Novo comitê de cientistas vai assessorar governantes da América Latina e Caribe

Um novo grupo de pesquisadores vai trabalhar para conectar universidades a políticos e oferecer pareceres científicos a governos da América Latina e do Caribe.

Criada como um braço da International Network for Government Science Advice (Rede Internacional para Assessoramento Científico Governamental) após um evento em Buenos Aires, a equipe conta com dois cientistas argentinos, dois chilenos, uma colombiana, uma peruana, uma venezuelana e o brasileiro André de Carvalho, e fará sua primeira reunião no dia 25.

“No Reino Unido, não importa o partido, o primeiro ministro tem sempre um assessor científico. E esse assessor não vai tomar a decisão, ele vai fazer a ponte entre o governo e a academia. Então a academia vai dizer: ‘Na ciência, tem essas soluções que podem ser interessantes”, explicou Carvalho, professor do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos.

Atuação – Segundo Carvalho, especialista na área de análise de dados, a intenção é facilitar a aproximação entre a academia e a governança.

Um membro da rede questionado sobre o que indicam as pesquisas mais recentes sobre determinado assunto, por exemplo, pode entrar em contato com a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), fazer esse levantamento junto aos pesquisadores da área e oferecer os dados para decisões baseadas em evidências.

“A ABC reúne pessoas de diferentes áreas para debater grandes problemas nacionais e tem algumas interações com o governo, é um órgão muito importante. As academias de ciências e as sociedades para avanço da ciência estão entre os principais interlocutores nos outros países da INGSA, inclusive foi a sociedade argentina que promoveu o encontro. Elas contribuem muito, mas não têm uma pessoa no governo”, disse.

“Isso não quer dizer que tem que ter alguém da INGSA no governo, mas a INGSA vai argumentar que o governo tem que ter algum cientista para fazer a interlocução até com as sociedades. E essa interlocução tem que ser contínua, não pode ser apenas quando tiver uma crise”, completou.

Estabelecido o contato, é montado um comitê que busca chegar a um consenso sobre o assunto e a sugestão é apresentada ao governo. Para o professor, a falta de segurança no Rio de Janeiro, o desemprego e a qualidade da educação são alguns dos temas que poderiam ser tratados.

Receptividade – A criação do grupo não garante que as propostas serão colocadas em prática ou mesmo que os cientistas serão ouvidos pelos governos e, para evitar esforços em vão, a equipe deverá apostar na transparência, usando canais como blogs e eventos para informar à população as outras opções que foram oferecidas.

“Muita coisa não necessariamente o governante vai seguir, ele vai fazer o quê? Vai ouvir e ver se realmente acha que vai beneficiar o país”, afirmou Carvalho. “Esperamos que o governo tenha essa preocupação social e realmente ouça. Se ele for negar o que o comitê sugerir, que tenha uma boa razão para isso”.

Já para outra possível dificuldade da relação – a diferença entre o tempo na academia, com pesquisas de longo prazo, e o dos políticos, focados nos mandatos –, o professor do ICMC defendeu a importância de metas.

“A gente tem que ter uma política que, independentemente do partido que estiver no governo, tenha um objetivo em comum. Por exemplo: tem que acabar com o analfabetismo no país, tem que acabar com a fome no país, todo mundo tem que ter uma moradia decente. Isso não pode depender do governo, do perfil político, tem que ser um compromisso do país inteiro, senão o Brasil vai ficar sempre sendo o país do futuro”, argumentou.

“E se você tem a ciência com evidências e essas coisas estão mais claras para a população, as pessoas se sentem mais seguras também em votar e monitorar o que os políticos estão fazendo”.

Ciência a serviço da diplomacia – No passado, a relação entre cientistas e políticos levou a projetos como o Manhattan, de desenvolvimento da bomba atômica, mas atualmente há exemplos no sentido oposto.

“Existe um acelerador de partículas na Jordânia que foi feito por meio de uma parceria, foi financiado por países como Irã, Israel, Turquia, Estados palestinos, e nesse acelerador trabalharão juntos cientistas de todos esses países, então esse acelerador vai ser uma grande contribuição para a ciência e para a paz. É um belo exemplo de ciência a serviço da diplomacia, a serviço da paz”, afirmou Luiz Davidovich, presidente da ABC.

Para ele, é positivo haver um novo grupo para aproximar universidades e governo, esforço compartilhado pela Academia e pela SBPC. “Por exemplo, existe uma associação de Academias de Ciência das Américas que inclui todos os países e realiza trabalhos sobre temas de interesse comum, o que inclui desastres naturais, educação em ciências, e serve de base para a realização de políticas públicas”, disse.

Especificamente no Brasil, o professor do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) citou o levantamento que mostra a grande confiança que os brasileiros têm nos cientistas e pontuou áreas em que as parcerias foram fundamentais, como a identificação da relação entre zika e microcefalia.

“O sucesso da agricultura brasileira depende da ciência, foi a ciência que levou a esse sucesso. A extração de petróleo do pré-sal também é produto da ciência brasileira. Esses fatos são cada vez mais conhecidos pela população e ter outro grupo com essa atuação é ótimo”. (Fonte: G1)

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