Especialistas discutem transição da economia de recursos fósseis para a bioeconomia

Segundo maior exportador do agronegócio global, o Brasil apresenta, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), potencial para expandir ainda mais sua área agrícola, em pelo menos 70 milhões de hectares – o que poderia incrementar em 136% a atual produção de grãos e fibras, hoje de cerca de 210 milhões de toneladas.

Com o objetivo de discutir estratégias para que esse e outros potenciais do país sejam plenamente aproveitados sem prejuízos à sustentabilidade, o Agropolo Campinas-Brasil deu início a um mapeamento das áreas estratégicas de pesquisa e investimentos para o desenvolvimento de uma bioeconomia na região e no país – uma economia que reúna os setores que utilizam recursos biológicos de forma sustentável. A iniciativa foi apresentada no 1º Workshop Bioeconomia, uma Oportunidade para o Brasil, realizado no Instituto Agronômico (IAC), em Campinas, nos dias 28 e 29 de junho.

“O Brasil é um grande player em commodities agrícolas, mas ainda tem muito o que desenvolver em valores agregados aos seus produtos. Com uma população de mais de 200 milhões de pessoas, o país precisa de uma nova economia, um modelo econômico que nos permita explorar de forma sustentável nosso enorme potencial, oriundo da nossa abundância de terras férteis, de uma biodiversidade sem igual e da grande variedade de recursos humanos existente, cada vez mais qualificados. É isso que propõe a bioeconomia”, disse Sérgio Augusto Morais Carbonell, diretor-geral do IAC e presidente da Secretaria Executiva do Agropolo Campinas-Brasil.

Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, participou das discussões e destacou experiências bem-sucedidas em pesquisas para o desenvolvimento da bioeconomia.

“Devido às suas características naturais e a outras condições, o Brasil talvez seja o país com o maior potencial de desenvolvimento em áreas da bioeconomia. Mas, diferentemente do que ocorre em outras áreas em que costumamos ser acusados de negligenciar, a bioeconomia é um exemplo do que já fazemos de melhor, com experiências bem-sucedidas em pesquisa, ciência e tecnologia e também em medidas que diminuem os preços dos alimentos e que fazem a produtividade agrícola crescer, conectando ciência e resultados práticos. O fato de já haver essa conexão torna mais importante a iniciativa em Campinas e os esforços para sermos ainda mais eficientes nisso”, avaliou.

De acordo com Brito Cruz, a FAPESP deve apoiar a iniciativa. O diretor científico também relatou que a Fundação tem dialogado com a Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo para trazer periodicamente aos institutos de pesquisa ligados ao órgão um conjunto de cientistas estrangeiros selecionados no âmbito do programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes.

“Criadas as oportunidades de trabalho para esses pesquisadores em instituições no Estado, contaríamos com os esforços de pesquisa de bons cientistas jovens, oxigenando nosso sistema e pesquisando temas estratégicos definidos pela secretaria”, disse.

Arnaldo Jardim, secretário estadual de Agricultura e Abastecimento, falou na ocasião da urgência da transição de uma economia dependente de recursos fósseis para a bioeconomia.

“Com as mudanças climáticas globais e os compromissos firmados pelo Brasil na COP 21 (21ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), além da rigorosa legislação estadual que impõe metas ousadas para redução de gases de efeito estufa, é urgente o desenvolvimento da bioeconomia em São Paulo e no Brasil como um todo. Só conseguiremos cumprir as metas com as quais nos comprometemos para a sustentabilidade da nossa economia se promovermos mudanças dos padrões de produção e de consumo. Para isso, a bioeconomia é indispensável.”

Parcerias internacionais – Para Luuk van der Wielen, diretor do Biotechnology based Ecologically Balanced Sustainable Industrial Consortium (BE-Basic), “o Brasil tem todas as oportunidades para desenvolver a economia de base biológica de uma forma benéfica”.

O consórcio, de natureza pública-privada e voltado para o desenvolvimento de soluções industriais baseadas em biotecnologia, mantém acordos de cooperação com a FAPESP desde 2010.

“A iniciativa do Agropolo Campinas-Brasil é muito interessante para brasileiros, mas também para os nossos parceiros industriais, ajudando no desenvolvimento de negócios de base biológica e proporcionando confiabilidade para os recursos no longo prazo”, disse van der Wielen.

Ainda de acordo com o dirigente, empresas holandesas já declararam interesse na iniciativa. O escritório do BE-Basic em Campinas vai dar apoio à participação internacional.

Roadmap – O workshop foi o primeiro de uma série com o objetivo de identificar oportunidades em bioeconomia e desenvolver um roadmap para investimentos na área.

“Tão importante quanto as diretrizes que serão oferecidas pelo roadmap quando finalizado é o roadmaping – ou seja, todo o processo de desenvolvimento da iniciativa, que vai definir os interesses de pesquisa do setor produtivo, os meios de acesso a novas fontes de financiamento para o desenvolvimento da tecnologia e da inovação em campos da bioeconomia, as parcerias necessárias ao fortalecimento da área, as estratégias para atrair investimentos no setor, a prospecção de novos mercados para as empresas, entre outros aspectos”, avaliou Rodrigo Leal, do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético da Universidade Estadual de Campinas (Nipe-Unicamp), responsável pela metodologia do roadmap.

A iniciativa de Campinas é inspirada na da Agropolis International, associação francesa criada em 1986 e considerada uma das maiores concentrações de competências nas áreas de agricultura, alimentação, biodiversidade e meio ambiente. Para Eric Fargeas, diretor da instituição, “o roadmap brasileiro tem o potencial de impulsionar a bioeconomia local a exemplo do que foi feito em outras regiões do mundo”.

“Trata-se de uma iniciativa baseada no conceito de inovação colaborativa cujo objetivo é desenvolver projetos de cooperação técnica em diversos setores. Coexistem no Brasil condições importantes para isso, como áreas com grande potencial para a agricultura e boas perspectivas para a produção de matérias-primas agrícolas, mas ainda é preciso investir mais no desenvolvimento de um ambiente suficientemente favorável para a inovação em bioeconomia. A região de Campinas é reconhecida mundialmente no campo do agronegócio, mas ainda há um longo caminho para a valorização dos produtos brasileiros no mercado internacional. O roadmap que começa a ser traçado vai auxiliar na integração do conhecimento existente a partir dos institutos de pesquisa brasileiros com os interesses do setor privado, promovendo uma revolução econômica no país”, avaliou Fargeas.

O prefeito de Campinas, Jonas Donizette, que preside o Agropolo Campinas-Brasil, integrou em abril uma missão a Montpellier, na França, sede da Agropolis International.

“Lá pudemos confirmar o quanto o agropolo é importante para a cidade, para a dinâmica da sua economia. Também pudemos observar que, como Campinas, eles já possuíam redes de esforços e foram promovendo interligações entre elas. Estamos fazendo o novo daquilo que já existe e poucas cidades têm esse potencial. Nossos esforços serão orientados para agregar valores, gerar emprego e reduzir as emissões de CO2”, afirmou Donizette no workshop.

A Agropolis International é um dos membros do Agropolo Campinas-Brasil, composto ainda pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento, por meio do IAC, do Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL) e do Instituto Biológico (IB); Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação; Prefeitura de Campinas; Unicamp; e Associação dos Proprietários do Techno Park Campinas (Associtech). São instituições parceiras a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o Consulado Geral da França em São Paulo.

O roadmap desenvolvido pelo Agropolo deve ser finalizado em 2018. Até lá serão realizados outros workshops, três deles programados para o segundo semestre de 2016, sobre agricultura, alimentos e saúde, química verde e bioenergia.

“Nos próximos meses, vamos desenvolver roteiros conjuntos que vão orientar o plano de atividades. Este é um passo histórico, com base nos pontos fortes do setor agrícola, trazendo novos modelos para a realização de negócios inovadores”, disse Luís Augusto Barbosa Cortez, vice-reitor executivo de Relações Internacionais da Unicamp e membro da Coordenação Adjunta de Programas Especiais da FAPESP. (Fonte: Agência FAPESP)

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