a preocupação de que ele seja estendido a outros estados com a expansão da cana-de-açúcar”, afirmou.

Em sua contribuição para o livro, Ignacy Sachs, professor emérito da École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris), matizou as críticas, defendendo que nenhuma razão natural justifica o caráter latifundiário da cultura de cana-de-açúcar para a produção de etanol.

“Ele acha que a cana-de-açúcar poderia ser objeto de uma exploração bimodal, com integração da agricultura familiar. A utilização da biomassa como alternativa energética poderia ser uma forma de gerar renda para agricultores que vivem próximos à linha de pobreza”, contou Abramovay.

Isso poderia ser feito, segundo Sachs, com uma mudança no padrão tecnológico de exploração da cultura. “No lugar de uma usina para uma área plantada de 40 mil hectares, o professor Sachs sugere algo na dimensão das usinas de produção de leite – um pouco menos eficientes do ponto de vista de custo, mas socialmente muito mais construtivas”, afirmou.

Desvio de rota – Quanto ao biodiesel, Abramovay destaca que o programa brasileiro nasceu como uma espécie de contraponto ao Programa Nacional do Álcool, ou Pró-Álcool, lançando a tentativa de aproveitar o potencial de produtos típicos da agricultura familiar na geração de bioenergia.

“Foi estabelecido muito rapidamente um conjunto de incentivos ao aumento da produção e ao relacionamento entre as fábricas e os agricultores familiares – ao utilizar os produtos desses trabalhadores, as fábricas teriam vantagens fiscais”, disse.

Mas na prática, segundo o professor, se o programa obteve sucesso por um lado – o biodiesel corresponde a 4% do diesel utilizado no país –, por outro lado a meta de beneficiar os agricultores pobres não foi alcançada, uma vez que a maior parte da produção se baseia em soja e sebo bovino.

“Não se inventa um mercado de uma hora para outra. A idéia do programa era estimular firmemente a produção de mamona no Nordeste. Mas até aqui a participação desse vegetal é irrisória. A grande lição crítica que se tira dessa experiência se refere à dificuldade de se estabelecer mercados específicos, pois determinados atores – os industriais da soja, no caso – começam a tomar conta do que estava destinado a outros”, afirmou.

Pelas diferentes análises presentes no livro, é possível concluir que, no Brasil, o uso da agricultura para a produção de energia é um caminho importante tanto para enfrentar problemas ambientais como sociais, estimulando a descarbonização da matriz energética e gerando renda para agricultores pobres.

“No entanto, a maneira como isso está sendo levado adiante atualmente faz com que os objetivos sociais ligados à produção de bioenergia não estejam sendo alcançados, ampliando também os riscos ambientais ligados à expansão dessas culturas. Tudo isso tem sido muito discutido em mesas-redondas, mas o acesso desse debate ao grande público é muito lento. Esperamos que o livro contribua para esclarecer todos os pontos de vista”, disse. (Fonte: Fábio de Castro/ Agência Fapesp)

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