Experiência com a própria hemoglobina foi motivação inicial de Nobel de Química

O estereótipo do cientista franzino, sempre a postos na bancada do laboratório com seus óculos fundo de garrafa e avesso a qualquer atividade física, rapidamente se desfaz ao se conhecer a história de vida do suíço Kurt Wüthrich – vencedor do Nobel de Química em 2002.

Primeiro de sua família a ter um diploma universitário, Wüthrich graduou-se em Química, Física e Matemática pela University of Bern, na Suíça, entre os anos de 1957 e 1962. Também nessa época, conquistou seu primeiro emprego como professor de Esportes em uma escola de ensino médio – cargo que exerceu durante cinco anos.

Paralelamente, nos meses de inverno, trabalhava como instrutor de esqui em resorts dos alpes suíços. Em uma dessas ocasiões conheceu Marianne Briner, com quem teve dois filhos e é casado até hoje.

Entre 1962 e 1964, enquanto cursava doutorado em Química na University of Basel, na Suíça, praticava em média 25 horas semanais de exercícios físicos intensos e frequentava cursos de Anatomia e Fisiologia com o objetivo de se tornar bacharel em Esportes.

Durante o pós-doutorado, realizado na University of California, Berkeley, Estados Unidos, começou a desenvolver estudos com ressonância magnética nuclear (RMN). Alguns anos depois, motivado pelo desejo de melhorar seu desempenho esportivo, decidiu estudar a estrutura de sua própria hemoglobina – proteína existente nos glóbulos vermelhos e responsável pelo transporte de oxigênio no sistema circulatório.

Em meados dos anos 1970, começou a desenvolver um método que possibilitasse usar a RMN para analisar proteínas em solução. Basicamente, a ideia consiste em bombardear a amostra com fortes ondas eletromagnéticas.

O núcleo de certos átomos, como o de hidrogênio, responde emitindo suas próprias ondas eletromagnéticas, que – ao serem analisadas – dão pistas sobre a estrutura da molécula. Mas, inicialmente, o método só funcionava com moléculas pequenas.

A análise de proteínas complexas oferecia como resultado um emaranhado indecifrável de sinais de rádio. Wüthrich encontrou um meio de determinar a distância entre os átomos de hidrogênio e, assim, construir uma imagem tridimensional da molécula-alvo.

Obteve seu primeiro sucesso com a técnica em 1984, quando elucidou a estrutura tridimensional de uma proteína existente no plasma do touro. O feito lhe rendeu a indicação para o Nobel quase 20 anos mais tarde. Estima-se que cerca de 20% das estruturas tridimensionais de proteínas conhecidas até o ano de 2002 tenham sido determinadas com uso de RMN.

Wüthrich dividiu o prêmio com John Fenn (Virginia Commonwealth University) e Koichi Tanaka (Shimadzu Corp.). Os dois desenvolveram métodos diferentes para identificar determinadas proteínas em solução pela medição do peso das moléculas.

Atualmente, Wüthrich é professor de Biologia Estrutural do Instituto de Pesquisa Scripps, nos Estados Unidos, e docente de Biofísica na Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH), na Suíça.

Por meio do programa Ciência Sem Fronteiras, atua desde 2012 também como pesquisador visitante no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Biologia Estrutural e Bioimagem (Inbeb) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Em entrevista à Agência FAPESP, concedida durante a inauguração da Plataforma II de RMN do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara, Wüthrich falou sobre suas atuais linhas de pesquisa. Um de seus objetivos hoje é compreender doenças causadas por versões anormais das proteínas príons, que podem ser transmissíveis.

Um exemplo é a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), caracterizada por um quadro de demência rapidamente progressiva, desordem na marcha, postura rígida, crises epilépticas e paralisia facial que confere ao portador a aparência de sempre estar sorrindo. A DCJ faz parte do grupo das encefalopatias espongiformes e é considerada a versão humana da doença da vaca louca.

No evento realizado em Araraquara, o pesquisador apresentou uma palestra na qual abordou a evolução das pesquisas com RMN, as perspectivas para essa área e a importância da ciência básica motivada pela curiosidade. (Fonte: Agência FAPESP)