Países lutam para encaixar acordo do clima em realidade científica

Um dia antes do prazo estipulado para a cúpula do clima de Paris produzir um acordo para combater o aquecimento global, a política ainda não conseguiu se entender com a ciência.

Essa foi a mensagem de um grupo de cientistas europeus reunidos no encontro, que analisou o último esboço do documento, discutido durante a sexta-feira (11).

A principal crítica dos pesquisadores é que países estão estabelecendo uma meta de aumento máximo temperatura — 2°C ou 1,5°C – sem determinar ao mesmo tempo as ações necessárias para tal.

Sumiram da atual versão do texto, por exemplo, opções para que o planeta reduza suas emissões de gases do efeito estufa em até 90% (ou até 70%) por volta de 2050. Agora há apenas uma menção a uma “redução rápida” de emissões e à neutralização do carbono antes do fim “da segunda metade do século”.

“As opções consistentes com a ciência foram substituídas por formulações vagas”, afirmou Steffen Kallbekken, diretor do Centro Internacional para Política Energética e do Clima.

“O aquecimento de 1,5°C seria mais seguro para pequenos estados-ilha e países menos desenvolvidos, mas isso significa chegar a emissões globais zero em 2050 para ter uma boa chance de atingir essa meta”, afirma Hans Joachim Schellnhuber, diretor do Instituto de Pesquisa sobre Impacto Climático de Potsdam.

Johan Rockström, diretor da ONG de pesquisa Centro de Resiliência de Estocolmo, criticou até mesmo as expressões usadas. “A expressão ‘neutralidade de gases estufa’ abre a possibilidade de dependermos de uma forma maciça de absorção de carbono, enquanto continuaríamos queimando combustíveis fósseis”, afirmou. “Precisamos de ‘descarbonização’ global.”

Articulação brasileira – Entre a quarta e a quinta feira, quando os cenários de emissões mais específicos sumiram do texto, o Brasil estava trabalhando nos bastidores para passar a versão mais vaga do texto. O país não tem interesse direto em ‘aguar’ o acordo do clima, mas aliados estratégicos, como China e Índia, têm problemas com metas de descarbonização que possam gerar pressão política sobre suas economias nas próximas décadas.

Segundo Luiz Alberto Figueiredo, embaixador do Brasil em Washington, que atua ativamente nos bastidores em Paris para a construção do acordo, a culpa pela eliminação dos objetivos de longo prazo no acordo não é do país.

“Isso não é um problema para nós, é um problema para alguns”, diz Figueiredo. “Devemos ser parte da solução.” As partes do texto que sumiram eram consistentes com cenários de emissões delineados pelo IPCC (painel de cientistas da ONU), mas desagradou a alguns países, afirmou.

“Os cenários não são previsões, eles são modelos”, afirmou. “A ciência não diz que eles são o único caminho, mas são aquele com melhor custo-benefício.”

Segundo o embaixador, os países que se opõem aos números dos cenários reclama que eles não são os únicos a delinear curvas de redução possíveis. “Existe um número sem fim de curvas, algumas mais viáveis que outras, mas o que é mais importante é o objetivo de 1,5°C. E o objetivo foi preservado.”

Coalizão inconveniente – O Brasil tem evitado entrar no tema porque é um país que se colocou em posição de buscar um consenso entre nações ricas e pobres. Na sexta-feira, porém, brasileiros se colocaram em uma posição desconfortável, após terem sido praticamente coagidos a entrar na “Coalizão de Alta Ambição”, grupo de países liderados por pequenas ilhas que buscam compromissos mais ousados de redução de emissões.

A ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira buscou minimizar o ato, afirmando que a coalizão é um grupo político sem intenção de interferir na COP 21, mas isso não é o que tem ocorrido. Tony Debrum, ministro de relações exteriores das Ilhas Marshall, que lideram a coalizão da ambição, angariou apoio dos EUA e da União Europeia.

“Estamos trabalhando para certificar que o acordo faça referência a metas de longo prazo”, afirmou. “A linguagem incluída no esboço agora não é suficiente.”

A presidência da COP 21 está trabalhando agora em uma nova versão do acordo, a última, na tentativa de atingir um consenso. O Brasil continua tentando fazer uma ponte que una a coalizão da ambição aos gigantes emergentes China e Índia. O texto final deve ser distribuído às 9h da manhã de sábado e será colocado a disposição dos países para avaliação.

Ainda há outros pontos de impasse, sobretudo no que diz respeito ao financiamento e a medidas de verificação de cumprimento das metas. Países em desenvolvimento ainda cobram mais dinheiro e resistem a aceitar sistemas de acompanhamento de emissões que consideram “intrusivos”. O novo texto deve buscar uma solução também para isso.

O presidente da COP 21, Laurent Fabius, afirma que pretende resolver esses problemas sábado de manhã e submeter o acordo de Paris à votação na plenária da conferência antes de domingo. (Fonte: G1)

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