Seca mata gado e gera prejuízo de 35% em bacia leiteira de SE

A seca que atinge 30 dos 75 municípios sergipanos está testando a fé do sertanejo. Acostumado à escassez de água e de alimento, agora, ele acompanha a morte das poucas cabeças de gado que ainda possui. Nesses lugares, o rastro deixado pela longa estiagem tem levado os criadores ao desespero, já que até a palma, planta resistente às altas temperaturas do sertão e importante reserva alimentar para o gado, também está morrendo.

A Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe (Emdagro) estima que entre 8% e 10% do rebanho bovino do Alto Sertão, composto por cerca de 250 mil cabeças, tenha morrido com a seca por falta de água e alimento. Com o gado fraco, a produção da maior bacia leiteira do estado, que possuía uma média diária de 650 mil litros, também sofreu prejuízos e teve prejuízo de 35% nos últimos seis meses.

A criadora Adalzina Santos, da Zona Rural de Porto da Folha (SE), já não sabe mais o que fazer para evitar tantos prejuízos. No final do ano passado, ela plantou três hectares de palma e não conseguiu colher nada por causa da seca.

“A palma está secando sem chuva, e a última plantação nem chegou a germinar. A gente não sabe mais o que fazer sem alimento para o gado. Há um ano, reduzi o rebanho de 22 para 16 cabeças de gado, e das 30 ovelhas, restam 20, justamente porque não tinha alimento. Ainda assim, cinco cabeças, entre vacas e ovelhas, morreram. A única esperança é a ajuda divina”, desabafa.

No Povoado Barra da Onça, em Poço Redondo (SE), Reilton da Silva Almeida cria vacas leiteiras há 35 anos, mas, segundo ele, esta é a pior seca que já atingiu a região. Sem alimentos, morreram cinco animais nos últimos 30 dias, de um rebanho de 55, e outros não devem resistir por muito tempo.

“O meu gado leiteiro sempre participava de torneios. Porém, neste ano não tive condição de inscrever os bichos, porque muitos nem leite têm. Estou com vacas que acabaram de parir, mas os bezerros tentam mamar e o leite não sai. Para ter uma ideia, uma vaca que dava 40 litros de leite está totalmente seca”, conta o criador Reilton.

Segundo ele, não há mais ração para os animais e o gado está muito abaixo do peso. “Não tenho mais ração, acabou tudo, e não estamos recebendo a ajuda do governo. É um estado de calamidade terrível, a gente não consegue vender o gado nem para o corte, porque está muito magro”, relata.

“Como vamos sustentar os animais se não tem alimentação?”, questiona o agricultor Humberto Dinis dos Santos, líder comunitário do mesmo povoado, que assiste a tudo com o sentimento de impotência. Para não ter mais prejuízo, vendeu as 10 vacas leiteiras que tinha e ficou com a mesma quantidade de bois, porque, segundo ele, conseguem resistir à situação por mais tempo.

“Nem a palma está suportando o clima seco. Há seis anos, temos perdas consecutivas na safra do milho e do feijão. É uma situação muito triste. Não temos mais a quem recorrer. A nossa sorte está sendo a cana-de-açúcar moída que vem de Alagoas, mas também já está ficando escassa”, explica o líder comunitário.

Retirantes – Para muitas famílias, a única saída é fugir dos efeitos da seca. Há cerca de um ano, Ediclécio da Silva Santos, a esposa e a filha deixaram para trás as três casas no terreno de 32 hectares no Povoado Barra da Onça e foram morar em uma área de cinco hectares no litoral do estado, no Povoado Porto da Mata, em Estância (SE). No Sertão, chegou a perder oito vacas leiteiras e deixou tudo o que construiu.

“A situação nos últimos três anos ficou terrível. A natureza não nos ajudou, e tivemos que largar a terra. Há três anos, deixei o povoado, depois retornei algumas vezes na tentativa de salvar o gado. Há menos de um ano deixei o sertão definitivamente. Aqui [no litoral], a seca ainda não atinge o gado”, conta.

Há poucas semanas, ele esteve no Sertão para visitar os amigos, que ainda resistem mesmo com as perdas. E o que viu por lá só aumentou a angústia de quem todos os dias clama por tempos melhores para a região. “Amo o sertão, mas não penso em voltar porque lá não tem água. Andamos cerca de 200 km e nada de encontrá-la”, relata emocionado.

Seca fora do sertão – No Baixo São Francisco, a seca também mexe com a rotina dos ribeirinhos, que pouco a pouco acompanham o desaparecimento de importantes reservas hídricas. Se a natureza dá sinais de cansaço, a fé entra como último recurso para amenizar o sofrimento.

O jovem Haleph Ferreira resolveu fazer uma oração às margens da Lagoa Salomé, pedindo a intercessão de Nossa Senhora Aparecida para mudar o cenário da seca. Lá, com a água baixando, os peixes também estão morrendo. “Recorri a Nossa Senhora Aparecida por ser um ano mariano. Afinal, ela também foi encontrada em um rio”, justifica.

Um dos terrenos que fica ao lado da Salomé pertence ao senhor José Carlos Moraes, que, diante da crise hídrica que impactou também a alimentação dos animais, resolveu alugar um terreno em uma região onde a reserva de água ainda permite aliviar a sede do gado. No terreno, não há mais capim, apenas a terra seca, esturricada.

“Estava vendo a hora de perder tudo o que tinha, foi quando meu genro levou nove cabeças de gado para o terreno, em Alagoas, onde ainda existe água para eles. Se ficasse por aqui, certamente iria assistir à morte desses animais. Assim como eu, outras pessoas estão fazendo a mesma coisa para não terem mais prejuízo”, relata o criador.

Ajuda para o sertanejo – No dia 21 de março, o ministro do Desenvolvimento Social e Agrário, Osmar Terra, em visita a Sergipe, comunicou que voltará nos próximos dois meses para anunciar investimentos destinados ao combate à seca, com medidas como cisternas e caminhões-pipa.

“Vamos ter recursos extras que não estavam previstos. Estamos passando pela maior estiagem dos últimos 100 anos e aumentando os recursos para o semiárido”, revelou.

Enquanto a ajuda não chega, outras ações já estão sendo tomadas com o mesmo objetivo. O coordenador da Defesa Civil do estado, José Erivaldo Mendes, informou que diversos órgãos ligados ao Governo de Sergipe trabalham para diminuir os efeitos da seca. Segundo ele, a Companhia de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Irrigação de Sergipe (COHIDRO) tem cavado poços nos locais em situação de emergência. Já a Secretaria de Meio Ambiente está instalando dessalinizadores em poços garantindo a potabilidade.

O trabalho também recebe o apoio de 44 caminhões-pipa que atendem a uma população de 160 mil pessoas, com um investimento de quase R$ 450 mil reais por mês. “Nós, da Defesa Civil, estamos atuando inicialmente em sete municípios elencados como prioritários. São eles: Canindé de São Francisco, Poço Redondo, Porto da Folha, Gararu, Nossa Senhora da Glória, Monte Alegre de Sergipe e Carira. Correspondendo a 65% da demanda de entrega de água no estado, com foco para ajudar na descendentação animal”, conta Mendes.

A Defesa Civil e a Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe (Emdagro) estão finalizando a contratação de material forrageiro, com a logística de distribuição, para os produtores que possuem até 10 cabeças de gado, garantindo que os animais recebam um pouco de alimentação.

“A Deso comprou bombas mais potente para aumentar em 25% a sua capacidade de fornecimento de água na região do sertão, fato esse que não temos problemas de desabastecimentos. Temos o desenho da distribuição de sementes e horas máquinas para preparar o solo, nesse período que se aproxima do nosso inverno, atendendo mais de 20 mil produtores. Em alguns municípios, os carros-pipa pegam água da Deso sem custo e repassam para eles”, contou Mendes.

Esperança renovada – No dia 18 de março, véspera do Dia de São José, a tradição acabou se confirmando, e a chuva chegou ao Alto Sertão de Sergipe. Segundo o coordenador regional da Emdagro para o Alto e Médio Sertão de Sergipe, Ary Osvaldo Ribeiro Bonfim, ela foi irregular, mas ajudou a amenizar problemas.

“Em alguns pontos, tivemos registros de 48 milímetros. Nestes, a chuva ajudou a amenizar a situação da palma, que não vai mais morrer. Poucos povoados conseguiram acumular uma boa reserva hídrica, aliviando um pouco, mas não resolvendo a situação causada pela longa estiagem”, relata o coordenador da Emdagro.

Como a chuva não atingiu toda a região, muitos criadores, que já estão sem alimento para o gado, reclamam que não só a palma, mas o capim continua morrendo. “Esperava que o verde do capim aparecesse com essa chuvinha, como ocorria nas outras secas, mas dessa vez parece que nem a raiz da planta resistiu ao sol forte. Morreu tudo e o terreno está descampado. Sem falar nas perdas com a palma”, lamentou a produtora Adalzina Santos.

A reportagem do G1 conversou com o técnico agrícola especializado em educação ambiental, Sérgio Walptemberg Souza e Silva, que conhece bem a região do município de Porto da Folha. “Se não deu para o capim nascer é sinal que já tinha morrido por causa da longa estiagem e também pela pisoteio do gado à procura do alimento. Neste caso, a única solução é fazer uma nova plantação do capim”, explica o especialista.

Ele observa que, com a terra sem a cobertura vegetal,, ela fica exposta às intempéries e acaba sofrendo um processo de erosão eólica, com a chuva territorial, ficando sem os nutrientes para a agricultura. “O ideal é a revitalização desse solo com o manejo agroecológico”, observa. (Fonte: G1)

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