Ciência rural turbina publicação no país

Se todos os pesquisadores brasileiros produzissem como os da área de ciências agrárias, o peso científico do país hoje seria equivalente ao da França. Já campos como psicologia, economia e ciências sociais, bem inferiores à média nacional, puxam a produtividade para baixo.

Os dados que permitem essas conclusões foram apresentados pelo presidente do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), Carlos Aragão, na reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em Natal (RN).

A medida usada nas estatísticas é o número de artigos publicados em revistas científicas mundo afora, indexados (cadastrados) em bases de dados internacionais.

“A ciência brasileira, apesar de aceita como uma ciência de qualidade, ainda não tem protagonismo mundial. São poucas as áreas em que você pode dizer que um grupo brasileiro causou uma verdadeira mudança de paradigma”, disse Aragão.

“Tanto que, nas reuniões da Academia Brasileira de Ciências, sempre alguém pergunta por que ainda não temos um Prêmio Nobel. Claro que um Nobel não é tudo, mas é um indicador de liderança científica.”

Na média, o país vem, porém, melhorando rapidamente. Só entre 2007 e 2008, o número de artigos publicados em revistas científicas internacionais cresceu de 19 mil para 30 mil – e o país subiu da 15ª para a 13ª posição no ranking mundial.

Margem de erro – O bioquímico Rogério Meneghini, especializado em medições de produtividade científica, lembra que pode existir uma margem de erro nas comparações.

Segundo Meneghini, elas funcionam para definir quais são os extremos, o que há de melhor e pior na pesquisa nacional, mas as áreas com notas intermediárias precisam ser analisadas caso a caso.

Isso porque a base internacional na qual os dados estão não separa os trabalhos científicos em campos –é necessário fazer buscas por palavras relacionadas à área.

Para Meneghini, é preciso ter cuidado especialmente em áreas interdisciplinares, como a bioquímica. “São áreas menos definidas e, conforme as palavras usadas numa busca, aparecem resultados diferentes. Nas pesquisas que fiz, a bioquímica está perto da média.”

Segundo ele, a baixa produção das ciências humanas se relaciona com a dedicação maior dos pesquisadores da área aos livros e coletâneas.

“Em outros lugares, como a Espanha, não é assim. Mesmo na França, de onde o Brasil herdou boa parte dessa sua maneira de fazer ciências humanas, o perfil da produção já está mudando”, diz.

Além disso, faria bem para a ciência brasileira que todas as suas áreas passassem a publicar mais em inglês, dizem os especialistas.

“É necessário aceitar que o inglês é língua franca”, diz Aragão. “Já está na hora de escrever em inglês.” (Fonte: Ricardo Mioto/ Folha.com)