Pontas de pedra lascada levantam questões sobre a pré-história brasileira

O roteiro consensual da história do povoamento das Américas diz que os primeiros paleoíndios vindos da Ásia cruzaram o estreito de Bering no fim da Idade do Gelo, há mais de 13 mil anos. Nos milênios seguintes, as tribos paleoíndias se espalharam pela América no Norte e, em seguida, pela América do Sul. O estudo de pontas de projéteis em pedra lascada está intimamente ligado à origem das pesquisas sobre o povoamento das Américas.

Tudo começou em 1929, quando pontas de pedra de 13.500 anos foram achadas perto da cidade de Clovis, no Novo México, Estados Unidos. Por mais de meio século, aquelas pontas longilíneas foram brandidas pela arqueologia norte-americana como provas de que a chamada cultura Clovis seria a mais antiga do hemisfério – apesar de indícios crescentes vindos da América do Sul de que aquele não seria o caso.

Como ficou constatado nos últimos 20 anos, sítios pré-históricos sul-americanos como Monte Verde, no Chile; El Abra, na Colômbia; Piedra Museo, na Argentina; ou Taima-taima, na Venezuela, foram contemporâneos de Clovis – se não mais antigos. Foram ocupados desde fins do período Pleistoceno por paleoíndios. Outrossim, as pontas lascadas achadas nestes sítios sul-americanos não só são muito diferentes das de Clovis como são também muito diversas entre si.

Quanto tempo foi necessário para que tribos vindas do Norte pudessem se espraiar pela América do Sul ao ponto de as pontas de suas armas se diferenciarem tanto? Essa resposta ainda não existe. Dois estudos recém-publicados sobre as pontas de pedra brasileiras levantam novas dúvidas sobre a diversidade e a antiguidade daqueles instrumentos e das culturas que os produziram.

O primeiro estudo sistemático das pontas de pedra no estilo rabo de peixe achadas no Brasil tem coautoria da arqueóloga Mercedes Okumura, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da Universidade de São Paulo (USP), pesquisadora responsável pelo projeto Métodos estatísticos aplicados à questão da caracterização de indústrias líticas paleoíndias: estudos de caso no Sudeste e Sul do Brasil, apoiado pela FAPESP. Okumura, atualmente, está no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Já o segundo estudo, A ocupação paleoíndia no estado de São Paulo: uma abordagem geoarqueológica II, também apoiado pela FAPESP, busca entender a distribuição e o uso das pontas de projéteis em pedras achadas no Sul do Brasil. A autoria é de Okumura e do arqueólogo Astolfo Araujo, do MAE/USP.

Datações diversas – As pontas rabo de peixe, que como o próprio nome indica têm este formato, são muito comuns na Argentina e no Uruguai. “No Brasil, os registros são esporádicos. Fizemos uma varredura nos acervos de museus e coleções particulares e reunimos 32 pontas, a maioria do Sul e Sudeste do país, mas também do Mato Grosso e de Goiás. Achamos até duas pontas coletadas na Bahia e no Amazonas,” diz Okumura. “Até pouco tempo era consenso de que as pontas rabo de peixe eram típicas do Uruguai e da Argentina. Hoje se sabe que elas também ocorrem, embora em menor número, no Brasil e em pontos tão ao norte quanto Venezuela e Guiana.”

As pontas rabo de peixe aqui do cone sul são muito diferentes tanto das pontas de pedra de Monte Verde, no sul do Chile, quanto daquelas da Colômbia e Venezuela, “embora estes sítios sejam todos contemporâneos”, revela Okumura. As pontas sul-americanas igualmente em nada lembram as pontas norte-americanas. É mais um indício que exclui a hipótese americana da ancestralidade de Clovis com relação às culturas paleoíndias.

“O que isso significa?”, questiona-se Okumura. “Será que a diversidade de todas estas pontas não poderia indicar uma antiguidade maior do povoamento da América do Sul?” Na Argentina, as pontas rabo de peixe têm datações que variam entre 12.900 e 12.300 anos. No Brasil ainda não há datas, ou porque as pontas coletadas foram encontradas na superfície, ou porque simplesmente não se conseguiu datar. As datações em Monte Verde apontam para 13.500 anos, mas já se sabe que aquele sítio era ocupado há pelo menos 18.000 anos. No Brasil, os sítios arqueológicos com datação mais antiga são Santa Elina, no Mato Grosso, com 25 mil anos, e Pedra Furada, no Piauí, com 32 mil – mas ambos os resultados estão longe de serem aceitos consensualmente pela academia.

“O mais interessante do nosso artigo é poder apresentar pela primeira vez todo esse material”, diz Okumura. “É um convite aos demais pesquisadores para que comecem a prestar atenção nestas pontas que são encontradas em locais tão distantes quanto o Sul, o Nordeste e a Amazônia. O que isso pode significar em termos de ocupação do território, de migrações, de sistemas de troca?”

Um próximo passo da pesquisa será o estudo da origem das rochas usadas nas pontas, a maioria feita de silexito, basalto ou lamito. Outra futura direção é procurar saber de que modo as pontas eram utilizadas: se em lanças, flechas, projéteis ou facas. “As mais compridas e afiadas podem ter sido usadas como dardos ou lanças”, diz Okumura. Com o uso frequente e progressivo desgaste ou quebra, as pontas eram relascadas e reutilizadas em outras funções. “Há pontas que, de tanto ser relascadas, perderam totalmente o formato original e se tornaram toquinhos, que chamamos de raspadores. Nosso estudo suscita muito mais perguntas do que fornece respostas. Infelizmente, esse é o preço do pioneirismo,” diz a arqueóloga.

Tradição Umbu – O segundo trabalho faz um levantamento dos projéteis pertencentes à chamada tradição Umbu, “que leva este nome por causa de uma localidade no Rio Grande do Sul onde foram encontrados, nos anos 1970”, explica Araujo. Trata-se do primeiro trabalho sistemático feito com esses materiais brasileiros e que procura entender a sua função e o seu uso.

Só foram estudados projéteis oriundos de sítios arqueológicos com datações precisas, todos no Sul do País. “Em todo o Brasil, há somente oito sítios arqueológicos com datações aceitáveis e com um bom número de pontas”, explica Okumura.

Os 463 projéteis investigados têm datações que vão desde o início do Holoceno, há 11 mil anos, passando pelo Holoceno médio, há cerca de 5 mil, até chegar ao Holoceno recente, há apenas 600 anos. O estudo da função dos projéteis indicou que uma porção muito pequena era empregada como flechas. A esmagadora maioria eram dardos de arremesso. “O porquê desta predileção dos povos da tradição Umbu por dardos de arremesso nós não sabemos”, diz Araujo.

O que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a relação entre o tamanho das pontas e a sua antiguidade. “Nós tínhamos a expectativa de detectar no estudo o mesmo padrão encontrado na América do Norte, ou seja, quanto mais antigos os sítios arqueológicos, maiores seriam os projéteis, e quão mais recentes, menores”, explica Okumura. Isso tem a ver com o surgimento da tecnologia de arco e flecha na metade do Holoceno e o padrão de substituição dessa tecnologia ao longo do tempo. “Mas o padrão que detectamos foi exatamente o inverso. O que se vê são pontas de dardos grandes ocorrendo em toda a amostra e pontas pequenas no sítio mais antigo, de quase 11 mil anos.”

Para tentar elucidar a questão, é preciso encontrar novos projéteis em escavações e com boa datação. Uma outra linha de pesquisa seria entender a morfologia dos projéteis, os estudos dos materiais empregados, a análise do seu desgaste e de suas fraturas.

“O trabalho foi feito para chamar a atenção para esses projéteis em termos de sua função, de seu uso na pré-história”, afirma Okumura. “Assim como se deve começar a prestar atenção nas pontas rabo de peixe, nós também apontamos para a necessidade de os arqueólogos começarem a pensar na função dos projéteis da tradição Umbu.” (Fonte: Agência FAPESP)

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