Mancha Branca já dizimou viveiros de camarão do Ceará e do RN

A tempestade que chegou ao litoral do Nordeste no ano passado não trouxe ventanias, raios, trovões. Ela veio silenciosa e mortal. A mancha branca é a doença mais devastadora do cultivo de camarões no mundo. Em um dia acaba com o viveiro todo.

A doença que em poucos meses, a partir de maio do ano passado, quase arrasou as criações do Ceará demorou mais de vinte anos pra chegar até aqui. E viajou muito milhares de quilômetros desde o outro lado do mundo, no extremo oriente. Ainda há dúvidas sobre como a mancha branca acabou se espalhando. Existem algumas hipóteses, como o próprio comércio internacional de camarões, esse produto tão procurado e os ciclos migratórios de certas aves, que coincidem com avanços da doença. Ela também pode ter viajado na água do mar usada como lastro, dentro de navios.

O caminho até aqui, desde a descoberta da doença, no início da década de 90, é conhecido: da China e do Japão, ela cruzou o Pacífico até os Estados Unidos. Desceu pela América Central e atingiu o Equador, pais que é grande produtor. Ela começou a ser registrada no Brasil em 2004, a partir de Santa Catarina e foi subindo rumo ao Nordeste. Em 2014, chegou ao Rio Grande do Norte. Em 2016, ao Ceará.

Consumo de camarões infectados é seguro – O vírus que causa a doença se espalha com grande facilidade, dizem os especialistas da Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza. Há dezenas de animais transmissores, como siris e caranguejos, que não adoecem. Detalhe importante: o consumo de camarões, mesmo infectados, é seguro.

“Esse vírus não causa nenhum problema para a saúde humana, é exclusivo de invertebrados e causa doença somente no camarão”, diz Rubens Galdino Feijó, engenheiro de pesca e pesquisador da UFC.

O vírus ataca e destrói células de órgãos do sistemas digestivo e respiratório dos camarões, debilita os animais e abre caminho para outras infecções por bactérias que levam à morte. Não existe cura nem vacina possível. O sistema imunológico do camarão é diferente do nosso. O que se busca é o controle.

No campo, mancha verde é arrasadora – O “Globo Rural” foi ver a situação no campo. Começamos por Paraipaba, a quase 100km a oeste de Fortaleza. Viemos ao encontro do seu Cristiano. Um dos maiores produtores do Brasil, Cristiano Maia, conta que a chegada da mancha branca foi arrasadora.

“Uma tristeza. Eu ficava aqui na fazenda vendo morrer tudo em dois dias. No primeiro dia eu perdi 100 mil quilos. E no segundo dia mais de 50 mil quilos”, conta ele.

Há menos de um ano, cada um dos tanques que tem de 3 e meio a quatro hectares, produzia, a cada 90 dias, 10 toneladas de camarão. Hoje, são apenas duas toneladas. E isso porque foi aplicada a primeira técnica que se encontrou para tentar conviver com a doença e a diminuição da densidade da criação. Com mais espaço e menos competição, os camarões têm mais condições de sobreviver. E têm sobrevivido, mesmo com a presença inevitável do vírus.

Mas a produção, bem menor, acabou com o lucro. Mesmo com os preços tendo triplicado por causa da falta de oferta no mercado. Além de melhorias na água, no solo, na ração, a grande aposta para voltar aos bons tempos é na genética.

Estudo genético pode ser solução – Em Touros, no Rio Grande do Norte, este laboratório produz larvas de camarão. São selecionados animais que mostram resistência nos viveiros. A ideia é melhorar as matrizes. Os camarões maiores, de até 50 gramas, são mantidos em ambiente ideal para a reprodução, à meia-luz.

O estudo é em nível molecular, de DNA. E envolve profissionais brasileiros e de países por onde a mancha já passou. “O problema é que o animal não manifesta a doença, mas tem o vírus. Então essas técnicas moleculares são utilizadas pra que nós consigamos detectar o vírus sem necessariamente o animal ter manifestado a doença”, diz o biólogo Daniel lanza.

Se o vírus é detectado, o animal não serve como reprodutor. Aqueles livres de vírus vão gerar novas gerações de larvas, menos suscetíveis a ele.

Técnica de recria auxilia produção – O município de Jaguaruana, região do baixo Rio Jaguaribe, é um polo importante na produção de camarões, no Ceará. O mar está a mais de 50 km de distância em linha reta. Aqui se produz em água doce, ou salobra, onde a mancha branca também chegou. E chegou pra valer: derrubou a produção em até 90%. Os grandes e os pequenos produtores, que na verdade são a maioria em propriedadede trabalho familiar, têm buscado alternativas para conseguir se manter no negócio e não sair da atividade.

Seu Wellington e a filha dele, Lara, que se formou técnica de aquicultura para ajudar o pai, começaram a criação há quatro anos. E estava indo tudo muito bem. O susto foi grande, já que a mancha branca fez a produção cair de 5 para 1 tonelada.

Eles construiram uma raceway, ou uma recria construção para os camarões crescerem um pouco mais. “Isso vai fazer o camarão, as larvas ficarem mais resistentes. Crescem mais rápido. E no final consegue uma produção com menos dias. Consegue mais cultivos por ano”, explica a técnica Lara Rebouças. (Fonte: Globo Rural)

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