Células-tronco devolvem movimentos a pacientes com esclerose sistêmica

Há dois anos, a secretária Pâmela Bruna Moreira, de 29 anos, precisou aprender a conviver com crises constantes de falta de ar, manchas pelo corpo e muitas dores. Os sintomas da esclerose sistêmica, doença reumática que compromete os movimentos, prejudicava a realização de tarefas simples, como abotoar a camisa ou amarrar o cadarço do tênis.

Sem esperança de cura, Pâmela se viu obrigada a deixar o trabalho e sofria ao perceber a paralisação gradativa das mãos. Em julho do ano passado, porém, a secretária foi submetida a um transplante de medula óssea, durante uma pesquisa realizada no Hospital das Clínicas da USP em Ribeirão Preto (SP).

Seis meses após procedimento, a jovem conta que voltou a ter uma vida praticamente normal. “Um mês depois, começou a voltar a pigmentação da pele, porque algumas partes ficaram brancas, como vitiligo. As dores também sumiram. Antes, eu acordava pela manhã e parecia que um trator tinha passado por cima de mim. Hoje, eu estou ótima”, diz.

Assim como Pâmela, outros 73 pacientes com esclerose sistêmica também passaram pelo transplante de células-tronco no HC-RP e já observam melhoras nos sintomas, como a recuperação da força muscular e respiratória. O procedimento é mais um passo na busca da cura para a doença.

“Para os pacientes, as opções de tratamento convencionais são restritas, não funcionam bem. Então, temos investigado o transplante de medula óssea como uma forma de tratamento mais agressiva e mais eficaz, e tem funcionado”, afirma a reumatologista Maria Carolina Rodrigues, orientadora do estudo.

A pesquisadora explica que, diferente da esclerose múltipla, que é uma doença neurológica, a sistêmica é autoimune e se caracteriza pela produção excessiva de tecidos fibrosos, o que compromete o movimento dos dedos, das mãos e, em grau avançado, pode prejudicar o funcionamento de órgãos como coração e pulmão.

Atualmente, o tratamento da doença associa medicamentos com sessões de quimioterapia. Premiada pela Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea, a pesquisa da USP propõe reverter o quadro clínico em pacientes que sofrem com esclerose sistêmica em aguda, ou seja, que tenham respiração e frequência cardíaca comprometidas.

“É um tratamento que começou a ser investigado há dez anos, mas o transplante ainda é experimental. Escolher qual é o melhor paciente para transplantar, saber o quanto ele melhora, são coisas que a gente vem aprendendo ao longo desses anos. Então, existe uma perspectiva de que vire um tratamento convencional”, afirma Maria Carolina.

O tratamento – A reumatologista explica que o objetivo do transplante é “zerar e reiniciar” o funcionamento do sistema imunológico para que ele pare de agredir as células do organismo. Primeiro, são colhidas as células-tronco da medula do próprio paciente. Em seguida, ele é submetido a sessões agressivas de quimioterapia e, logo depois, as células são reintroduzidas na medula.

Maria Carolina diz que esse tratamento já é realizado em alguns tipos de câncer, como linfomas, e doenças autoimunes, como o diabetes tipo 1. A reumatologista explica que, embora ofereça riscos, o transplante tem apresentado melhores resultados em relação à doença.

“É um tratamento de risco, mas é proporcional a sua eficácia. O paciente recebe doses altas de quimioterapia, a resistência dele cai a zero durante um período e precisa de internação por cerca de 20 dias para recuperação”, explica.

O estudo é parte da tese de doutorado da fisioterapeuta Karla Pereira na Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão. Para a reumatologista, a atuação dessa profissional na avaliação funcional do paciente é um dos grandes diferenciais do trabalho brasileiro.

“Esse tipo de transplante é feito em outros países também de forma experimental, mas não existe a avaliação da força muscular. A gente tem exame de sangue, exame radiológico, mas não sabe dizer quanto melhorou o movimento do paciente. Ir ao mercado, abrir uma garrafa, abotoar uma camisa são grandes vitórias”, afirma.

Desde 2014, Karla acompanha a rotina de mulheres diagnosticadas com esclerose sistêmica com idade média de 32 anos. Dessa forma, a fisioterapeuta consegue estabelecer parâmetros para avaliar a melhora física e motora do paciente após o transplante.

Karla ressalta que o acompanhamento de um fisioterapeuta durante o tratamento pós-transplante é fundamental para auxiliar a recuperação dos movimentos perdidos, bem como do condicionamento cardio-respiratório.

“A doença atinge principalmente pessoas jovens, que acabam ficando limitadas. Então, o que o paciente mais vê como benefício depois de todo o tratamento pesado, longo, é voltar a fazer atividades que eram para ser muito simples, mas que ele estava incapacitado”, conclui. (Fonte: G1)

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