Em Turim, especialistas se reúnem para refletir sobre a globalização: ‘Não é um jogo bonito’

Dois dias depois do fim da COP23, na Alemanha, onde cientistas do clima, ambientalistas e representantes de governos tentaram avançar em negociações que garantam o aquecimento do planeta num nível que permita a permanência da humanidade nele, outra reunião, em Turim, buscava pensar sobre o futuro/presente do mundo em termos econômicos, sobre a globalização. Convocado por uma rede de fundações e de centros de reflexão europeus, o encontro “Globalização, Ganhadores e Perdedores”, a terceira edição do “Vision Europe”, rendeu um texto escrito por Manuel Carvalho para o jornal português “O Público”, e trago para vocês alguns pontos interessantes do que foi discutido na Itália.

O pano de fundo para dar solidez aos debates foi uma pesquisa, divulgada na reunião de Turim, que dá conta do desconforto dos cidadãos no mundo ocidental de hoje. Ela aponta que só 32% dos americanos e 28% dos europeus acreditam que os seus filhos vão ter uma vida melhor do que a deles.

“Essa descrença acaba por gerar pontas de ressentimento que começaram a contaminar  a democracia”, analisa o autor do texto.

Não se pode criticar o pessimismo dos cidadãos que responderam à pesquisa. Desde os temores reais com as mudanças climáticas, que já estão tornando mundo pouco amigável aos humanos, até a preocupação também real com os rumos da economia traçados por quem dá mais valor a números do que a pessoas, está mesmo difícil acreditar num mundo melhor. A vitória de Donald Trump, do “Brexit”, o avanço da extrema direita na Alemanha, corroboram a sensação de que os cidadãos estão buscando alternativas cada vez mais radicais. O que não é bom.

Uma das questões que mais causa alarme é a falta de emprego.  O texto diz que em 1990 os sete países mais ricos (G7) produziam 65% de todos os produtos manufaturados do mundo e que, vinte anos depois, essa quota baixara para 47%. Hoje ainda é muito menos. O fenômeno foi causado pela falta de proteção ao mercado interno, que fez com que milhares de fábricas europeias decidissem fechar as portas e buscar lugares com mão de obra mais barata e leis trabalhistas menos rigorosas.  Para além disso, existe também, correndo paralelo, a necessidade de se rever volume e meios de produção para fazer frente às mudanças climáticas. Há quem esteja encarando a sério o movimento.  O grupo industrial gigante alemão Siemens, por exemplo, acaba de anunciar planos para cortar 6.900 empregos no mundo em sua divisão de combustíveis fósseis.

Como consequência, milhões de cidadãos dos países ricos deixaram e estão deixando de ter lugar no mercado de trabalho.

Mudanças climáticas, falta de trabalho e… desigualdade. Sim, este foi também um dos problemas apontados como dano provocado pela globalização nos consensos do Ocidente.

“Um artigo recente publicado pelo historiador Robert Allen na revista “Nature” dá conta que o sistema de redistribuição da economia mundial regressou ao padrão do início da Revolução Industrial, no princípio do século XIX. “Ao contrário do que se verificou entre 1850 e 1970, os ganhos econômicos estão cada vez mais concentrados nos mais ricos”, diz o texto do jornal português.

Instituto McKinsey Global, que também faz estudos sobre desigualdade, revelou no ano passado que de 65 a 70% das famílias que moram nas 25 economias mais avançadas do mundo tinham estagnado seu padrão de vida ou recuado entre 2014 e 2015. E, ainda para ficar nos mais ricos, em 2013 havia 735 indivíduos com patrimônio acima dos US$ 2 bilhões: em conjunto, controlando cerca de 6% da economia do mundo.

Há bases estruturais que alicerçaram essas condições e elas ganharam terreno fértil com a globalização, um dos “mais difíceis e perturbadores fenômenos do mundo contemporâneo”, diz Marion Jansen, economista-chefe do Centro Internacional do Comércio com sede em Genebra . É preciso usar armas eficazes, como  competitividade, inovação e mudanças estruturais, diz ao jornal Peter H. Chase, um alto executivo norte-americano da German Marshall Fund. Para ele, é preciso ajudar as pessoas a adaptar-se a essas mudanças. “A globalização tem que ver com poder no mundo. Não é um jogo bonito”, segundo João Vale do Almeida, embaixador da União Europeia nas Nações Unidas, também ouvido pela reportagem do jornal português.

Sim, nesta fala a preocupação, ao menos genericamente, é com as pessoas, e vejo aí um caminho para outras reflexões. Lembro-me de Celso Furtado, economista e um dos intelectuais mais respeitados no século XX, que faleceu exatamente há 13 anos, em 20 de novembro de 2004. Sua preocupação com o desenvolvimento tendo em vsita as pessoas é apontada com louvor por dez entre dez economistas, mesmo os mais ortodoxos. Meses antes de morrer, Celso Furtado escreveu um artigo no qual reitera a atenção ao desequilíbrio perigoso do sistema econômico. E compara crescimento com desenvolvimento de forma clara:

“O crescimento econômico, tal qual o conhecemos, vem se fundando na preservação dos privilégios das elites que satisfazem seu afã de modernização; já o desenvolvimento se caracteriza pelo seu projeto social subjacente”, escreve Furtado.

Eis uma das causas para o crescente fenômeno de ansiedade e desesperança que parece ter tomado conta do Ocidente nesta década. “Ganhar ou perder depende cada vez mais do lugar onde vives”, diz ao “Público” Michael Pence, professor de Economia da Universidade de Nova York e um dos especialistas reunidos durante dois dias em Turim. “E não há mais lugar onde não haja perdedores”.

O interessante é notar que, em números, a globalização trouxe sucesso a (quase) todos os participantes. Segundo dados colhidos na reunião de Turim, a pobreza extrema, situada num limiar de rendimento abaixo dos  US$1,90 por pessoa/dia se reduziu drasticamente. Em 1990, havia quase dois bilhões de pessoas (35% da população mundial) que viviam abaixo desse limiar de rendimento. Em 2013, e apesar do crescimento da população mundial, esse número tinha-se reduzido para 767 milhões, ou seja, 10,7% do total. Por que, então, virou um monstro contra o qual é preciso se proteger?

O mestre Celso Furtado consegue dar conta do que não aconteceu. O crescimento só se metamorforseia em desenvolvimento  quando há vontade política e envolvimento direto da sociedade.

“O desenvolvimento não é apenas um processo de acumulação e de aumento de produtividade macroeconômica, mas principalmente o caminho de acesso a formas sociais mais aptas a estimular a criatividade humana e responder às aspirações da coletividade”, escreve Furtado.

Outros especialistas apontam sugestões no artigo escrito para o “Público”.  Para alguns, os estados europeus terão que ter uma providência para responder aos que perderam o jogo.  Nesse sentido, os finlandeses estão na vanguarda, com a experiência do rendimento básico que garante uma forma de vida sustentada para todos os cidadãos. E a Europa, de todos os continentes, com 7% da população mundial, tem 51% dos gastos mundiais em proteção social.

Seria uma forma de proteger os fracos. Mas, como dar a eles mais força e poder para conseguirem se livrar do protecionismo? Busco em outro autor, Mauricio Lazaratto, sociólogo e filósofo radicado na França, que entre outros escreveu “As revoluções do capitalismo” (Ed. Civilização Brasileira, 2006) , um caminho de pensamento possível, e aqui encerro o texto.

Estamos prestes a viver uma situação de ‘guerra civil planetária’ e de estado de exceção permanente, mas a resposta a essa organização do poder só pode ser dada por uma reversão da lógica da guerra em uma lógica da co-criação e da co-efetuação”.

Fonte: Amelia Gonzalez G1