Plutão pode ganhar 30 parceiros na “série B”

O principal responsável por Plutão ter sido rebaixado três anos atrás diz que o ex-planeta já tem muitos companheiros para se juntar a ele, e que ninguém precisa se preocupar com a solidão do pobre astro. Para o astrônomo americano Michael Brown, apesar de oficialmente só existirem quatro outros planetas-anões (atual classificação de Plutão), há centenas a serem descobertos.

O próprio pesquisador, que trabalha no Instituto de Tecnologia da Califórnia, diz que há provavelmente 30 objetos já qualificados. Brown descobriu cerca de 20 deles. Os três já ratificados pela IAU (União Astronômica Internacional) são Eris, Makemake e Haumea.

O carrasco – Brown é apontado como o carrasco de Plutão por ter achado Eris em 2005. Como o novo objeto era o maior dos dois, astrônomos se viram na obrigação de promovê-lo a planeta, ou então de rebaixar Plutão.

“A segunda coisa era realmente a mais sensata”, disse Brown à Folha ontem, antes de apresentar uma palestra na Assembleia Geral da IAU, no Rio. Com a proliferação de novos planetas-anões, que mal começou, ele rejeita o rótulo de culpado pelo rebaixamento. “Se há algum culpado, é Plutão, por ser muito pequeno.”

Com exceção de Ceres, que fica perto do cinturão de asteroides, todos os planetas-anões oficiais estão em uma faixa orbital chamada cinturão de Kuiper, a mesma região de Plutão. Segundo Brown, só não conhecemos mais planetas-anões porque o céu não foi suficientemente investigado.

“Nós já cobrimos cerca de 50% do céu, principalmente no hemisfério Norte” conta o pesquisador, que mora numa casa em Los Angeles, a três horas de distância do Observatório Palomar, onde realiza seus trabalhos. “Grandes telescópios que devem ser construídos na Austrália e no Chile sul vão cobrir mais 30% disso”, conta.

Depois de passar mais de dois anos recebendo mensagens de pessoas descontentes com a destituição do astro, Brown diz que agora o fenômeno arrefeceu. Os devotos da astrologia estavam entre os que mais reclamavam. “Eu dei um bônus para eles”, diz Brown. “Plutão não é mais planeta, mas os astrólogos ganharam agora vários planetas-anões com os quais mexer.”

O maior número de planetas-anões que está por vir, porém, não é do cinturão de Kuiper. Segundo Michael Brown, deve existir uma série de planetas com órbitas alongadíssimas, cerca de vinte vezes mais distantes que Plutão.

Um objeto com essas características, batizado de Sedna, foi achado em 2003 por Brown. “Estamos procurando outro assim. É o que mais queremos achar, mas até agora nada.”

O problema, diz, é que Sedna, que leva 12 mil anos para circular o Sol, só pode ser visto porque está num ponto mais aproximado de sua órbita. Outros planetas-anões de órbita superesticada só poderão ser encontrados por grandes varreduras celestes futuras. “Se esses projetos vingarem, poderemos achar mais dezenas ou até centenas de Sednas.”

Sem possibilidade de descobrir novos planetas agora, o astrônomo resolveu se dedicar mais a estudar os objetos que já havia apontado.

Ontem, Brown apresentou uma palestra sobre o exótico Haumea. Já se sabe que ele é um corpo rochoso ovalado coberto de uma camada relativamente fina de gelo puríssimo. Ele roda extremamente rápido, uma volta a cada 4 horas, e possui duas luas.

Brown defende a teoria de que isso tudo é sinal de que houve uma colisão fortíssima que originou seus satélites.

Ele explica que Haumea é originalmente o nome da deusa havaiana da fertilidade. No mito, os filhos surgem de pedaços do corpo arrancados da mãe.

Estudar crenças de povos tradicionais, aliás, é outra coisa à qual Brown tem se dedicado. Além de ser divertido, diz, é útil, pois a IAU em geral só aceita nomes derivados de figuras mitológicas.

“Eu me divirto”, diz, explicando as origens dos nomes. Makemake, flagrado num dia de Páscoa, ganhou o nome de uma divindade da ilha de Páscoa.

O nome do frio e distante Sedna é inspirado numa divindade dos equimós. Eris, que originou entre os astrônomos a controvérsia sobre a definição de planeta, também é a designação da deusa grega da discórdia. (Fonte: Rafael Garcia/ Folha Online)