Projeto Criosfera: Brasil pronto para ir ao interior da Antártida

Em menos de dois meses, no dia 10 de dezembro, 15 pesquisadores brasileiros e dois estrangeiros partem de Porto Alegre rumo à Antártida para mais uma etapa do projeto Criosfera (nome com denomina a massa de gelo do planeta). Esta será a segunda expedição científica brasileira ao local (a primeira consistiu em um acampamento) e servirá para que seja instalado o primeiro módulo avançado de pesquisa do País na parte central do continente gelado. A unidade chega à capital gaúcha na próxima quarta-feira (26) para receber os últimos equipamentos e dispositivos antes de seguir para o destino final.

O módulo, que tem o tamanho de um contêiner, será transportado por um avião cargueiro no fim deste mês para que, quando os pesquisadores cheguem lá, provavelmente no dia 16 de dezembro, já possam realizar as instalações necessárias. No continente, ele será puxado por um trator até o local em que deverá permanecer.

O primeiro espaço brasileiro no interior da Antártida poderá ser habitado apenas nos meses de dezembro e janeiro, no verão, quando a temperatura varia entre -20°C e -35°C. No restante do ano, quando pode alcançar os -60°C, a estação coletará, por meio de sensores, dados meteorológicos e climáticos, como velocidade e direção dos ventos, pressão atmosférica, radiação solar, emissão de CO² e temperatura, que serão enviados por satélite para o Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe), além de recolher amostras de partículas.

A estrutura, que estará localizada em uma área inóspita do continente – a 2,5 mil quilômetros ao sul da Estação Antártica Comandante Ferraz, a cerca de 550 km do Pólo Sul geográfico -, vai permitir que se faça o monitoramento do transporte de subprodutos de queimadas, além de proporcionar estudos nas áreas de glaciologia, geofísica e química do gelo polar.

Segundo o professor Jefferson Simões, o marco desta expedição é a instalação de um módulo em uma posição mais ao sul do continente, até hoje pouco monitorada. “Já realizamos pesquisas na Antártida, na região periférica, onde o frio é menos intenso, e as pesquisas se concentram no oceano e nas ciências biológicas; agora teremos outros desafios”, conta, lembrando que, embora as pesquisas brasileiras tenham começado tardiamente, nos anos 1980, nos últimos cinco anos elas cresceram bastante.

O módulo Criosfera I – A estrutura de um módulo é mais compacta que a de uma estação, que costuma ser habitada durante quase todo ano. Com 2,5 m de largura, 6 m de comprimento e 2,8 m de altura, ele tem a função de abrigar os equipamentos, embora comporte também quatro pesquisadores.

O custo da estrutura fabricada na Suécia ficará em torno de R$ 185 mil. Com os gastos em equipamentos e operação de transporte, a implantação do módulo brasileiro chega a R$ 930 mil, o que não é considerado um orçamento alto para os padrões de pesquisa no local.

O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) da Criosfera disponibilizou R$ 5 milhões para três anos e meio de estudos e, caso não haja imprevistos, a instalação deverá funcionar por 15 anos.

Pesquisas na Antártida – A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) é a sede do INCT da Criosfera, responsável pelo módulo. Apesar de desde 1984 o Brasil contar com uma estação na Ilha Rei George, localizada a 130 km do continente, só recentemente pesquisadores brasileiros estão aventurando-se pelo interior do continente. “Pesquisas de outro tipo podem ser feitas na região onde estará o módulo, isso também demonstra a capacidade dos brasileiros”, lembra Simões.

Para o professor do Centro de Pesquisas Antárticas da Universidade de São Paulo (USP), Antônio Carlos Rocha Campos, a implantação do módulo “é um avanço do ponto de vista geográfico e das pesquisas”. Segundo ele, não ficamos mais restritos às “bordas” do continente e, para desenvolver os estudos relacionados às mudanças climáticas, baseados nas camadas de gelo, o interior da Antártida é o local mais apropriado.

O Brasil já investiga o continente gelado há apenas 30 anos, mas, de acordo com o professor da USP, o programa brasileiro avançou: apresenta uma diversidade de estudos e está em uma posição intermediária no contexto global, apresentando estudos qualificados.

Atividades de pesquisa na Expedição Criosfera – Na expedição, os pesquisadores estarão focados nos estudos da química da atmosfera, glaciologia, geofísica, climatologia e, especialmente, no estudo do transporte de poluentes da América do Sul para o centro da Antártida. Há interesse especial em saber se já existem sinais no continente gelado da poluição atmosférica causada pelas queimadas no Brasil. Por isso, o módulo Criosfera I, coletará de forma contínua tanto gases como micropartículas sólidas para monitorar o ar.

Além disso, a equipe vai realizar uma perfuração do gelo de aproximadamente 150 m para descobrir a história ambiental ao longo dos últimos 500 anos. Este estudo serve como referência às amostras da atmosfera atual coletadas pelo Criosfera I. (Fonte: Portal Terra)