Cenários de expansão da malária na América do Sul até 2070

O principal vetor de transmissão da malária na América do Sul é o mosquito da espécie Anopheles darlingi. Ele foi o responsável por praticamente 276 mil casos da doença registrados no Brasil em 2012, a maioria (99%) restrita à Amazônia. O A. darlingi é um inseto muito bem adaptado à vida na floresta amazônica, onde o regime de chuvas é abundante o ano todo e as temperaturas médias elevadas – embora com amplitude climática relativamente pequena, ou seja, com pouca variação entre as temperaturas do mês mais quente e as do mês mais frio do ano.

Ocorre que, devido às mudanças climáticas e ao aumento progressivo das temperaturas no planeta, a Amazônia pode passar por grandes mudanças. Nos próximos 50 anos, há o risco de a paisagem de floresta tropical ser substituída em boa parte pelo avanço do cerrado, onde o clima é mais quente e a amplitude climática bem maior.

Nestas futuras condições, o A. darlingi poderá desaparecer. Mas isso não significaria o fim da malária. Há na América do Sul nove espécies de mosquitos do Complexo Albitarsis. A maioria delas não se adapta bem ao ambiente amazônico. Preferem climas mais secos e quentes. Todas são transmissoras dos protozoários Plasmodium falciparum e P. vivax, os agentes causadores da doença. Das nove espécies, sete estão presentes no território brasileiro e poderão se tornar futuros vetores importantes de transmissão da malária, expandindo até 2070 a área de transmissão da doença.

Este é o alerta que o biólogo Gabriel Laporta, da Universidade Federal do ABC (UFABC), faz no artigo “Malaria vectors in South America: current and future scenarios”, publicado no periódico Parasites & Vectors. A pesquisa foi desenvolvida durante o pós-doutoramento de Laporta na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP),com apoio da FAPESP, e continua por meio de uma bolsa Apoio a Jovens Pesquisadores , no âmbito do Programa BIOTA.

Sabe-se que durante a última Idade do Gelo, há 10 mil anos, o clima e a vegetação da Amazônia eram muito diferentes. O clima era mais seco e, no lugar da floresta tropical, existia um imenso cerrado. “O mesmo poderá acontecer no futuro”, afirma Laporta.

Com as mudanças climáticas, é de supor que o progressivo aumento das temperaturas acabe por impactar o clima e a vegetação da Amazônia. As espécies vegetais que preferem um clima mais seco e quente do que o atual, como o do cerrado, deverão proliferar. Já aquelas espécies típicas da floresta úmida, que não suportam bem um regime com menos chuvas, tenderão a desaparecer ou migrar para as ilhas de umidade onde sobreviverão rodeadas por uma floresta tropical muito reduzida em relação à de hoje.

É nesse cenário que a área de ação do mosquito A. darlingi tende a se reduzir dramaticamente, ao mesmo tempo em que a expansão do cerrado acelerará a proliferação das nove espécies do Complexo Albitarsis.

“Meu trabalho é de modelagem. É um trabalho probabilístico”, diz o pesquisador. Para construir os seus modelos de nichos ecológicos dos mosquitos, Laporta empregou variáveis como a topografia, os diferentes climas e os muitos biomas da América do Sul. Também definiu a distribuição atual na América do Sul do plasmódio P. falciparum, do mosquito A. darlingi e das nove espécies do Complexo Albitarsis.

Todas aquelas variáveis foram aplicadas ao cenário mais pessimista proposto pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que representa a situação na qual os comportamentos humanos em relação às mudanças climáticas não se alterariam daqui para o futuro.

Como resultado de sua modelagem, Laporta produziu dois cenários para o clima da América do Sul em 2070. No primeiro, a temperatura média anual subirá de 2 a 3 graus centígrados, enquanto a precipitação no mês mais seco cairá entre 6,5 e 8 milímetros, e no mês mais quente, até 12 milímetros. Tais valores manteriam os biomas sul-americanos relativamente inalterados.

No segundo cenário, de mudanças climáticas mais severas, a temperatura média anual aumentaria 4 graus centígrados e as precipitações declinariam em até 5 milímetros no mês mais seco, e entre 15 e 17 milímetros no mês mais quente. Nesta segunda hipótese, o modelo indica a grande probabilidade da transformação do bioma amazônico.

No segundo cenário, a distribuição do A. darlingi recuaria dos atuais 22% do território sul-americano para 11%. Quanto às espécies de mosquitos do Complexo Albitarsis para as quais o índice de precipitação elevado é importante, elas apresentariam uma distribuição decrescente nos cenários futuros. Já aquelas espécies desse complexo que se beneficiam com o aumento das temperaturas ou a alteração dos biomas teriam grande expansão nas suas distribuições geográficas.

Feitas todas as contas, o protozoário P. falciparum, que ocorre atualmente em 25% do território da América do Sul, avançaria sua área de incidência para 37% do continente. No segundo cenário, o agente causador da malária poderia se alastrar por 46% do continente.

“Para obter esses resultados considerei apenas as mudanças climáticas e os hábitats dos mosquitos. Não considerei os esforços humanos na eliminação da doença e no controle dos vetores”, sublinha Laporta. Vale dizer que os cenários por ele traçados para a expansão da área de atuação dos mosquitos transmissores na América do Sul são modelos razoáveis, porém longe de serem definitivos.

É muito provável que a Amazônia se torne mais quente e mais seca, com impacto sobre sua fauna e flora. Já a convivência do brasileiro com a malária e seus vetores não é um cenário determinístico. “Malária é doença de país pobre. A malária é epidêmica em países onde as infraestruturas de moradia, saúde e saneamento são ruins. Sou otimista. Não acredito que os brasileiros aceitem que o país mantenha em 2070 as péssimas condições de infraestrutura atuais nos locais onde a doença ocorre.” (Fonte: Agência FAPESP)