Após sobreviver a 6 picadas de cobra, cientista promete fórmula para antídoto ‘popular’

Cerca de 4 mil pessoas são picadas por cobras todos os anos na Papua Nova Guiné, mas o governo do país nunca conseguiu comprar antídotos em quantidade suficiente para atender todas as vítimas, porque estes são caros e fabricados no exterior.

Agora, o pesquisador australiano David Williams diz ter encontrado uma maneira de produzir um antídoto eficiente e barato que poderia ajudar a resolver esse problema.

Williams, que trabalha na Universidade de Melbourne, na Austrália, já chegou a ser mordido por cobras seis vezes. “A (picada) mais recente – e espero que seja a última – aconteceu há oito anos, na Papua Nova Guiné”, contou ao programa Outlook, da BBC.

“Estávamos filmando um documentário para a rede de TV (australiana) ABC e eu queria fazer uma última cena em que a cobra passaria bem em frente à lente da câmera, enquanto o repórter falava, uns seis metros ao fundo.”

A equipe de filmagem colocou uma cobra em um saco de modo que, ao sair, o animal passaria bem na frente da câmera.

“Infelizmente, a cobra saiu em direção ao repórter”, conta Williams. “Então, pisei na parte de trás dela e a toquei nas suas costas com uma vara. Queria que ela mudasse de direção. Foi o que ela fez: só que ela pulou em mim e me mordeu três vezes na coxa.”

Antídotos caros
– A cobra que atacou Williams era uma Taipan da Papua Nova Guiné, cujo nome científico é Oxyuranus scutellatus canni. Pertencente a mesma família das temidas cobras coral e naja, a Taipan é tida como a terceira mais venenosa do mundo.

“Eu estava a 40 minutos de distância da cidade, o que não ajudava muito. Cinco minutos depois (da picada), comecei a sentir uma coceira na testa e na nuca. Eu sabia o que ia acontecer e disse aos meus companheiros que tínhamos de correr para o hospital.”

“No carro, comecei a ter um choque anafilático – uma reação alérgica grave. Não conseguia respirar e minha pressão caiu. Poderia ter morrido, mas eu tinha uma caixa de primeiros socorros comigo e consegui me medicar”, conta.

“Usamos adrenalina e outras drogas para abrir minhas vias respiratórias, o que me permitiu respirar e chegar ao hospital. Quando acordei na manhã seguinte, parecia que tinha lutado com o Mike Tyson. Estava todo roxo e mal conseguia abrir os olhos, de tão inchados. Também não conseguia abrir a boca para respirar porque minhas vias respiratórias estavam inchadas.”

O pesquisador australiano ficou uma semana no hospital. E sem o antídoto, não teria sobrevivido.
“Anualmente, entre 3.500 e 4 mil pessoas são picadas por cobras na Papua Nova Guiné. Cerca da metade dos casos requer antídotos, mas o governo consegue comprar apenas de 400 a 500 doses. Então, muitas pessoas não estão sendo tratadas”, diz.

Segundo Williams, o país compra antídotos de fabricação australiana, que são de boa qualidade, mas muito caros: cada dose pode custar o equivalente a R$ 7.600.

“Na ausência do antídoto, o único recurso é colocar (as pessoas picadas) em unidades de terapia intensiva (UTIs), conectadas a aparelhos que as ajudam a respirar até que seus sistemas nervosos se recuperem”, explica.

Fabricação própria – Williams decidiu tentar encontrar uma solução eficaz para a escassez de antídotos no país enquanto fazia pesquisas sobre os efeitos clínicos de picadas de cobra em um hospital em Port Moresby, a capital de Papua Nova Guiné.

“Estávamos coletando cobras para produzir veneno para projetos de pesquisa. Então pensamos: por que não tentamos achar um fabricante que concorde em criar um antídoto para nós?”, lembra.

A solução foi encontrada na Costa Rica, onde um laboratório sem fins lucrativos concordou em fazer uma parceria com Williams e sua equipe.

“‘Você fornece o veneno e nós produzimos (o antídoto)’, o fabricante me disse.”

Segundo Williams, nesse esquema, cada dose de antídoto deve custar por volta de R$ 590.

“Temos a capacidade de produzir o suficiente para o país todo com um décimo do que o governo gasta hoje”, promete.

“E queremos criar um antídoto que possa ficar fora da geladeira entre 3 e 6 meses. Assim, mesmo os postos de saúde pequenos, que não dispõem de sistemas de refrigeração confiáveis, poderão estocar o produto.”

Williams conta que, nas áreas rurais da Papua Nova Guiné, crianças com menos de 15 anos recebem cerca de 45% das picadas e mulheres adultas recebem outros 35%. “Temos muita sorte em poder ajudar essas pessoas”, diz ele.

À BBC Brasil, Williams contou que já esteve no Brasil duas vezes e que no país há 23 espécies de grande importância médica – entre elas, a Jararaca, a Jararacuçu e a Surucucu.

O especialista também disse que, em suas pesquisas para desenvolver o antídoto para o veneno da Taipan, contou com a assistência de cientistas do Instituto Butantã e da Universidade de Campinas (Unicamp). (Fonte: G1)

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