Cientistas da UnB encontram metais pesados em amostras do Rio Doce

Pesquisadores da Universidade de Brasília ligados a um grupo que avalia de forma independente os impactos ambientais provocados pelo rompimento da barragem de Mariana (MG) encontraram metais pesados nas amostras de água e lama coletadas do Rio Doce. Segundo a toxicologista Vivian Santos, foram registrados índices elevados de arsênio, manganês, chumbo, alumínio e ferro.

O relatório é preliminar, e as análises estão temporariamente “suspensas” porque acabou o gás que alimenta a máquina que identifica e quantifica os elementos – ele dura dois dias e custa R$ 1,5 mil. O estudo considerou as concentrações de dez metais: alumínio dissolvido, ferro dissolvido, arsênio, manganês, selênio, cádmio, chumbo, lítio, níquel e zinco.

A alta concentração desses metais está associada a casos de mal de Parkinson, doenças na pele e câncer. A coleta das amostras ocorreu em dez pontos ao longo dos três principais cursos d’água atingidos pela lama entre Bento Rodrigues e Governador Valadares – Rio Gualaxo do Norte, Rio do Carmo e Rio Doce – entre 4 e 8 de dezembro.

No caso do arsênio, a concentração cresce progressivamente entre o trecho impactado e a cidade de Barra Longa. Depois disso, o elemento deixa de ser detectado até Governador Valadares, onde volta a aparecer acima do permitido pela Resolução do Conama. O manganês aparece acima do limite em praticamente todas as amostras, com exceção da de um afluente do Rio Doce, não afetado pela lama.

Em duas amostras também foram achadas concentrações de chumbo um pouco acima do permitido: no Rio Gualaxo do Norte, em Paracatu de Baixo, e no ponto de encontro do curso d’água com o Rio do Carmo, já no município de Rio Doce. Em todas as outras amostras, as concentrações de metais estavam dentro do preconizado pela Conama. Para ferro total e alumínio também houve registros de índices elevados, mas os elementos não têm padrão de segurança estabelecido em lei.

De acordo com Vivian, também foi registrada contaminação em áreas acima do ponto atingido pelo deslizamento. Os pesquisadores, que formaram uma rede via redes sociais para responder ao desastre denominada Grupo Independente de Avaliação do Impacto Ambiental (Gaia), avaliam se os índices estão relacionados apenas ao acidente ou se têm relação com as atividades realizadas na região.

“A gente não consegue falar no momento quem é o culpado, porque a região é uma região mineradora. Ela sofre um impacto ambiental há muitos anos. Esses minerais são da região, é a formação geológica da região. Pode ser que essa atividade mineradora, que já existe há muitos e muitos anos, seja a responsável [pelos resultados]. Pode ser que era um ambiente impactado, independentemente do rompimento da barragem”, explica.

“Nos pontos que receberam a lama, a concentração [de metais pesados] era maior. Pode ser que a lama contribui para aumentar aquilo e deixar ainda maior”, completou a toxicologista.

Segundo a professora da UnB, que desenvolve o trabalho junto a três alunos, as análises devem ser retomadas em janeiro. O equipamento será reabastecido com o gás. A máquina consegue fazer até 5 mil avaliações no intervalo de dois dias. Os resultados da avaliação das amostras saem um minuto depois de elas serem colocadas no aparelho.

Vivian disse que também foram enviadas as mesmas amostras para outros laboratórios, que usam técnicas diferentes, para checar se os resultados dos metais são os mesmos. “Estamos comparando tudo, para ver se dá a mesma coisa. Tem de dar a mesma coisa. Isso dá a maior confiabilidade ao estudo.”

Análises preliminares realizadas no mês passado pelo Serviço Geológico do Brasil e pela Agência Nacional de Águas não encontraram nenhuma concentração de metais acima do limite no Rio Doce. As empresas responsáveis pela barragem, Vale e BHP (donas da Samarco), negam que a lama seja tóxica.

Para a pesquisadora, os resultados são importantes para despertar a preocupação com a população da região e até mesmo orientar investimentos. “Os malefícios aparecem geralmente em longo prazo. A pessoa que toma essa água contaminada por dez anos só em dez anos vai sentir efeito”, diz.

“Pode ser que ninguém tenha nada agora, mas daqui a 20 anos aumentem as incidências de Parkinson e câncer na região. A gente tem que avaliar isso agora, caracterizar direitinho, tentar traçar formas de melhorar, de remover isso do ambiente, para trazer uma qualidade de vida da região. A população mineira daquela região é muito simples, não tem uma noção do que pode acontecer”, concluiu.

O acidente – O rompimento de duas barragens de rejeitos da mineradora Samarco causou uma enxurrada de lama que inundou várias casas no distrito na tarde de 5 de novembro. A onda teria chegado a 2,5 metros de altura. Há três pessoas na lista de desaparecidos, e 16 corpos foram reconhecidos.

Um dos sobreviventes da tragédia, Andrew Oliveira, que trabalha como sinaleiro na empresa Integral, uma terceirizada da Samarco, disse que, na hora do almoço, houve “um abalo”, mas os empregados continuaram trabalhando normalmente. “Começou a praticamente ter um terremoto.”

As causas do rompimento ainda não foram identificadas. A Samarco disse ter registrado dois pequenos tremores na área duas horas antes do rompimento, por volta das 16h20 de quinta-feira, segundo a assessoria de imprensa da Prefeitura de Mariana.

Não é a primeira vez que barragens se rompem em Minas Gerais. Em 2014, um acidente em Itabirito, a cerca de 60 quilômetros de Belo Horizonte, deixou três trabalhadores mortos.

O distrito de Bento Rodrigues, afetado pelo deslizamento, tem cerca de 600 moradores. Outros vilarejos foram atingidos pela lama. A estimativa é de que até 2 mil pessoas possam ter sido afetadas. (Fonte: G1)

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