Estudo destaca sítios naturais sagrados em UCs

Por trás da exuberante paisagem e beleza cênica do Monte Roraima, na fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana, existe um significado simbólico e espiritual. Os indígenas contam que o local é o coração do mundo, a morada de “Makunaima”, filho do sol e da lua. As histórias sobre o lugar, passadas de geração em geração pelos índios da região, versam sobre a lendária “árvore da vida”. Essa planta imensa estaria lá desde a origem do mundo, produzia todos os frutos existentes na Terra e foi cortada pela cobiça do coração dos seres humanos. Seu tronco decepado se transformou numa montanha e suas lágrimas ainda correm como cachoeiras.

O Monte Roraima, que fica no interior do parque nacional de mesmo nome, é apenas um dos vários locais naturais considerados sagrados e dotados de valores que transparecem na sacralidade, na espiritualidade e na cultura dos povos que vivem ao redor. As cavernas, montanhas, grutas, vulcões, matas, árvores, formações geológicas que viraram templos, santuários e locais de práticas religiosas são chamados de chamados Sítios Naturais Sagrados (SNS).

Os sítios naturais sagrados foram o tema da tese de doutorado da analista ambiental Érika Fernandes Pinto. A pesquisa foi desenvolvida no Programa Eicos de Pós-Graduação em Psicossociologia e Ecologia Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e teve orientação da professora-doutora Marta Irving. Érika é bióloga e atua na Coordenação Geral de Gestão Socioambiental (CGSAM), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Clique aqui para acessar.

A tese foi escolhida a melhor do biênio 2015-2017 pela Associação Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade (Anppas). São selecionadas teses e dissertações de mestrado em Ambiente e Sociedade defendidas entre janeiro de 2015 e março de 2017. Erika concorreu com outras 120 teses de doutorado no país e recebeu a premiação durante o VIII Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade (Enampas), em Natal (RN).

O estudo foi construído a partir de uma estratégia de pesquisa colaborativa, com a formação da Rede SNS Brasil. No VIII Seminário Brasileiro sobre Áreas Protegidas e Inclusão Social (Sapis), ocorrido em Niterói (RJ), aconteceu o I Encontro da Rede SNS Brasil.

Religiões alternativas

A pesquisa de Érika constatou aproximadamente 500 sítios naturais sagrados presentes em mais de cem unidades de conservação no Brasil, a maioria delas parques nacionais, como Fernando de Noronha (PE); Jericoacoara (CE), que tem a Pedra Furada; Lençóis Maranhenses (MA), cujas dunas são famosas por ter ligações com o sebastianismo, uma vertente popular no Brasil em tempos passados sobre a volta do Rei de Portugal, Dom Sebastião.

Ainda há berços de religiões alternativas como os parques nacionais da Chapada dos Veadeiros (GO) e da Chapada dos Guimarães (MT), locais com registros arqueológicos que investigam a origem do homem, como os parques nacionais da Serra da Capivara e das Sete Cidades no Piauí; e lugares que guardam memórias ancestrais de povos indígenas, presentes em parques nacionais como os do Pico da Neblina (RR) e do Iguaçu (PR) e até locais de culto de religiões cristãs como o mundialmente famoso Cristo Redentor, localizado no Parque Nacional da Tijuca (RJ) ou a estátua de São Francisco de Assis, no Parque Nacional da Serra da Canastra (MG).

Isso demonstra que o perfil dos Sítios Naturais Sagrados é bastante variado. A pesquisa de Érika detectou que existem locais permeados pelas culturas cristãs (catolicismo, protestantismo, neopentecostalismo), passando pelas religiões de matriz africana (como o candomblé e a umbanda), religiões indígenas e religiões alternativas em unidades de conservação federais, estaduais e municipais. Não são só locais de culto, com a realização de rituais religiosos, ou respeito pela ancestralidade, mas também muitos utilizados como roteiros de peregrinação e romarias.

Fonte: ICMBio

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