Jornalista brasileira que mora há 30 anos em LA conta como é viver em alerta constante de incêndios e terremotos

Um incêndio florestal havia tomado conta das vertentes das Montanhas de Santa Monica, em Los Angeles, entre a a via expressa 405 e o mar, e eu morava numa casinha não muito diferente da que ocupo agora, um bangalô estilo Califórnia todo de madeira, construído nos anos 1920, no fundo de um cânion onde, no passado, James Dean e Jimi Hendrix tinham buscado refúgio.

O aviso do Departamento de Bombeiros veio logo: se o fogo pulasse a freeway, eu e minha família teríamos que sair dali, imediatamente. Em outras palavras, se o incêndio se alastrasse à leste da via expressa, todos nós, habitantes humanos do cânion, teríamos que pular fora.

O ano era 1989, eu estava em LA há pouco mais de dois anos. Não sabia ainda que iria passar por muitos outros sustos e percalços que são parte do pacote de morar numa das cidades mais estranhas, excitantes e interessantes do mundo: muitos terremotos, inclusive o famoso Little Big One de janeiro de 1994; várias enchentes, inclusive a que quase arrastou meu carrinho para dentro do rio Los Angeles, quando eu voltava para casa pensando em “O Resgate do Soldado Ryan”, que eu tinha acabado de ver, numa sessão para imprensa da Dreamworks, no inverno de 1998.

E, é claro, muitos passeios da Serpente de Fogo, que é como os primeiros habitantes destas plagas entre o deserto e o Pacífico chamavam as queimadas espontâneas que renovam a vegetação rasteira destas colinas, no final do verão e no outono.

O que levaria para uma ilha deserta?

Há um exercício interessante que se faz quando se vive muito tempo numa cidade como esta, criando uma família que agora já está na segunda geração.

Aprende-se a estar sempre pronta para enfrentar aquilo sobre o qual não se tem controle, o que implica em saber ao mesmo tempo se preparar e se resignar. Aprende-se a ter sempre as prioridades em ordem: o que você poria no carro, na bolsa, na bagagem, se o fogaréu pulasse a freeway e você tivesse que evacuar em estado de emergência?

Quem você chamaria ou procuraria para pedir ou oferecer ajuda se houvesse um grande terremoto? O que você faria com seus bichos de estimação numa enchente?

É como aquele jogo do “qual (livro, CD, vinil, DVD) você levaria para uma ilha deserta?”. Só que de verdade.

Aprende-se também a saber que lugar ocupamos no mundo natural. Pela sua geografia bizarra, espalhada entre cânions, serras e planícies, do deserto ao mar, Los Angeles nunca está longe do não-civilizado, do animal, da floresta, do chaparral.

É assim e é por isso que a região arde como agora, com uma agravante: não são mais as queimadas espontâneas, sazonais, da Serpente de Fogo, mas uma megafornalha incontrolável, criada pelas alterações climáticas que estão elevando as temperaturas da região e prolongando a estação seca.

Este ano passei o verão e o começo do outono estudando modos de conviver com incêndios mais ou menos previsíveis, mas muito maiores do que o habitual. O do cânion La Tuna, em setembro, foi o maior de todos dentro do perímetro urbano da cidade, obrigou amigos meus a deixarem suas casas e me deixou com uma reação alérgica violenta – não há como não respirar seja lá o que for que um incêndio desse porte joga no ar.

Normalmente, dezembro seria uma época para se pensar em presentes e festas, no que plantar no quintal para a primavera, aproveitando o começo da estação chuvosa. Em vez disso, as portas do inferno se abriam. Como começou? Quem sabe?

Não é preciso muito quando o mato está sem ver uma gota de chuva há quase dez meses e os ventos Santa Ana, secos e quentes, sopram do deserto a 65 milhas por hora: uma guimba de cigarro jogada de um carro? Um churrasco perto demais de uma encosta? Um pedaço de vidro refletindo um raio de sol?

Em menos de uma hora as colinas ao norte da Los Angeles, numa região particularmente bela, entre as pequenas cidades de Santa Paula e Ojai, nas montanhas, e a sede do município, Ventura, na beira do mar, estavam em chamas. Uma parede de fogo, movendo-se rapidamente ao sabor dos ventos, o ar cheirando a fornalha, irrespirável.

Um dia depois, na manhã de quarta feira, dia 6, recebo no celular, quase ao mesmo tempo, um alerta do Corpo de Bombeiros de Los Angeles e uma mensagem de uma amiga que eu tinha combinado de encontrar. O alerta dizia: “Incidente: fogo florestal generalizado no Sepulveda Pass, entre o Skirball Center, Mulholland Drive e Roscomare Road. Mantenha-se informado. Instruções de evacuação serão enviadas caso seja necessário.”

A mensagem da minha amiga completava: “Vamos ficar em casa, querida. Está uma loucura lá fora”.

O Skirball Center é a menos de 3km de onde moro. O Sepulveda Pass, por onde passa a infame, mas inevitável freeway 405, é um dos meus caminhos mais comuns. A escola de uma de uma das minhas netas é no meio da área descrita pelo Corpo de Bombeiros.

Respirando fuligem

O céu está cinza chumbo, a fuligem cai lentamente, o ar cheira a carvão, irrespirável, seco, denso. Não escuto o burburinho da cidade, apenas o uivar dos ventos do deserto, o ronco dos helicópteros e as sirenes, tantas sirenes.

Fecho a casa toda, ponho meu filtro-umedecedor no máximo, checo com meu filho se todos estão bem (estão – as aulas foram canceladas, os ônibus escolares voltaram com a garotada), cato as gatinhas que já se animavam a ir para o quintal, verifico como está meu estoque de água, pilhas, comida de gente e de bicho.

Na sala dos fundos da minha mente começo a fazer a lista do que eu poria no carro se a ordem de evacuação vier: documentos, gatas, computador, as fotos da minha família. O que não pode ser substituído? O que vale a pena? Onde fica minha ilha deserta?

São dias e noites de vento, silêncio, escuridão. Às vezes, falta luz. Na primeira noite, olhando para o sul, vejo no horizonte as chamas dançando contra um céu vermelho, do outro lado da rua Mulholland. Rio pensando quantas vezes as pessoas viram isso em filmes. Penso que aqui é a cidade onde os filmes moram – e às vezes eles escapam e se manifestam na vida real.

Se os ventos empurrarem o fogo na direção norte, ele pula a Mulholland nesta direção.

O fogo não vai pular, repito como um mantra. O fogo não pode pular.

Baldes de água

À noite ponho uma máscara protetora e coloco baldes de água na frente e atrás da casa. Sei do povo do cânion – os coiotes, os pássaros, os guaxinins, as raposas, os gambás, as cobras, as corças. Sei o que acontece com eles quando sua casa se incendeia – o pavor, a fuga, a sede.

Minha vizinha do outro lado da rua, também de máscara, está pondo uma bacia de água na calçada. Nos olhamos sem dizer nada. Somos o povo das terras do Oeste, nosso destino não é muito diferente daquele dos nossos vizinhos de pelo e penas, nessa hora.

Escrevo isto no primeiro dia em que o céu ficou azul e o ar, respirável. Os bombeiros de Los Angeles – heróis e experts, sem direito a efeitos especiais- conseguiram conter o fogo aqui de perto. A situação continua grave nos outros cinco focos que formam um círculo do munícipio de Santa Barbara até o município de San Diego.

A tragédia do dezembro de fogo ainda não acabou, mas hoje os passarinhos voltaram a tomar banho na fontezinha que tenho aqui no quintal e meus vizinhos estão passeando com seus bebês e cachorros.

Eis o que sei: quem coloca raízes nesta terra se transforma um pouco numa planta do deserto, um cacto ou um carvalho do cânion, que sobrevive a quase tudo, inclusive ao fogo, e dá flor quando o tempo está bom.

E ontem à noite, pela primeira vez em muito tempo, ouvi um coiote uivar. Uivou longamente e parou. E lá de longe, de algum outro cânion, veio um uivo de reposta.

Fonte: BBC

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