Cidade do Canadá tem mais ursos do que moradores

Urso preto, urso pardo e os imensos ursos polares. O Fantástico foi até a área deles, uma cidadezinha canadense que tem mais ursos do que moradores, atrás desses bichos que encantam e surpreendem, que são extremamente agressivos, mas podem ser dóceis e fofos.

Para chegar até a região dos ursos, nossa equipe pegou um trem que atravessa boa parte do país. O vagão todo envidraçado garante uma vista privilegiada das paisagens belíssimas do caminho.

O Canadá é o segundo maior país do mundo em extensão. Só para fazer o percurso de Vancouver a Jasper, foram mais de 20 horas de trem, e ainda mais três de carro até a primeira parada: Banff.

A cidade fica dentro de um parque nacional, que tem mais de 6,6 mil quilômetros quadrados e é tombado pela Unesco como patrimônio histórico da humanidade. Cercada por montanhas, florestas e lagos glaciais azuis, os cenários de Banff são de tirar o fôlego.

Circular de carro pelas vias que cortam o parque exige atenção. A todo momento nos deparamos com animais na beira da pista, e fica bem claro que nós somos os intrusos. Estamos no ambiente deles. A recomendação é manter distância, mas, às vezes, fica difícil obedecer.

Os alces com chifres enormes são os machos e, nessa época do ano, ficam mais agressivos porque é época de acasalamento.

Encontramos alguns ursos pretos no meio da montanha. Esse tipo de urso só existe na América do Norte. É a espécie mais comum e também a de menor tamanho. Seus movimentos calmos e lentos enganam. Eles são rápidos e traiçoeiros. Por isso, só conseguimos vê-los à distância.

Mas a aventura atrás desses animais está só começando. Partimos em direção a um lugar que é um dos únicos do mundo onde é possível chegar perto dos ursos no seu ambiente natural: Churchill, cidade mais conhecida como a capital dos ursos polares, os maiores carnívoros terrestres do planeta.

Lá, vivem 900 pessoas e cerca de mil ursos. Os moradores costumam dizer que tem mais de um urso por pessoa. Nessa época do ano, eles estão escondidos nas pedras ou circulando pela natureza ao redor de Churchill. E muitas vezes, especialmente à noite, aparecem na cidade.

O nativo Paul Kasuratsiar conta que ele costuma usar a luz do celular para assustar e afastar os ursos que encontra pelo caminho. “O perigo é você tropeçar neles quando estão dormindo na neve, porque os dois são brancos e você não vê”, diz.

A cidade e suas redondezas são monitoradas por câmeras e guardas ambientais. Logo que chegamos, flagramos uma perseguição: um guarda tenta impedir um urso de entrar na área urbana de Churchill.

O coordenador de segurança, Duane Collins, diz que recebeu o alerta da presença de um urso na área pelo rádio. O local é um observatório de ursos.

Para impedir a entrada dos ursos na cidade, ele explica: “Usamos esta arma de efeito moral. Ela só faz barulho. O último ataque que resultou em morte aconteceu há mais de 30 anos”, conta.

Os ursos polares chegam em Churchill pelo mar. Durante o verão, a camada de gelo que cobre o oceano derrete. Eles chegam nadando e ficam por lá até a chegada do inverno, quando, novamente, o mar congela e eles podem voltar para o seu ambiente de caça.

Os ursos polares se alimentam principalmente de focas durante a temporada do gelo, que dura cerca de sete meses. O problema é que, com o aquecimento global e o aumento das temperaturas na região da Baía de Hudson, o inverno está cada vez mais curto e os ursos chegam ao continente mais magros e famintos. Isso talvez explique por que cada vez mais eles têm sido vistos na área urbana.

Apesar do medo, a vida em Churchill gira em torno desses animais, que atraem turistas do mundo inteiro nesta época do ano.

Para chegar perto dos ursos, um mecânico da cidade inventou até um veículo. Ele foi todo pensado para causar pouco impacto na natureza e muita segurança aos turistas. Por isso, tem pneus enormes.

O guia explica que nada pode afetar o ambiente dos ursos. Por isso, os pneus são tão largos, para diminuir a pressão sobre o solo. A calibragem deles também ajuda a distribuir o peso.

A aventura atrás dos ursos continua. Uma hora depois, eles começam a aparecer. Qualquer barulho pode assustá-los. Eles têm um olfato tão sensível que são capazes de sentir a nossa presença pelo cheiro em uma distância de até 30 quilômetros.

A pesquisadora explica que as fêmeas são menores do que os machos e têm um comportamento desconfiado. Como elas são bem menores, também são mais cautelosas com a própria segurança.

A idade máxima de um urso é por volta de 20 anos e, normalmente, chega a 600 quilos.

Um urso se aproxima, rodeia o veículo e tenta alcançar a janela. Depois, sorrateiramente, vai indo para parte de trás do carro e arranca, com a boca, sem esforço algum, a lanterna traseira.

Na área urbana de Churchill, ninguém quer saber das brincadeiras dos ursos, não. A brasileira Vera Romano é chef de cozinha e acabou de chegar para trabalhar na cidade. “Estou apavorada. Tem que andar na rua olhando tudo quanto é beco. Você não pode trancar seu carro, por lei. Porque se você está andando na cidade e você vê um urso, você tem que correr para dentro do carro para não ser comida. Aqui não se tranca a porta de casa também”, conta.

Antônio da Silva é dono da padaria da cidade, e diz que não precisa ter medo. Basta ter atenção. “Quando saio de casa olho para os dois lados, olho para o lado direito, para o norte, para o sul, olho para onde puder olhar, tudo que eles possam estar. Se estamos em uma grande cidade podemos ser esfaqueados por outra pessoa qualquer, e não é um urso, é um humano”, afirma.

Os ursos também vão para a prisão. Nossa equipe não pôde entrar, mas fotos mostram como eles ficam do lado de dentro. São 28 celas, cinco com ar-condicionado.

Um guarda ambiental diz que a prisão recebe cerca de 45 ursos por ano. Muitos deles são capturados com armadilhas espalhadas pela cidade. Pedaços de foca são colocados em um saco do lado de dentro. Quando o urso puxa o saco, a armadilha se fecha.

Acompanhamos o dia de colocar um urso em liberdade. Ele sai sedado da prisão e começa toda uma operação. São necessários cinco homens para amarrá-lo dentro da rede. Tudo acontece muito rápido e ele é levado para o seu ambiente natural.

Tantos cuidados com os ursos polares de Churchill se justifica: nos últimos dez anos, com o aquecimento global, o gelo derrete cada vez mais cedo. O inverno, que é a temporada de caça e alimentação dos ursos, já está quase um mês mais curto. Os animais chegam ao continente cada vez mais magros e famintos. Muitos, de tão fracos, não conseguem sobreviver. E, para salvar esses animais, só tem um caminho: a preservação do meio ambiente. (Fonte: G1)