Campos cultivados perdem diversidade na Alemanha

Na queda de braço entre agropecuária e conservação, um enigma é encontrar a medida de quanto se pode alterar um ambiente natural sem destruir suas propriedades ecológicas. A resposta pode ser desanimadora para muitos: uma intensificação de uso da terra entre pequena e moderada já é suficiente para derrubar a diversidade de um ecossistema.

Pelo menos em campos na Alemanha, segundo indica um grupo liderado pelo ecólogo alemão Wolfgang Weisser, da Universidade Técnica de Munique (TUM), em artigo publicado no site da revista Nature em 30 de novembro. “Temos que superar essa guerra crônica”, afirma o ecólogo brasileiro Thomas Lewinsohn, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coautor do estudo junto com Leonardo Ré Jorge, em estágio de pós-doutorado em seu laboratório. “Não há que optar entre produção e conservação, os dois são igualmente desejáveis e necessários.” Essa conjunção se chama sustentabilidade, ele lembra.

O estudo foi feito em três regiões da Alemanha, em cada uma das quais foram estudadas, ao longo dos últimos 10 anos, 50 áreas de campo usadas para pastagem. Classificadas conforme o manejo e a intensidade do uso, parâmetros que levam em conta a densidade de gado (vacas ou ovelhas) no pasto, a frequência e a intensidade de fertilização e o corte regular do pasto para rebrota, essas áreas foram avaliadas quanto à abundância de uma diversidade de organismos de todos os tipos: 4 mil espécies que incluem plantas, animais, fungos, bactérias, habitantes do subsolo, da superfície ou do ar.

Lewinsohn e Jorge contribuíram para a análise dos dados, que inclui modelos ecológicos complexos nos quais o professor da Unicamp é especialista (ver Pesquisa FAPESP nº 248). Os resultados indicam que o uso intensivo da terra leva à perda das espécies mais raras em todas as áreas. Os campos retêm os organismos mais generalistas, com hábitos muito variados, por isso disseminados.

O resultado é uma região empobrecida, com biodiversidade uniforme e reduzida – menor diversidade-β, no jargão da área. “Não basta ter algumas áreas menos usadas ou ilhas preservadas”, explica Lewinsohn. “Haverá perda de biodiversidade.” Isso vale tanto para os organismos acima do solo como os subterrâneos. Estes podem parecer insignificantes, mas têm efeitos importantes para as plantas. Um exemplo são as micorrizas, fungos associados às raízes de alguns tipos de plantas que ajudam na fixação de nutrientes do solo, como nitrogênio.

O que ainda não é possível saber é se os níveis de uso que permitiriam a manutenção do ecossistema seriam economicamente viáveis. “Na Europa a agropecuária recebe muito subsídio, o que dificulta essas contas”, diz o brasileiro. Também resta investigar se os resultados valem para outros tipos de ecossistemas ou para ambientes semelhantes em outros países.

O Brasil, por exemplo, é rico em ecossistemas campestres, que muitas vezes são usados como pastos em várias regiões: no Pantanal, nas áreas originárias de Cerrado no Sudeste, no Pampa, em áreas de altitude, mas não há estudos do porte do conduzido pelos alemães. “É urgentemente necessário fazer experimentos desse tipo no Brasil, estudando o espectro biológico de maneira ampla, intensiva e no longo prazo”, defende Lewinsohn.

Não por acaso, o pesquisador estava em Munique no momento da publicação do artigo na Nature. Tinha ido receber o título de “Embaixador da TUM” em solenidade realizada no dia 27 de novembro. Ele e mais oito pesquisadores de vários países, incluindo o engenheiro Edson Bim, também da Unicamp, foram selecionados como reconhecimento aos colaboradores que contribuíram de forma excepcional para o avanço da pesquisa e da inovação realizadas pela universidade.

A solenidade incluiu um concerto para o qual é necessário sortear convites, tal a demanda, como parte de três dias em que aconteceram reuniões com o reitor (em almoço com direito a salsichão e cerveja), vice-reitores e conversas com jovens pesquisadores. Sendo um embaixador, Lewinsohn já tem ingresso garantido para outro concerto disputado: o que comemorará os 150 anos da TUM em 2018, no estádio olímpico da cidade. (Fonte: Agência FAPESP)

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