Agricultura familiar tem nova rotina no sertão

Desde 2012, agricultores familiares de 16 municípios do território da Bacia do Jacuípe, no semiárido baiano, vêm mudando a sua rotina de trabalho. O principal impulso para essa transformação foi dado a partir do projeto Adapta Sertão, desenvolvido pela Rede de Desenvolvimento Humano (REDEH), com o apoio de R$ 2,2 milhões do Fundo Clima, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente (recebidos no período de 2012 a 2014).

O Adapta Sertão é um projeto de adaptação à mudança climática que prevê a implantação de tecnologias de irrigação limpas para o uso mais eficiente dos recursos hídricos disponíveis no sertão. Além disso, contempla a capacitação de agricultores para a incorporação de novos mecanismos de manejo produtivo não predatórios e mais resistentes à seca, acesso ao crédito, e identificação de nichos de mercado que possam absorver a produção dos agricultores.

Cooperativismo – Segundo Daniele Cesano, coordenador técnico do projeto, o Adapta Sertão aposta no fortalecimento do cooperativismo e na inclusão de mulheres e jovens no manejo produtivo dos recursos locais. “Formamos uma rede de cooperativas cuja visão é identificar, testar, refinar e disseminar um conjunto de tecnologias e práticas sociais que promovam a adaptação à mudança climática na região semiárida”, explicou. O foco da rede é o desenvolvimento da agricultura e da agropecuária, contribuindo para a segurança alimentar, a redução da pobreza e a sustentabilidade da Caatinga.

O coordenador do projeto ressaltou que existe ainda um pensamento errado, de que a preservação da Caatinga e a produção agropecuária não podem coexistir. “Na realidade, quando essa integração é feita, cria-se um bioma muito mais saudável e próspero, que aumenta a produção e não a diminui” disse. “O projeto vem mostrando o caminho nesta direção.”

Principais ações – A estratégia da rede de cooperativas se baseia na integração de oitos eixos, visando garantir a sustentabilidade dos empreendimentos ligados à rede: o MAIS (Módulo Agroclimático Inteligente e Sustentável); Industrialização; Linhas produtivas primárias e secundárias; Cooperativismo; Capacitação; Pesquisa; Financiamento; Comercialização; e Políticas Públicas.

O “coração tecnológico” do Adapta Sertão é o Modulo Agroclimático Inteligente e Sustentável.“Para melhorar a convivência com a seca e se adaptar ao aumento das estiagens por causa da mudança do clima, a agricultura precisa ter acesso a tecnologias de produção eficientes e inovadoras”, enfatizou Cesano.

Resultados – Como resultado do Adapta Sertão, o MAIS se consolidou como modelo técnico, devidamente implantado com mais de 150 famílias da agricultura familiar. Com esse intuito, foi identificada e testada com essas famílias uma cesta de equipamentos tecnológicos, especificadamente pensados para aumentar a resistência ao clima e facilitar a produção no campo, levando em conta a participação feminina na produção familiar.

Desde o início do projeto, foi constatado que a organização da produção de leite, realizada de acordo com o modelo MAIS, pode aumentar a produção de cada cabeça de gado no mínimo em 30%. Segundo Cesano, o produtor de leite pode, no mínimo, dobrar sua produção, hoje de 50 litros/dia, chegando até 150 litros/dia, dependendo de fatores técnicos. “Corretamente implementado, o módulo pode garantir um mínimo de dois salários mínimos mensais por produtor”, explicou.

Mulheres no sertão – Desde a sua criação, o Adapta Sertão já identificou e consolidou quatro cadeias produtivas: leite, carne ovina, polpa de frutas e extração do óleo do licuri, por meio de pequenas unidades de beneficiamento, e desenvolveu linhas produtivas diretamente articuladas com mulheres, tais como a da palma licuri e da polpa de frutas. O licuri é uma das espécies ameaçadas de extinção no semiárido e com função comprovada na conservação da biodiversidade de fauna e flora da Caatinga.

O projeto fortaleceu a gestão de cooperativas, duas exclusivamente de mulheres, como a Cooperativa de Produção da Região do Piemonte da Diamantina (BA) (Coopes), que processa o licuri. “As mulheres são as que mais sofrem com a seca, em decorrência da forte migração masculina em busca de novas oportunidades de trabalho”, afirmou Cesano.

Valorização – A Coopes possui atualmente 234 sócios, sendo que mais de 80% são mulheres. “O Adapta Sertão fortaleceu nossa cooperativa, nos auxiliando na gestão administrativa, com a aquisição de equipamentos e com assessoria para melhor inserção dos nossos produtos no mercado”, contou Josenaide de Souza Alves, presidente da Coopes.

Em 2014, a Coopes comercializou mais de 20 mil quilos de biscoitos de licuri e de goma para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), do governo federal. Para Josenaide, o licuri sempre foi muito desvalorizado na região, fato que mudou após a criação da cooperativa, em 2005. “Ajudamos a valorizar não apenas o produto, como as mulheres, que passaram a ter mais renda”. (Fonte: MMA)