Peixes ainda procuram oxigênio em afluente do rio Tietê em Salto/SP

Um vídeo publicado nesta terça-feira (9) em uma rede social mostra um cardume ainda procurando oxigênio no córrego Ajudante, afluente do rio Tietê, em Salto (SP). Mais de 40 toneladas de peixes mortos foram retiradas do local depois da passagem da “água preta”, no dia 27 de novembro.

As imagens, feitas pelo vereador Edemilson Santos, mostram dezenas de peixes parados, com as bocas para fora da água, tentando respirar. Durante a tarde, técnicos da Cetesb estiveram no córrego novamente para colher amostras da água. Os peixes mortos voltaram a aparecer, e foram levados um animal morto e outro vivo para análise.

Ainda por causa dos peixes mortos, a população tem reclamado do odor próximo ao rio. “Nossas crianças estão passando mal por causa do cheiro”, diz Alexandre Bordenalle, que mora a cerca de 100 metros do rio Tietê. “Minha casa está com portas e janelas fechadas, porque não dá para aguentar. Minha filha não pode nem sair no quintal mais”, completa o morador.

Outro morador que preferiu não se identificar confirmou o problema. “Desci agora há pouco no rio. Tem peixes mortos, sim. Acho que o pior lugar é no bairro de São Pedro e São Paulo. O cheiro está horrível lá”, conta.

Entenda o caso – No dia 27 de novembro, internautas enviaram fotos e vídeos à redação do G1 que mostravam a “água preta” no trecho do rio Tietê, em Salto. O registro foi feito durante a manhã por moradores que passaram pelo local. Segundo a internauta Rafaela Paes, moradora da região, o susto foi grande. “A água estava parecendo piche, asfalto derretido. Muito feia a situação”, contou.

Nos dias seguintes, 40 toneladas de peixes mortos foram retiradas do Tietê e de afluentes. Segundo a Cetesb, a mancha escura foi um fenômeno natural causado pelas chuvas fortes nos dias que antecederam a situação. A Prefeitura de Salto não aceitou a resposta e protocolou junto ao Ministério Público um relatório com todos os detalhes sobre o fenômeno e as consequências. O documento foi entregue na última quarta-feira (3).

De acordo com o secretário de Meio Ambiente de Salto, João de Conti Neto, várias hipóteses devem ser investigadas pela Promotoria Pública e pela Cetesb, como a abertura de barragens, a reversão do rio Pinheiros e o lançamento de afluente. O MP já instaurou inquérito para apurar o fenômeno. Para a prefeitura, o problema começou fora de Salto. “A mancha veio da capital. Temos notícias de outras cidades antes de Salto por onde as águas escuras passaram. Por isso, não há possibilidade de ter sido provocada por nenhuma empresa daqui”, disse Neto.

O município já pagou por outros prejuízos ambientais. Em julho deste ano, quase 11 toneladas de lixo foram retiradas do rio após o longo período de estiagem. Materiais como garrafas pet, embalagens e outros resíduos apareceram depois que o nível da água baixou oito metros. Para o prefeito, Juvenil Cirelli, é injusto que o município fique responsável por todos os gastos. “Nosso papel é subsidiar com informações os órgãos responsáveis pela investigação. O que tínhamos de fazer foi feito. Mais uma vez, pagamos por algo que não temos culpa”, declarou Cirelli.

Segundo um especialista consultado pela Secretaria, o maior impacto foi observado na cidade devido à piracema. Os peixes vindos de Barra Bonita encontram em Salto um obstáculo, já que a barragem impede que subam o rio, e há probabilidade de que a passagem dessas águas tenha coincidido com a chegada de um grande cardume, que, na falta de oxigênio, procurou refúgio no Córrego do Ajudante.

Recuperação lenta – A quantidade de peixes que morreram no rio Tietê, em Salto, só será totalmente reposta daqui a quatro anos, segundo o biólogo Welber Smith. A mancha escura, que dominou cerca de 100 Km do rio, matou 40 toneladas de peixes de diversas espécies.

“Para repor o número de peixes, vão no mínimo três piracemas [época de reprodução desses animais]. Não dá para estimar o tamanho do impacto ambiental. Esses peixes serviriam de alimento para outros animais, que serviriam de alimento para outros e assim por diante”, diz o biólogo.

Explicação – A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) informou que o fenômeno da água preta foi provocado por resíduos que estavam acumulados no solo e no leito do rio, trazidos à tona com as chuvas que atingiram a região. Na tentativa de buscar oxigênio em água limpa, os peixes migraram para o córrego do Ajudante, afluente do rio Tietê, com aproximadamente um quilômetro de extensão, mas não conseguiram sobreviver. (Fonte: G1)