‘Orgulho’, diz brasileiro que participou de missão que pousou em cometa

O pouso de um módulo robótico em um cometa, anunciado às 14h03 desta quarta-feira (12), durou cerca de sete horas. Para um brasileiro que participou do projeto espacial, no entanto, o feito inédito foi alvo de um trabalho de três anos.

O engenheiro Lucas Fonseca, de 30 anos, trabalhou na agência espacial alemã de dezembro de 2009 a dezembro de 2012. Lá, dedicou-se à missão que enviou a sonda Rosetta ao espaço levando o módulo Philae, que pousou no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko nesta quarta-feira depois de dez anos.

O trabalho de Lucas foi justamente relacionado à etapa do pouso. Ele era o único não europeu em uma equipe que tentava prever o que aconteceria do momento em que o módulo se desprendesse da sonda até pousar no chão do cometa.

“Isso que aconteceu hoje foi meu trabalho por três anos. Eu tentava antecipar possíveis trajetórias da sonda e criar modelos matemáticos que simulassem essa descida”, relatou ao G1.

Apesar de Lucas não ter mais vínculo com a agência espacial, amigos que ainda estão lá o têm mantido informado. Nesta madrugada, o brasileiro ficou acordado até as 3h devido à expectativa. De manhã, deixou de lado seus afazeres para acompanhar o pouso. “Meus colegas da Alemanha estão há dois, três dias virados. Na hora do pouso a comemoração foi total, o pessoal vibrou”, conta.

Ele afirma, porém, que ainda há uma tensão entre os cientistas sobre o que vai acontecer. “É tudo muito recente. O momento que vem logo depois do pouso é um pouco nebuloso. Não se sabe ao certo o que está acontecendo, as mensagens demoram 40 minutos para chegar até aqui. Em dois ou três dias vamos saber melhor”, afirma.

‘Feito extraordinário’ – Uma das questões que estão sendo analisadas é que, de acordo com a ESA (agência espacial europeia), o toque na superfície do cometa não aconteceu conforme o planejado, já que os arpões, que fixariam o módulo no cometa, não dispararam em um primeiro momento. “Parece que eles não dispararam. Mesmo assim, o módulo conseguiu pousar, o que foi um milagre”, diz o brasileiro.

Mas, segundo ele, independentemente do que aconteça, o que ocorreu até aqui já foi um feito “extraordinário”. “Não se via algo tão extraordinário na área há muito tempo. Em termos de tecnologia, é algo parecido à chegada do homem à Lua”, afirma.

Para ele, participar do projeto é uma “oportunidade única na vida”. “Fico orgulhoso de ter, de certa forma, representado o Brasil lá. É uma iniciativa que não é territorial, é uma conquista da humanidade”, diz.

Pato de borracha – Lucas é natural de Santos (SP) e se formou em engenharia mecatrônica na USP. Ele sonhava em trabalhar com engenharia espacial e fez mestrado nessa área na França, no Institut Supérieur de l’Aéronautique et de l’Espace. Seu projeto de mestrado foi sobre a missão da sonda Rosetta, e a partir daí ele foi convidado para trabalhar na agência espacial alemã. Hoje ele mora em São Paulo, tem uma empresa de engenharia aeroespacial e dá aulas na USP de São Carlos.

Durante os testes que fez para a missão, uma das dificuldades era que não existia uma imagem visual do cometa, e por isso não se sabia qual era o seu formato.

“A gente sabia que ele existia, mas ele nunca tinha sido fotografado. Tínhamos que fazer todos os cálculos dentro de um universo de possibilidades do que seria esse cometa. Achávamos que ele tinha o formato de uma batata, mas depois vimos que ele parecia um pato de borracha”, conta.

Segundo Lucas, ele e os colegas experimentaram em outros momentos emoção parecida com a que sentiram durante o pouso do módulo Philae no cometa. “A sonda viajou dez anos e passou a maior parte do tempo hibernando. Não sabíamos se ela iria religar. Teve outros momentos cruciais. Por exemplo, quando ela se aproximou demais da órbita da Terra e de Marte. Muita coisa poderia ter dado errado. Mas pousou, pronto, foi um sucesso”, diz o brasileiro. (Fonte: G1)