Prêmio incentiva proteção do mico-leão-preto

“O Brasil tem muitas iniciativas legais de conservação e o Prêmio busca reconhecê-las. Se a pessoa acredita que faz a diferença, ela deve participar e mostrar que seu projeto existe e está aí para mudar a realidade”. A frase da bióloga Gabriela Cabral Rezende, 29 anos, reflete o que ela sentiu quando inscreveu o Programa de Conservação do Mico-leão-preto, coordenado por ela no Instituto de Pesquisas Ecológicas – Ipê, na primeira edição do Prêmio Nacional da Biodiversidade (PNB), no ano passado.

Gabriela conta que conheceu o PNB pelas Redes Sociais e viu que a iniciativa da organização, sediada em Nazaré Paulista (SP), preenchia os critérios do edital. Mais do que concorrer, o programa sagrou-se vencedor na Categoria Organização Não-Governamental. “Ganhar pela primeira vez um prêmio nacional foi muito bom para a nossa divulgação junto aos financiadores, a maior parte, estrangeiros. Enviamos a notícia para todos e ganhamos repercussão internacional. Até hoje, a vitória é destacada por eles em suas publicações”, comemora a bióloga.

A estratégia de conservação do mico-leão-preto é responsável por aumentar o número de indivíduos (estima-se que hoje existam 1,5 mil) e por diminuir o risco da espécie ameaçada de ‘criticamente em perigo’ para ‘em perigo’, de acordo com a classificação da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN). “Subimos um passinho para ficar menos vulneráveis”, afirma Gabriela.

O programa teve início no final da década de 1980, quando o animal foi redescoberto na natureza, depois de 65 anos considerado extinto. O professor Ademar Coimbra-Filho (in memoriam), biólogo e primatólogo cearense radicado no Rio de Janeiro, é tido como o responsável pelo achado. Também são atribuídos a ele os esforços pela conservação das quatro espécies do gênero Leontopithecus no Brasil, além do mico-leão-preto, os micos leão-dourado, da-cara-preta e da-cara-dourada.

Mas, quando reapareceu, o mico-leão-preto já corria riscos. Na época, a construção da Usina Hidrelétrica de Rosana, na região do Pontal do Paranapanema, no sudoeste do Estado de São Paulo, alagaria 10% da área do Morro do Diabo, principal lugar de sua ocorrência.

O cenário fez com que o professor convidasse o casal Suzana e Cláudio Pádua para garantir a sobrevivência da espécie, salvando-a da área de alagamento. Ao dizer sim à missão, os Páduas, que exerciam outras profissões à época, se transformaram em defensores da natureza e aprenderam a fazer o ofício da vida, fazendo.

A primeira iniciativa foi a de promover ações em pesquisa e educação ambiental na região. Com o tempo, o trabalho foi se aprimorando e formalizado com a criação do Instituto Ipê, em 1992. Suzana e Cláudio são hoje, presidente e vice, respectivamente, do Ipê. Recentemente sua trajetória de vida foi reconhecida pelo prêmio Wildlife Conservation, oferecido pelo Cincinnati Zoo & Botanical Garden, em Ohio, Estados Unidos.

Gabriela Cabral conta que o Programa atua em três frentes: pesquisa e manejo populacional, educação ambiental e envolvimento comunitário e restauração. Os resultados são mais de 10 populações de micos descobertas no estado e não só na região do Pontal, indicando ações exitosas de manejo da população pela técnica de translocação, quando uma nova população se estabelece em um fragmento onde não era encontrada.

Outros exemplos citados pela bióloga indicam o sucesso do Programa: a restauração de áreas degradadas para reconectar tanto os micos quanto outras espécies (já são mais de 10 mil hectares); o maior corredor ecológico plantado no Brasil (com 700 hectares) e que conecta as duas principais unidades de conservação da região (Morro do Diabo e Estação Ecológica Mico-leão-preto); a própria criação da Estação Ecológica; o trabalho de educação ambiental que já chegou a mais de 8 mil pessoas; atividades junto a alunos e professores de quinze escolas da região e a distribuição de mudas.

O trabalho do Ipê envolve cerca de 60 famílias de assentados da Reforma Agrária. Os moradores administram viveiros comunitários e produzem as mudas para replantio, com a assessoria do instituto. Eles também são incentivados a plantar espécies agrícolas em consórcio com as nativas – a produção é vendida em feiras, a projetos do governo e pelas lojas do Ipê, física e virtual. O Café com Floresta é um produto que se destaca. “Tem qualidade superior e sabor da árvore nativa”, explica Gabriela. A geração de renda também é incentivada por meio da produção de artesanato inspirado em espécies da fauna e da flora locais.

Dono de um viveiro, Valter Ribeiro atua na produção de mudas usadas pelo projeto e como educador ambiental junto ao Ipê. A parceria já dura oito anos. “Isso é uma escola. Eu não paro esse trabalho, feito com todo amor. Aqui, eu me sinto realizado”, diz.

Poder colaborar com a restauração da floresta também dá muita satisfação ao biólogo Haroldo Borges Gomes, coordenador da frente de Restauração e Sistemas Agroflorestais da ONG. “Essa experiência vem de acordo com a necessidade de se trabalhar a paisagem fragmentada da região, que possui pouca área verde de floresta e era para ser, na verdade, a grande reserva do Pontal”.

Iniciativas, atividades e projetos concluídos ou em estágio avançado de execução, que apresentem resultados e impactos comprovados para a melhoria do estado de conservação da biodiversidade brasileira podem participar da segunda edição do Prêmio Nacional da Biodiversidade, com inscrições abertas até 22 de outubro e coordenado pela Secretaria de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente (SBF/MMA). (Fonte: MMA)