Telescópio russo para mapear lixo espacial é inaugurado em Brazópolis/MG

O telescópio russo que vai mapear detritos espaciais foi inaugurado na tarde desta quarta-feira (5) em Brazópolis (MG). O projeto é resultado de um acordo entre a Agência Espacial Brasileira (AEB) e a estatal russa Roscosmos para monitoramento do céu. Este é o primeiro telescópio deste tipo instalado no Brasil, que também é o primeiro país a receber o projeto da Rússia. Durante a inauguração, a comitiva que representou o governo russo anunciou que mais duas estações de monitoramento deverão ser instaladas no Brasil nos próximos meses.

A cêrimonia aconteceu na tarde desta quarta-feira no observatório Pico dos Dias, em Brazópolis (MG), e reuniu representantes do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações, com a presença do secretário Álvaro Prata, o presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), José Raimundo Coelho, o diretor executivo da Fundação de Apoio à Indústria de Itajubá (Fupai-MG), Plínio Ribeiro Leite, o diretor da Agência Espacial Federal Russa (Roscosmos), Igor Komarov, e o diretor da OJC, Yuri Roy.

O investimento no projeto do telescópio de Brazópolis foi de cerca de R$ 10 milhões feito todo pela Agência Espacial Federal Russa (Roscosmos). Parte da verba, utilizada no Brasil para construção do prédio que abriga o telescópio e logística da obra, foi gerenciada pela Fupai-MG, onde fica a sede do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA). Os russos forneceram o equipamento e fizeram a instalação do telescópio. A obra teve início em novembro do ano passado, e em março, as primeiras imagens de teste já foram geradas.

De acordo com o presidente da AEB, a necessidade da Rússia instalar o telescópio no Brasil criou uma ocasião favorável para o país obter uma melhora nas pesquisas acadêmicas na área. Agora outras duas estações terrenas devem ser instaladas em território nacional.

“Aprendi que necessidade e oportunidade são dois conjuntos que geram sucesso na vida da gente”, afirmou Coelho.

“A Agência Espacial Russa tem dois projetos principais na área de monitoramento com o Brasil. Um são as estações que ajudam a melhorar a precisão do sistema de posicionamento global deles (Glonass), que é similar ao GPS americano. Dessas estações, já tem quatro instaladas no Brasil, na UNB (Universidade de Brasília), no Recife (PE) e em Santa Maria (RS). E tem os planos para instalar mais duas dessas estações, que são estações que medem a altitude dos satélites através de radar e laser. E o outro é esse que está iniciando hoje que é monitoramento de detritos espaciais”, explicou Bruno Castilho, diretor do LNA.

Chamado de Panoramic Electro Optical System (PanEos), o telescópio russo foi planejado para rastrear o lixo espacial. Ao determinar a órbita desses detritos com precisão, a agência russa gera um mapa de área segura para lançamento de novos satélites.

O acordo entre as Roscosmos e a AEB para instalação do telescópio no Brasil foi assinado no dia 7 de abril de 2016 em Brazópolis. Segundo Castilho, a Rússia já tinha um acordo desde 1997 com a Agência Espacial Brasileira para uso pacífico do espaço, na área de satélites, e como eles precisavam de um telescópio no hemisfério Sul, eles procuraram primeiro o Brasil.

Instalação – Logo após a assinatura do acordo em 2016, os dois países iniciaram a instalação do telescópio em Brazópolis. Empresas brasileiras ficaram com a construção do prédio que abriga o equipamento, fazendo a estrutura de concreto e a parte de alvenaria. Já as peças e equipamentos que fazem parte do telescópio vieram todos da Rússia.

Segundo o diretor do LNA, a carga chegou ao Brasil em outubro de 2016 e a montagem teve início no dia 20 de novembro. No começo deste ano, duas equipes russas se revezaram instalando a parte eletrônica, óptica e computadores do telescópio. As primeiras imagens de testes foram geradas no final de março – na imagem abaixo, é possível ver uma delas.

Mapeamento – O telescópio instalado no Brasil vai trabalhar junto com outro equipamento praticamente idêntico que já está instalado na Rússia, nas montanhas Altai na Sibéria, a cerca de 15 mil quilômetros de distância e a 73 graus de latitude de diferença. O observatório onde o telescópio foi instalado no Brasil fica a 1.864 metros de altitude entre os municípios de Brazópolis e Piranguçu, no Sul de Minas Gerais.

Castilho explica que os dois telescópios vão fazendo imagens em sequência de várias partes do céu, e todo pedaço de detrito que aparecer é mapeado. Com os equipamentos localizados nos dois hemisférios, é possível fazer imagens de uma área maior e completar a órbita dos detritos com mais precisão.

Segundo o diretor da OJC, o telescópio é da mais alta tecnologia russa, com equipamentos inovadores e complexos, capazes de detectar objetos entre 12 e 50cm a uma altura de 120 a 50 mil quilômetros, sendo possível localizar até 800 itens em uma noite. Além disso, como o sistema é bastante automatizado, é necessária pouca mão de obra. Os dados são, posteriormente, enviados para o telescópio gêmeo, em Moscou, onde são analisados.

“Eu gostaria de ressaltar que acredito que esse equipamente vai trazer grandes possibilidades para Brasil e Rússia”, afirmou Yuri Roy. Ainda segundo o diretor, a poluição espacial é um problema internacional.

A lista de alvos a serem analisados é preparada na Rússia e enviada por e-mail aos operadores brasileiros, que então fazem as observações solicitadas. Os dados ficam armazenados temporariamente no Brasil e, em seguida, são enviados à Rússia também via internet.

Projetos futuros – Este é o quinto telescópio instalado no Observatório Pico dos Dias, em Brazópolis, mas como explica Castilho, todos os equipamentos brasileiros têm um campo de visão pequeno. A contrapartida do acordo é que o telescópio russo vai permitir pesquisas no Brasil que ainda não eram possíveis, como localização de estrelas variáveis, novos asteroides e supernovas que aparecerem.

O telescópio instalado no Brasil vai trabalhar junto com outro equipamento praticamente idêntico que já está instalado na Rússia, nas montanhas Altai na Sibéria, a cerca de 15 mil quilômetros de distância e a 73 graus de latitude de diferença.

“Como serão feitas muitas imagens do céu, a Agência Espacial Russa só vai procurar pelos detritos espaciais, mas o LNA vai ficar com cópias dessas imagens. Qualquer astrônomo brasileiro que quiser usar essas imagens pra pesquisar em astronomia, vai poder. Então a contrapartida deles pra nós é oferecer essas imagens para pesquisas científicas.”

Assim que o telescópio russo começar a funcionar, Castilho conta que será feita uma análise das primeiras imagens para verificar a qualidade delas e avaliar as possibilidades de pesquisa. “Pra gente ver a diferença da quantidade de luz que chegou da estrela e o ruído de fundo, e perceber até que estrela que dá pra observar, qual o tamanho que a estrela fica na imagem”, explica. Essas informações serão publicadas posteriormente no site do LNA e ficarão disponíveis para que os astrônomos brasileiros possam usá-las.

Colaboração científica – Castilho ressalta ainda que o projeto reforça o acordo do Brasil na área de ciência com o BRICS (grupo político de cooperação formado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que foi assinado no fim de 2015 pelos ministros de ciência dos cinco países.

“A Rússia é um país que tem uma tradição de tecnologia e de ciência muito grande, e hoje em dia, o Brasil tem colaborações pontuais com a Rússia, alguns pesquisadores, mas poucas colaborações institucionais. A gente fazendo esse acordo, mostra que é possível, é viável e outros acordos na área científica e tecnológica podem acontecer.”

Na cerimônia desta quarta-feira, estarão presentes representantes da Roscosmos, da Agência Espacial Brasileira, do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações do Brasil e outras autoridades da região. (Fonte: G1)

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