Surto de febre amarela pode ser ‘tiro de misericórdia’ para primatas ameaçados de extinção, dizem especialistas

Além de causar a maior epidemia da doença no país entre humanos, com 426 mortes, vírus teve expansão geográfica sem precedentes em florestas e matas, definido por especialistas como tragédia humana e ambiental.

O maior surto de febre amarela silvestre já enfrentado pelo Brasil não chegou ao coração das grandes cidades, como muitos temiam, mas vem atingindo regiões onde vivem alguns dos primatas mais ameaçadas do país – e especialistas temem que sua expansão possa acelerar a extinção de espécies vulneráveis.

Até agora, de acordo com o Ministério da Saúde, quase 5,5 mil macacos morreram por suspeita de febre amarela desde o início do surto – números considerados muito aquém da realidade, já que muitos animais morrem no interior das matas, distante de qualquer contato com humanos.

Além de provocar a maior epidemia humana da doença em décadas no Brasil, causando 426 mortes, o vírus teve uma expansão geográfica sem precedentes em florestas e matas, definida por especialistas como uma tragédia humana e ambiental.

A comunidade de primatólogos está apreensiva com o impacto da mortandade sobre espécies ameaçadas de extinção, como o muriqui-do-norte, o mico-leão-dourado e os bugios, que vivem em reservas e matas nas regiões alcançadas.

“Já tínhamos 70% dos primatas da Mata Atlântica ameaçados de extinção”, afirma Leandro Jerusalinsky, coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

“Junte-se a esse cenário um surto de febre amarela, e a coisa complica. Para várias populações, isso pode ser o tiro de misericórdia, que leve de fato a extinções locais”, diz ele, considerando que ainda vai levar um tempo para avaliar o impacto do surto atual.

No auge do surto, entre janeiro e março, Jerusalinsky diz que seu WhatsApp não parava. Fotos de animais encontrados mortos chegavam toda hora pelo aplicativo, acompanhando trocas de mensagens constantes de primatólogos de todo o país – que formaram grupos para tentar acompanhar o avanço do surto.

O vírus se disseminou rapidamente por Minas Gerais e Espírito Santo. Chegou ao sul da Bahia e a áreas dos Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde segue avançando: nesta semana (24/05), a sétima morte humana por febre amarela foi confirmada no Rio, em Porciúncula, no noroeste do Estado.

Nas epidemias de febre amarela, os primatas servem como sentinelas involuntários. Quando começam a morrer, é dado o sinal de que o vírus está na área, um alarme fundamental para guiar políticas de saúde pública e alertar para a necessidade de se vacinar as populações nas cercanias.

Por causa dos riscos à saúde humana, o governo, através do Ministério da Saúde, concentra seus esforços no monitoramento e prevenção. O ponto de vista ambiental fica em segundo plano.

“Nosso objetivo é detectar a circulação do vírus e evitar casos humanos”, diz Renato Vieira Alves, diretor adjunto do Departamento de Vigilância de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde. “Não há, do ponto de vista da vigilância, o objetivo de quantificar ou acompanhar individualmente todas as ocorrências entre primatas.”

Com isso, casos entre primatas muitas vezes não são investigados, diz Jerusalinsky, e é difícil precisar quais espécies estão sendo afetadas, não havendo sempre exames laboratoriais confirmando a causa da morte – ou mesmo detalhes sobre as espécies ou gênero dos animais encontrados mortos.

“Às vezes na ficha consta apenas ‘macaco’”, lamenta ele.

Além da ameaça à biodiversidade, a mortandade impacta também a ecologia das florestas, já que os primatas têm importante papel no equilíbrio das matas.

Dependendo dos hábitos alimentares de cada espécie, desempenham funções diferentes, ajudando a propagar sementes das frutas que comem, a reciclar nutrientes do solo ou atuando como predadores, influindo no controle da população de insetos e aracnídeos.

“Quando você reduz drasticamente uma população, isso gera vários desequilíbrios, e não sabemos ainda como a mata vai responder a isso”, diz o primatólogo Sérgio Lucena.

Professor de zoologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Lucena vem acompanhando com assombro o avanço do vírus e os números de mortandade no Espírito Santo desde o início do ano.

Dos mais de 5 mil primatas mortos notificados no Ministério da Saúde, pelo menos 1,2 mil seriam do Estado, afirma – um número muito alto considerando-se o tamanho do território do Espírito Santo.

Além de caírem vítimas do vírus, muita vezes os primatas são penalizados duplamente, encarados pela população, por ignorância, como uma ameaça.

Diante de relatos de que pessoas estariam matando macacos por medo de que espalhassem o vírus, órgãos de saúde e meio ambiente vêm fazendo campanhas ressaltando sua “utilidade pública” como sentinelas – e esclarecendo que eles não são transmissores do vírus. O vetor é sempre o mosquito – na forma silvestre da doença, dos gêneros Haemagogus e Sabethes.

“Os primatas são as principais presas dos mosquitos na febre amarela silvestre”, explica Lucena. “Se você mata os macacos, os mosquitos adaptados a picá-los vão procurar o ser humano”, afirma.

Lucena estima que sete espécies de primatas tenham sido mais afetadas pela virose, das quais cinco são ameaçadas de extinção.

“A febre amarela sozinha vai levá-las à extinção? Não, não vai. Mas é mais um impacto que as empurra em direção à extinção”, considera.

“São espécies que já estão com população reduzida, vulnerável, lidando com fatores como desmatamento, caça ilegal, captura para comércio clandestino, que a gente vem tentando contornar”, explica.

“Aí chega a epidemia de febre amarela e derruba populações que estamos há décadas trabalhando para proteger.”

Lucena iniciou em fevereiro um trabalho de pesquisa com um grupo de cerca de 15 pessoas para mapear os primatas mortos, as espécies afetadas e tentar entender como o vírus avança tão rapidamente por regiões diferentes.

Além de o número conhecido de mortes ser considerado abaixo da realidade, os registros não permitem saber de que espécie cada caso se trata.

Pelo que os estudos até agora sugerem, Lucena diz que as espécies mais atingidas são os bugios, o sauá ou guigó, e o sagui-de-cara-branca. Os dois primeiros estão na lista de animais ameaçados atualizada em 2014 pelo ICMBio (conforme a portaria 444 publicada pelo Ministério do Meio Ambiente).

Porém, o primatólogo teme também por outras três espécies ameaçadas, que ainda não tiveram mortes pelo vírus confirmadas em laboratório.

São elas o sagui-da-serra, (“encontramos animais mortos com características típicas de febre amarela”); o muriqui-do-norte, espécie criticamente ameaçada de extinção e cuja população apresentou uma redução de 10% nos últimos seis meses (“tamanha redução em tão pouco tempo não é normal e sugere que foram atingidos pela virose”); e o mico-leão-dourado, um dos símbolos da luta para preservar a biodiversidade brasileira.

Embora ainda não haja confirmação de óbitos por febre amarela em animais dessas espécies, o vírus chegou à região onde suas populações vivem. Isso significa uma ameaça também para os próximos anos, mesmo que a epidemia não afete as populações de imediato.

Os primatas têm diferentes níveis de suscetibilidade ao vírus. O drama mais evidente é o dos bugios, gênero extremamente sensível à febre amarela.

Lucena estima que entre 80% e 90% dos bugios de uma dada população sejam dizimados quando o vírus chega à floresta.

Conhecidos pelo sonoro “ronco” que vocalizam, sua falta reverbera pelas florestas. “As matas ficaram silenciosas”, diz Lucena. “É o que a gente mais ouve quando falamos com pessoas que trabalham ou moram na região.”

Mas em março, a chegada da febre amarela ao município de Casimiro de Abreu, no Rio, acendeu um alerta sobre uma espécie que quase foi extinta da face da Terra há poucas décadas, e sobrevive apenas na região.

A área no entorno é a única de ocorrência natural do mico-leão-dourado, sobretudo na reserva ecológica de Poço das Antas.

“Estamos acompanhando o avanço do vírus com muita preocupação e atenção, diz Luis Paulo Ferraz, secretário-executivo da Associação Mico-Leão-Dourado – cuja equipe está em estágio de “alerta total”.

Os micos quase foram à extinção entre os anos 1970 e 1980. De lá para cá, um minucioso trabalho de recuperação fez com que a população saísse dos apenas 200 que sobreviviam lá atrás para a população atual de cerca de 3,2 mil micos.

“Não tivemos registro ainda de nenhum mico infectado. O que é uma boa notícia por enquanto, mas isso vai ser uma preocupação permanente para os próximos anos”, diz Ferraz, afirmando que é a primeira vez que o vírus chega à região. “A febre amarela chegou. Uma doença como essa poderia levar a consequências muito sérias.”

Estrago que dura décadas – Dois outros surtos de febre amarela silvestre antecederam o atual, em 2001 e em 2008-9, matando milhares de primatas nas florestas. O último espalhou-se pelo Rio Grande do Sul, dizimando famílias de bugios-ruivos-do-sul.

O impacto foi tamanho que levou a espécie para a lista de ameaçadas – passando a ser listada, em 2014, como vulnerável.

Os bugios são também símbolo do estrago que a febre amarela pode representar no longo prazo.

O biólogo Izar Aximoff estudou um surto epizoótico que ocorreu em 1939 e praticamente acabou com a população de bugios no Parque Nacional do Itatiaia (MG e RJ).

Hoje, apenas cinco indivíduos sobrevivem no parque. Uma das fêmeas têm a coloração alterada, uma falta de pigmentação conhecida como leucismo. De cordo com Aximoff, a anomalia é consequência provável do intercruzamento entre parentes e da baixa variabilidade genética do grupo.

“Mesmo depois de mais de 70 anos, essa população nunca conseguiu se recuperar”, afirma ele, ressaltando que, mesmo quando a população não é extinta completamente, o baixo número de indivíduos pode gerar problemas para sua viabilidade a longo prazo, levando-se em conta pressões como a caça e a falta de parceiros para reprodução.

“O cruzamento entre indivíduos de pequenas populações pode resultar em problemas genéticos para as futuras gerações, como observamos no Parque Nacional do Itatiaia”, aponta Aximoff, aluno de doutorado do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Primatólogos temem que o vírus venha a atingir também o bugio-ruivo-do-norte, outra subespécie que vive na Mata Atlântica – um dos 25 primatas mais ameaçados do mundo.

Leandro Jerusalinsky, do ICMBio, afirma não haverem, ainda, mortes confirmadas desta subespécie.

Porém, dada a suscetibilidade dos bugios e o fato de o vírus ter chegado à região onde vivem, “um sinal vermelho se acendeu”.

Para primatólogos, o surto atual desperta tanta ansiedade quanto impotência, já que nada pode ser feito para conter o avanço do vírus entre os primatas.

O surto atual levantou um debate: poderia ser desenvolvida uma vacina segura também para os primatas?

Com mais de 25 anos de experiência com vacina de febre amarela de uso humano, o virologista Marcos Freire de dispôs a debruçar-se sobre o assunto e encontrar respostas, com apoio de estudiosos do ramo e da Sociedade Brasileira de Primatologia.

Vice-diretor de desenvolvimento tecnológico de Biomanguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz, ele conta que os primeiros passos estão sendo dados para o desenvolvimento de uma vacina em primatas não-humanos – um processo longo que ainda precisa passar por algumas etapas para ser aprovado.

“Estamos elaborando um protocolo para pedir a autorização para testar algumas formulações vacinais em primatas não-humanos”, explica.

“Esse protocolo precisa passar, primeiro, por um comitê de ética de experimentação animal; e depois ser aprovado pelo ICMBio. Passado todo esse trâmite regulatório, é um experimento que queremos fazer, e deve durar um ano. Eu acredito que é viável”, diz.

A tarefa de aplicar vacinas em populações de primatas vivendo em topos de árvores pode parecer loucura. Mais do que pensar em imunizar populações de macacos de uma maneira geral, porém, a ideia é vislumbrada como uma ferramenta para situações de emergência – para salvar populações em alto risco de extinção, em vez de assistir enquanto são dizimadas.

“Vacina injetável não é praxe para animal silvestre, já que envolveria capturar os animais para aplicar a vacina”, admite Freire. “Porém, em populações de alto risco, você poderia desenvolver uma força-tarefa para imunizar os primatas e assim protegê-los de um desfecho dramático.” (Fonte: G1)

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