Hospital de Santa Maria, no DF, tem 16 isolados por superbactéria

A Secretaria de Saúde do Distrito Federal informou nesta quarta-feira (3) que 16 pacientes estão isolados no Hospital Regional de Santa Maria com a bactéria multirresistente Acinetobacter baumannii. Eles estão em leitos de UTI e de clínica médica e, segundo o hospital, alguns foram isolados ainda em janeiro. Segundo o médico infectologista da unidade, Paulo Cortez, os pacientes têm idade avançada e outras doenças crônicas anteriores, e os quadros são graves.

“Estamos em uma situação em que pacientes crônicos, com muito tempo de internação, estão com essas bactérias de um único tipo. Todos os pacientes são submetidos aos protocolos de segurança da unidade. Os leitos estão isolados indidivualmente e não há áreas interditadas”, diz Cortez.

Segundo a direção do hospital, 14 dos 16 pacientes em isolamento estão apenas colonizados pela bactéria. Isso significa que o micro-organismo está presente em órgãos, mas não foi identificado na urina ou no sangue e, por isso, não causa sintomas. Os outros dois estão infectados e passam por tratamento com antibióticos.

A secretaria e o hospital não divulgaram estimativa de alta médica para esses pacientes. Segundo Cortez, aqueles que estão colonizados continuam o tratamento das doenças anteriores e podem receber alta quanto essas doenças forem superadas. O quadro clínico de cada paciente não foi detalhado.

De acordo com a secretaria, todos os pacientes isolados tiveram exames negativos para contaminação por outras bactérias superresistentes, conhecidas popularmente como “superbactérias”, como a KPC e o enterococo resistente à vancomicina. As duas foram encontradas em pacientes do Hospital Regional de Taguatinga na última semana.

Até as 18h desta terça, outros seis pacientes ainda eram mantidos em isolamento nos hospitais de Taguatinga e do Guará. Segundo a pasta, eles respondiam bem ao tratamento clínico de outras doenças e tinham previsão de alta “em breve”.

Atendimento – Inaugurado há sete anos, o Hospital Regional de Santa Maria tem a maior área de tratamento intensivo do DF, com 104 leitos adultos, pediátricos e neonatais. Segundo a diretora médica da unidade, Milen Mercaldo, o atendimento segue normal e não há motivos para pânico.

“Todas as áreas estão funcionando normalmente, e os pacientes e acompanhantes não precisam ter medo de entrar no hospital. O cuidado que se pede é o padrão, o pilar básico do combate bacteriano, que é a higienização das mãos sempre que a pessoa entra em contato com o ambiente hospitalar”, diz Milen.

Assim como o KPC e o enterococo, o Acinetobacter baumannii não se propaga pelo ar, e requer o contato direto com pessoas infectadas ou com os aparelhos utilizados por elas. Segundo os especialistas, a bactéria é comum em ambiente hospitalar, mas aproveita a queda de imunidade dos pacientes para causar a infecção.

“As bactérias multirresistentes fazem parte do processo evolutivo bacteriano. Assim como a gente evolui, elas também evoluem. Para o manejo, são necessários antibióticos de espectro maior e medidas de contenção, como o isolamento de contato. Mas, repito, o Hospital de Santa Maria não adota interdição de áreas”, diz Cortez.

Segundo o médico, a possibilidade de transferência das superbactérias entre hospitais só existe quando os protocolos de segurança são quebrados. Ele garante que isso não aconteceu nas últimas semanas. “Todo paciente que passa 48h em uma unidade de saúde e é transferido vai para isolamento. É uma rotina, com ou sem bactéria multirresistente”, diz.

Sem remédios – Desde o início das notificações de superbactérias na rede pública do DF, a Secretaria de Saúde e os médicos responsáveis reforçam que a situação é “normal” e acontece em todo o mundo nos últimos anos. Nesta quarta, autoridades reconheceram que o agravamento da crise na saúde, nos últimos meses, pode ter influência na disseminação de infecções.

“A gente passou por um processo muito difícil [de abastecimento] nos últimos meses, e estamos fazendo um trabalho conjunto para a distribuição e a racionalização dos antibióticos”, diz Cortez. O hospital afirma que tem os medicamentos necessários para combater as superbactérias identificadas nos pacientes isolados.

‘Problema mundial’ – Segundo a diretora de infectologia da Secretaria de Saúde, Maria de Lourdes Lopes , as bactérias de resistência múltipla se tornaram um problema mundial e disseminado. A especialista afirma que o uso constante de antibióticos está selecionando os micro-organismos mais resistentes, que aproveitam a queda na imunidade dos pacientes para atacar.

“A Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que a resistência bacteriana é o principal problema mundial de saúde pública. Com essas resistências sucessivas, estamos ficando sem possibilidade de tratar as infecções. Não é uma questão para os nossos netos, e sim, algo que estamos vivendo hoje”, diz.

A médica explica que cada micro-organismo multirresistente tem um comportamento diferente e que, em geral, o contágio não é feito por via respiratória. Para haver contaminação, é preciso que a pessoa toque na pessoa infectada ou em itens usados por ela. Ao contrário dos vírus, que são frágeis em ambiente externo, essas bactérias conseguem sobreviver por muito tempo em superfícies mal higienizadas.

“Essas bactérias como a KPC têm capacidade elevada de sobrevivência. Podem ficar em uma grade de cama, em um prontuário por semanas, até meses”, diz. Maria de Lourdes cita como ‘bactérias da moda’ os micro-organismos multirresistentes dos gêneros Klebsiella (como a KPC), Acinetobacter e Pseudomonas, os enterococos e o Staphilococcus aureus.

Resistência – “Superbactéria” é um termo que vale não só para um organismo, mas para bactérias que desenvolvem resistência a grande parte dos antibióticos. Enzimas passam a ser produzidas pelas bactérias devido a mutações genéticas ao longo do tempo, que tornam grupos de bactérias comuns como a Klebsiella e a Escherichia, resistentes a muitos medicamentos.

Outro mecanismo para desenvolvimento de superbactérias é a transmissão por plasmídeos – fragmentos do DNA que podem ser passados de bactéria a bactéria, mesmo entre espécies diferentes. Uma Klebsiella pode passar a uma Pseudomonas, e esta pode passar a uma terceira. Se o gene estiver incorporado no plasmídeo, ele pode passar de uma bactéria a outra sem a necessidade de reprodução.

No território nacional circulam outras bactérias multirresistentes, como a SPM-1 (São Paulo metalo-beta-lactamase). Entre os remédios ineficazes estão as carbapenemas, uma das principais opções no combate aos organismos unicelulares. Remédios como as polimixinas e tigeciclinas ainda são eficientes contra esses organismos, mas são usados somente em casos de emergência, como infecções hospitalares.

KPC – Em outubro do ano passado, a Secretaria de Saúde isolou a UTI neonatal do Hospital Materno Infantil depois que exames feitos em três bebês apontaram a presença da superbactéria KPC. De acordo com a pasta, o diagnóstico não significava que eles desenvolveriam infecção, mas a medida havia sido adotada para evitar uma eventual propagação do micro-organismo.

Em 2010, casos notificados de pessoas infectadas pela KPC levaram a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a instituir normas de combate à bactéria. Entre as medidas anunciadas estava a instalação de dispensadores de álcool em gel em todos os ambientes de atendimento nos hospitais e clínicas públicas e particulares.

Em 2009, de 1º de janeiro até o dia 15 de outubro, 18 pacientes morreram por conta da KPC no DF. No mesmo período, foram registradas 183 pessoas portadoras da bactéria, das quais 46 tiveram infecção. A Secretaria de Saúde não informou o número total de casos desde então.

A KPC já foi identificada em Minas Gerais, São Paulo, Distrito Federal, Goiás e Santa Catarina. Ela faz parte da flora intestinal das pessoas e pode ser transmitida por meio do contato. As complicações costumam ocorrer somente em casos de pacientes com baixa imunidade, como os que estão com câncer em estágio avançado ou passaram por transplantes. (Fonte: G1)