O professor de Biologia Ney Mello conta como faz da natureza a estrela do programa ‘Rádio animal’

Certo dia, diante de uma turma inquieta e não muito atenta, preocupada com os nomes em latim de espécies animais, o professor de Biologia e Ciências Ney Mello teve a ideia de convocar “bichos artistas” para tornar as aulas mais atraentes. Entraram em sala então a mosca da Beyoncé, o besouro exterminador do futuro e a vespa da Shakira, entre outros bichos. O tempero pop mudou o rumo do aprendizado e facilitou a rotina do professor, que segue a cartilha de unir ensinamento com entretenimento. Um dos desdobramentos desse caminho está no ar todas as segundas-feiras, às 19h45m, na 94FM (antiga Rádio Roquette-Pinto), onde ele há quatro anos apresenta o programa “Rádio animal”, com dez minutos de duração.

— Trabalho com séries temáticas. Saio um pouco daquela história de sustentabilidade, tipo “abrace uma árvore e beije um bichinho”. Pego histórias e tento contextualizar. Já fiz mais de 40 séries diferentes, divididas em capítulos. A mais recente, chamada “Ponte aérea”, foi a mais desafiadora, pois conta histórias de animais de diferentes lugares do mundo, escolhidos aleatoriamente uma semana antes por âncoras da rádio ou ouvintes — conta o professor do ensino médio no CAp-Uerj, pós-graduado em Ciências e com mestrado em Biologia na Uerj, onde dá aulas de biomimética.

Assim, atendendo a pedidos, ele, sem usar bisturis, dissecou no ar bichos de 18 cidades, entre elas Alasca (EUA), Pyongyang (Coreia do Norte), Bagdá (Iraque), Irkutsk (Rússia) e Havana (Cuba), de onde ele contou a história das lagartas-do-tabaco (Manduca sexta), que se alimentam da matéria-prima dos apreciados charutos cubanos e chegam a consumir seis vezes mais nicotina do que a dose letal para um ser humano.

— Um gene faz a nicotina passear pelo corpo dela, e o resto é expelido através da pele. Isso afasta predadores como a aranha-lobo. Mas há cinco anos criaram um tratamento para as plantas que faz com que elas desativem esse gene. Assim, as lagartas não conseguem mais usar a nicotina para afastar seus inimigos, fica exposta e é caçada — detalha, destacando que o programa é uma forma de trazer a vida animal para o cotidiano.

O biólogo afirma que costuma utilizar capítulos do seu programa de rádio em aulas na CAp-Uerj, pois os episódios são transdisciplinares, pois envolvem diferentes áreas do saber, como física, artes, geografia, história, matemática, química e literatura:

— Uso o contexto para unir conteúdos. A partir dos falcões do Iraque, por exemplo, peço para o aluno amarrar conceitos com outras disciplinas. Então, ele fala sobre aerodinâmica, passagem de vento, força de atrito; ou seja, física.

storytelling — contar uma história — é a principal estratégia usada por ele para instigar a curiosidade científica dos alunos, de qualquer idade. O professor conta que as turmas adoram ouvir casos reais, principalmente aqueles que parecem inventados. As histórias vão do tatu à prova de balas às formigas alemães que tocavam a campainha de uma casa e aos alces bêbados na Suécia:

— Eles ficam bêbados comendo frutas que caíram no chão. Elas fermentam e produzem álcool, que deixa os animais tão embriagados que se prendem entre árvores sozinhos ou caem aparentemtene sem motivos.

Mello acredita que essa é a melhor maneira de ensinar Biologia aos jovens.

— A Biologia tem muitos termos diferentes e complicados. Decoreba é uma coisa chata, e faço de tudo para que o aluno não aprenda dessa maneira. O conteúdo puro e jogado não vai atrair a atenção de ninguém, e vai ser esquecido depois da prova. Então eu conto uma história para os alunos. A curiosidade aumenta, e até aqueles desinteressados que dormiam no fundo da sala se animam — garante.

A curiosidade, aliás, é uma constante nas aulas de biomimética, disciplina que trata das tecnologias inspiradas na natureza. Entre os exemplos estão roupas de natação baseadas em escamas de tubarão e telas de computador com desenho feito a partir das asas de borboletas.

— A tela economiza energia porque reflete a luz natural, misturando as cores primárias. É o que fazem as borboletas do gênero Morpho, aquelas de cor azul-metálico que temos no Rio, inclusive na Tijuca — explica.

Na casa em Vila Isabel onde mora com a mulher, Mariana, e o filho, Miguel, o professor tem um armário reservado para sua “coleção biológica”. São espécimes que ganhou de alunos, adquiriu em museus ou coletou em pesquisas.

— Em 16 anos já recebi peças curiosas como dentes de fósseis de tubarões, arcadas, amostras de corais, conchas de diferentes lugares do mundo, tubarão de duas cabeças… Todas com alguma história. Passei a usar essa coleção de curiosidades nas aulas. E volta e meia conversamos sobre algumas delas com quem nos visita em casa — afirma ele, que também é especialista em tubarões.

Seleção de ‘bichos artistas’

Ney Mello, de 36 anos, diz que é um privilégio morar perto de um de seus locais de trabalho. Mesmo atento aos problemas, ele elogia a natureza da Grande Tijuca:

— A região abriga a terceira maior floresta urbana do Rio, e está ao lado da Uerj, uma das 25 melhores universidades da América Latina. É um bairro bem carioca, mas que precisa de mais segurança e atenção do governo. A Tijuca faz parte de toda a minha vida pessoal e profissional.

A especialização em biomimética rendeu a Mello também um convite do Canal Futura para criar uma série de dez episódios sobre animais que inspiraram tecnologias do cotidiano.

— Esses capítulos podem ser usados em sala por professores de Biologia e de outras disciplinas. Os alunos adoram, porque são episódios curtos que abrem espaço para eles darem suas impressões. O conhecimento passa a ser uma via de mão dupla — afirma.

Ele conta que muitas das histórias que alimentam seus roteiros, tanto de aulas quando dos programas, surgem de pesquisas em artigos científicos, e nem sempre estão nos livros didáticos. Foi numa dessas pesquisas que ele encontrou os “bichos artistas” que tanto sucesso fazem entre os alunos. A mosca da Beyoncé (Scaptia beyonceae) recebeu esse nome porque tem a parte detrás dourada, com algumas saias da cantora; o besouro exterminador do futuro (Agra schwarzeneggeri) tem um pata desenvolvida que lembra os bíceps do musculoso ator; e vespa da Shakira (Aleoides shakira) põe ovos dentro de uma lagarta que mexe o abdômen freneticamente como a cantora. Outro “bicho artista” é a aranha que assusta o herói Indiana Jones e que, após “brilhar” no cinema, acabou sendo rebatizada em homenagem ao ator que estrela a franquia: Calponia harrissonfordi.

Fonte: O Globo