Suspensão da cooperação espacial acentua crise entre EUA e Rússia

A decisão da Nasa de congelar toda interação com a Rússia, exceto na Estação Espacial Internacional (ISS), representa uma piora inesperada das relações entre Washington e Moscou em razão da crise da Ucrânia, que até agora não tinha afetado nada fora do âmbito diplomático e militar.

E essa deterioração pode aprofundar-se ainda mais, como advertiu nesta quinta-feira em sua entrevista coletiva diária o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, ao não descartar que os Estados Unidos tomem “novas medidas” em resposta às ações da Rússia na crise ucraniana e em sua anexação da península da Crimeia.

Washington está “restringindo” os contatos oficiais de governo a governo após estudar “caso por caso”, de acordo com “os interesses nacionais”, declarou Carney.

A cooperação entre russos e americanos no espaço tinha se mantido até agora imune aos altos e baixos na relação entre Washington e Moscou.

De fato, há apenas uma semana astronautas russos e americanos partiram juntos em uma nave Soyuz da base de Baikonur, no Cazaquistão, rumo à ISS.

Mas, “dada a violação em curso da soberania e integridade territorial da Ucrânia por parte da Rússia”, a agência espacial americana anunciou ontem a suspensão “da maioria de seus compromissos vigentes com a Federação Russa”.

Essa suspensão afeta todas as viagens dos funcionários da Nasa à Rússia, as visitas das equipes da agência espacial russa às instalações da americana, os encontros bilaterais, e-mails, teleconferências e videoconferências, segundo o anúncio.

O medo entre analistas e funcionários do governo americano é que, em represália pela decisão da Nasa, a Rússia suspenda as inspeções internacionais de armamento nuclear em seu território, algo que já ameaçou há menos de um mês.

Essas inspeções estão recolhidas no tratado de redução de armas nucleares Start III, assinado entre Rússia e EUA em 2010 e que constitui um dos pilares fundamentais da cooperação bilateral.

Segundo informou hoje a agência de energia atômica russa Rosatom, os EUA já suspenderam a cooperação com Moscou em vários projetos para o emprego pacífico da energia atômica.

Por outro lado, o secretário de Defesa americano, Chuck Hagel, pediu à Força Aérea que revise o emprego de motores russos nos foguetes que usa para pôr em órbita os satélites militares, de acordo com “The New York Times”.

Os contatos entre militares dos EUA e da Rússia já estão paralisados há semanas, incluídos os exercícios, reuniões bilaterais, visitas portuárias e conferências planejadas.

O mesmo ocorre com as conversas bilaterais sobre comércio e investimento, algo ao que uniu-se na semana passada a decisão dos membros do G7 (EUA, França, Reino Unido, Itália, Alemanha, Canadá e Japão) de não participar mais com a Rússia em reuniões do formato G8 até que Moscou “mude o rumo”.

Além disso, o governo do presidente dos EUA, Barack Obama, ordenou uma série de sanções, as últimas ratificadas nesta semana pelo Congresso, contra pessoas e entidades tanto russas como ucranianas por seu apoio ao Kremlin na anexação da Crimeia.

Obama e seu vice-presidente, Joe Biden, se reuniram hoje a portas fechadas na Casa Branca com os líderes republicanos e democratas em ambas câmaras do Congresso para falar, precisamente, da crise ucraniana e a relação com a Rússia.

Carney detalhou antes do encontro que Obama informaria aos congressistas de sua viagem pela Europa da semana passada, que esteve marcada pelos “desafios” colocados pela “violação” da Rússia à soberania ucraniana, algo que gerou entre Moscou e Washington a pior crise desde os tempos da Guerra Fria. (Fonte: Terra)