Desertificação no Piauí já é 5 vezes maior que a cidade de São Paulo

Mais da metade dos 70 hectares da Fazenda Sucuruiú, dos agricultores Marineide e João Rodrigues, está imprestável para o cultivo. A área é entrecortada por enormes fendas no chão que podem chegar a 2 km de extensão e 30 metros de profundidade, mais conhecidas como voçorocas. O casal faz parte dos milhares de piauienses que têm suas terras atingidas pelo processo de desertificação, que já atinge 15 municípios do estado e é considerada a maior área de solo degradado do país.

A extensão da degradação equivale a cinco vezes o tamanho da cidade de São Paulo, segundo pesquisas da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Apesar dos dados assustadores, algumas iniciativas e pesquisas mostraram que o processo é reversível e que é possível o cultivo responsável na região.

De acordo com Aldrin Perez, pesquisador do Instituto Nacional do Semiárido (Insa) e correspondente científico da Organização das Nações Unidas (ONU) para desertificação no Brasil, o fenômeno acontece no Sul do Piauí pelo menos desde quando o homem começou a explorar a pecuária e agricultura na região e ocorre porque o solo é extremamente frágil, sofre com chuvas intensas e tem muitos animais pastoreando na mesma área.

“Não existe uma data específica para esse início. O que podemos dizer é que os tipos de solos da região são suscetíveis a erosão, aí vem a chuva forte e leva a terra. Com isso, a vegetação não consegue mais crescer e assim vão nascendo as voçorocas, que tendem a se aprofundar. Existe um fator natural determinante para essa situação”, disse.

O fenômeno leva à perda da área agricultável e ao assoreamento de riachos e rios, e provoca a fuga do homem do campo para a cidade. A erosão pode chegar a tal nível que deixa o solo irrecuperável, tornando a terra imprestável para a agricultura.

“Aqui já plantamos de tudo, já tivemos engenho, fabricamos rapadura, mas foi tudo se acabando. As chuvas foram diminuindo e a roça era muito fraquinha porque não tínhamos conhecimento”, relatou a agricultora Zilmar Barbosa, dona, junto com o marido, de uma fazenda de 90 hectares, 60 deles tomados pelas voçorocas.

A terra, que assusta pela vermelhidão, é extremamente fértil e, se bem trabalhada, pode obter altos índices de produtividade. Aqui voltamos ao casal formado por Marineide Cirilo Rodrigues e João Tavares Rodrigues, já que sua propriedade, graças a uma iniciativa do governo do estado, é um exemplo prático da contraposição entre terra degradada e fértil.

Com a implementação do Projeto Viva Sucuruiú, que possibilitou o uso de tecnologia (adubo e máquinas agrícolas), a Fazenda Sucuruiú conseguiu ter uma produtividade de 120 sacos de milho por hectare (4.800 kg), um resultado excelente em se tratando de agricultura familiar (a média nacional do agronegócio é de 5.682 kg/hectare, segundo o IBGE). Antes, os agricultores viviam com safras de 20 sacos por hectare.

“Praticamente toda a área atingida pela desertificação tem uma fertilidade exageradamente alta. Todo aquele solo vermelho que você vê é rico em nutrientes. Com um pH próximo ou superior a sete, o que chamamos de pH neutro. No Brasil, o pH é considerado alto (ácido) com o valor de 5, o que dificulta o desenvolvimento da planta. Com o pH neutro, a necessidade de adubo é pequena”, afirmou Adeodato Ari Cavalcante Salviano, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), que estuda a degradação do solo há 20 anos.

Efeitos – Os efeitos que o processo de desertificação, que atinje uma área total de 7.759 quilômetros quadrados distribuídos por 15 municípios piauienses, acertam em cheio o homem do campo.

Para o engenheiro agrônomo e pesquisador Fabriciano Corado, são dois os grandes efeitos provocados pelas enormes crateras que consomem as terras do Sul piauiense: a erosão do Rio Parnaíba e a evasão provocada pela perda de áreas agricultáveis. Segundo ele, a erosão tem jogado grandes quantidades de sedimentos que vão parar nos subafluentes (rios menores que deságuam nos afluentes) do Rio Parnaíba, que despeja nos afluentes e por fim desaguam no segundo maior rio nordestino.

O profissional diz que além das consequências ambientais, existem as sociais. “Com as voçorocas, os agricultores perdem área agricultável e isso provoca a diminuição da qualidade de vida. Isso acontece porque ele deixa a sua terra e vai morar na cidade, já que ele não vê mais condições de trabalhar com ela. Na zona urbana, ele consegue um subemprego. Com isso, ele e sua família estão perdendo o vínculo com o campo”, disse.

Fabriciano diz assistir ao cenário relatado por ele com desânimo e esperança. O desânimo se deve às poucas ações que o poder público vem interpondo na região, mas a alegria é carregada pelos resultados alcançados por alguns projetos implantados pela Secretaria de Meio Ambiente do Piauí, por meio da Fundação Agente para o Desenvolvimento do Agronegócio e Meio Ambiente.

Uma experiência exitosa no combate à desertificação foi a implementação do Projeto Viva Sucuruiú, em 2006, que revitalizou mananciais, recuperou áreas degradadas, assim como capacitou agricultores e implementou o uso de tecnologia em propriedades que usavam técnicas antigas e ultrapassadas do manejo do solo.

A agricultora Marineide Cirilo Rodrigues, citada no início do texto, diz que o projeto foi um marco na região. “Para nós que participamos do projeto foi muito bom. Aprendemos a como trabalhar. Antes, o que a gente plantava e colhia não dava mal para os bichos comerem, a gente estocava a colheita em junho e em outubro não tinha mais. Eu também tinha uma horta no Nuperade, mas ali tudo acabou”, contou num misto de alegria e desgosto pela lembrança.

O agricultor Washington Rodrigues também foi beneficiado com o projeto. Desde então plantou milho, sorgo (variação de semente do milho) e realizou uma experiência que chamou atenção: semeou e colheu uma safra de girassol. “Essa terra dá para todos os agricultores tirarem o seu sustento, mas precisamos de ajuda do governo. Aqui com tecnologia, a gente consegue viver bem com o que conseguimos tirar do chão. Quando disse que iria plantar girassol, ninguém acreditou, mas depois todo mundo vinha aqui tirar foto”, contou.

O Núcleo de Pesquisa de Reconstrução de Áreas Degradadas (Nuperade) foi criado em 2004 pela Secretaria de Meio Ambiente para estudar e instalar projetos de pesquisa que ajudem a entender e combater a degradação no Piauí. Foi adquirida uma área de 52 hectares extremamente degradada próxima à entrada da cidade de Gilbués e nela foi implantado um projeto que alcançou resultados interessantes.

Apesar do trabalho feito, hoje o núcleo está abandonado. A horta comunitária (aquela citada pela agricultora Marineide) praticamente acabou, o viveiro de mudas para reflorestamento pegou fogo e as ações de combate a degradação na área foram abandonadas. “O Piauí perde a chance de se tornar uma referência mundial no combate à desertificação”, lamentou Fabriciano sobre a situação.

O secretário de Meio Ambiente do Piauí, Ziza Carvalho, afirmou ao G1 que o Banco Mundial destinou US$ 188 mil para a retomada das ações do Nuperade. “Um programa de proteção ao Cerrado escolheu seis cidades para investir no combate ao desmatamento e queimada. Gilbués foi contemplado com US$ 33 mil para a reforma do Nuperade e reconstrução do viveiro de mudas e mais US$ 155 mil para o plantio, distribuição e manutenção das mudas”, informou.

A Semar informou que essa é a única ação prevista para o combate específico da desertificação. Sobre o incentivo da adoção de técnicas agrícolas, o órgão afirmou que a responsabilidade seria da Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR). (Fonte: G1)

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