Nova regra permite queima de óleo em casos de vazamento no mar

Uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) que permite a queima controlada de óleo após vazamentos no mar foi publicada nesta sexta-feira (6) no Diário Oficial  e entrou em vigor.

De acordo com a resolução, a técnica será usada como um “esforço de proteção ambiental e uma forma de tentar minimizar prejuízos à saúde pública”, mas dependerá de uma autorização prévia do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

A queima será permitida, no entanto, apenas quando outras intervenções não forem aplicáveis e/ou efetivas, e quando ocorrer pelo menos uma das seguintes situações:

  1. Poluição por óleo no mar considerados de significância nacional;
  2. Descarga contínua com volumes relevantes;
  3. Quando a mancha estiver se deslocando ou puder se deslocar para áreas designadas como ambientalmente sensíveis.

Trata-se como óleo qualquer forma de hidrocarboneto — petróleo e seus derivados, incluindo óleo cru, óleo combustível, resíduos de petróleo e produtos refinados.

De acordo com a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) dos Estados Unidos, a queima de resíduos de óleo na água pode causar problemas ambientais.

O órgão do governo americano diz que os resíduos queimados têm pouca ou nenhuma toxicidade aquática aguda. Seus maiores impactos serão na vida existente no fundo do mar, que pode “sufocar”. Para a maioria das queimadas controladas, os impactos podem ser muito localizados devido ao pequeno volume de resíduos e à dispersão pelas correntes de água.

A NOAA também diz que os resíduos só afundam após o resfriamento e que as propriedades físicas após a combustão dependem da eficiência da técnica de queima. A aplicação correta gera um material frágil e sólido, enquanto a ineficiente cria uma mistura de óleo não queimado, resíduos queimados e fuligem.

David Zee, professor da Faculdade de Oceanografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), diz que não é contra a queima controlada de óleo, mas que a decisão precisa ocorrer em situações especiais, por exemplo, quando o óleo está indo para uma área de proteção ambiental.

Zee avalia que parte do problema é a “baixa capacidade de reação” quando acontecem os vazamentos. Ele explica que nas primeiras 48h, praticamente 30-40% se perde na atmosfera pela volatização dos gases do material.

“Uma das coisas importantes é a capacidade de resposta. Se você responde rápido, em menos de 48h joga barreira de contenção, cerca o espaço, não deixa espalhar, talvez não precise queimar”, explica.

Glória Marins, gerente de meio ambiente da empresa Ouro Preto Óleo e Gás, diz que queima controlada pode ser uma medida de salvamento de alguns áreas de sensibilidade ambiental crítica.

“É uma balança entre você deixar em caso de vazamento o óleo atingir uma área sensível, como um manguezal, onde você vai ter um comprometimento de reposição de espécies, e queimar significa impedir um cenário catastrófico desses”, disse.

A gerente diz que, se tratando de queima, sempre há um risco. “Com a queima com certeza vai ter emissões atmosféricas elevadas, mas isso pode significar o salvamento de uma área sensível que pode comprometer um ecossistema por décadas”.

O professor de Engenharia de Minas e Petróleo da Universidade de São Paulo (USP), Ricardo Cabral de Azevedo, acredita que o maior risco é a emissão de CO2 e fumaça tóxica de forma geral.

“Eu pensaria nos prós e contras. Se você não queimar, o que você vai fazer com o óleo? O ideal seria recolher, mas nem sempre é possível recolher”, explica.

Devido à fumaça, a regulamentação da Conama colocou exceções para a aplicação da técnica de conteção. Haverá restrições para a queima:

  • entre 1 e 3 milhas náuticas (entre aproximadamente 1,8 quilômetro e 5,5 quilômetros) da linha de costa, inclusive de ilhas;
  • entre 1 e 3 milhas náuticas de unidades de conservação marinhas, cadastradas pelos órgãos responsáveis do Governo Federal;
  • a mais de 3 milhas náuticas da linha de costa sempre que o Estudo de Dispersão Atmosférica (EDA) indicar que a fumaça irá atingir áreas povoadas e que resulte em risco de exposição da população;
  • entre 1 e 3 milhas náuticas de áreas de reprodução de quelônios, aves ou mamíferos marinhos, devidamente especificadas pela Marinha do Brasil ou publicadas pelo Ministério do Meio Ambiente ou Ibama.

Técnicas de limpeza após vazamentos

Conheça métodos recomendados por especialistas em acidentes com petróleo no mar

  • Jateamento de areia

Lança areia sobre a mancha de óleo e afunda o produto no oceano. Afeta a biodiversidade marinha, segundo ambientalistas.

  • Contenção de óleo

Barcos lançam boias que bloqueiam a dispersão da mancha. O óleo é retirado com mais facilidade da água através de sucção, porém só funciona quando realizado nas primeiras 48 horas após o vazamento.

  • Dispersão química

Jatos lançam produtos químicos sobre a mancha de óleo concentrada. A vantagem é que quebra o óleo em partículas que, depois, serão consumidas por bactérias da água.

  • Dispersão mecânica

O óleo se dispersa com jatos d’água ou com movimentação provocada por barcos. A mancha se separa em pequenos pedaços e facilita absorção pelo oceano, porém parte do óleo pode afundar e atingir a biodiversidade marinha.

  • Queima de óleo

Fogos é ateado no petróleo concentrado. A técnica consegue eliminar grandes quantidades de óleo rapidamente, porém pode haver liberação de gases, aquecimento da água e causa danos à vida marinha próxima.

  • Fios de cabelo

Material é lançado no óleo para absorção do produto. Ajuda a absorver parte do óleo, porém aumenta a quantidade de detritos no mar se não recolhidos.

Fonte: G1

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