Fenômeno que ‘secou’ litoral Sul do país provocou grandes ondas e destruição no ES, diz oceanógrafo

Se no Litoral Sul do país, é o recuo do mar que preocupa a população, por conta de um anticiclone somado a outros fatores como a fase da lua e a movimentação superficial da água, no Espírito Santo é o avanço do mar que chama a atenção.

PhD em Oceanografia Física e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Renato Ghisolfi explica que os fenômenos ocorrem graças a interações entre o oceano e a atmosfera, tendo o vento como principal causador.

“Nos últimos dias, um anticiclone se formou na costa da Argentina. É uma pressão muito grande, até anormal. Como foi muito grande, muito extenso, registrou ventos muito fortes que empurraram a água para dentro do oceano. O anticiclone estava com uma pressão de 1048 hPa e pegava a costa da Argentina e ia até uma porção da África”, detalhou o professor.

Ainda segundo Ghisolfi, o anticiclone e o ciclone, que influenciou a agitação na costa capixaba, estão associados. Juntos, os dois fenômenos provocaram todo o movimento no litoral.

“Quanto maior for a pista (mar), quanto mais intenso for o vento e quanto mais tempo ele estiver atuando, maiores serão as ondas. A tensão dos elementos coloca o oceano em movimento”, disse.

As grandes ondas que quebraram nos últimos dias na Praia de Camburi, em Vitória, e no Litoral Sul do estado podem ter sido formadas no Sul do país, segundo Ghisolfi.

De lá para o Espírito Santo, o mar vem transferindo energia que recebe do sol, passa pelo vento e transfere para a onda. “O que estoura aqui é a energia que veio do sol”, explica.

Um exemplo utilizado pelo professor é o de quando se está na praia, não há vento e o mar está calmo. De repente, ondas começam a estourar. “Essas ondas são resultado de uma tempestade que aconteceu no oceano e veio viajando para a costa”.

Quando esse deslocamento de energia sente o fundo do mar (um coral ou até mesmo a plataforma continental), acaba voltando para a superfície.

“Quando chega ao fundo, ela sobe e quebra. Por isso no Havaí, por exemplo, a praia não é muito plana, é inclinada. Quando essa energia está perto da praia, acaba formando um tubo, uma onda perfeita”, exemplificou Ghisolfi.

No caso da destruição causada pelo mar no Litoral Sul do Espírito Santo, o professor disse que, na ressaca, o nível da maré geralmente é mais alto. O vento sul ainda ajudou a trazer a água para perto da costa.

“Com o nível do mar maior, as ondas são maiores. Quando ocupamos uma região muito perto da costa, acaba havendo essa destruição”, disse.

O professor ainda concorda que os registros têm relação com as mudanças climáticas, mas alerta que não é possível concluir que exista essa relação com base em apenas um evento.

“Quando se tem mais energia no planeta, é normal que todos os processos fiquem ainda mais intensos”, concluiu. (Fonte: G1)

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