Pesquisa revela falta de mobilidade urbana no Rio

Grandes cidades podem ser um celeiro de ideias, um estrondo de criatividade. Esta é a maior vantagem de se morar em lugares que nem sempre oferecem o conforto e a tranquilidade de regiões mais afastadas, onde se tem mais contato com a natureza e tranquilidade para ir e vir. Segundo Edward Glaeser, de “Os Centros Urbanos” (Ed. Campus), o convívio mais estreito com o outro é capaz de enriquecer grandes projetos e soluções.

“Seja nas galerias comerciais enfeitadas de Londres, seja nas ingovernáveis favelas do Rio, seja nos arranha-céus de Hong Kong, seja nos ambientes de trabalho empoeirados de Dharavi, nossa cultura, nossa prosperidade e nossa liberdade são, em última instância, dádivas obtidas pelo fato de as pessoas viverem, trabalharem e pensarem em conjunto: elas representam o triunfo definitivo da cidade”, escreveu o norte-americano, que passou a vida estudando a economia das cidades.

Para isso, porém, para que estejamos juntos, é muito importante que as cidades ofereçam condições para os moradores circularem livremente. Se não puderem se locomover, os cidadãos não podem trocar. Não há como descobrir e permutar hábitos e culturas, se o habitante ficar confinado entre pessoas que circulam exatamente pelos mesmos locais e vivam as mesmas situações que a sua. Dá para notar, caro leitor, que o capítulo mobilidade urbana merece, assim, uma atenção especial no amplo chapéu do desenvolvimento sustentável.

Vou começar dando um exemplo próprio. Moro em Laranjeiras, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro, contíguo a Botafogo. Por mais que sejam bem próximos, a dificuldade de deslocamento entre eles, usando transporte público, é imensa. Temos notícias de que os trabalhadores da Empresa São Silvestre, dona das duas únicas linhas que fazem o trajeto, estão quase sempre paralisados por falta de pagamento. Sendo assim, não se espera menos do que uma hora para pegar o ônibus que fará o trajeto que se consegue percorrer em quinze minutos sem trânsito.

A situação é ruim e mereceria uma atenção do poder público. No entanto, não se compara ao drama que vivem os moradores de comunidades periféricas da cidade, sobretudo aqueles que precisam se deslocar diariamente para trabalhar.

Recebi em casa, por esses dias, uma pesquisa assinada por Sergio Veloso e Vinícius Santiago, pesquisadores e doutores em Relações Internacionais do Brics Policy Center, publicada pela Fundação Heinrich Böll Brasil, que teve como objetivo apresentar a situação da “Mobilidade Urbana como Direito à Cidade” no Complexo do Alemão. Trata-se de um conjunto composto por 15 comunidades que, segundo o último Censo do IBGE, realizado há oito anos, tinha cerca de 60 mil moradores e 18 mil domicílios. Imagino que esses números já estejam subestimados.

A pesquisa foi feita em parceria com o Coletivo Papo Reto, formado por pessoas da comunidade. Essa associação enriqueceu a pesquisa e foi, também, um jeito que os pesquisadores deram para conseguirem superar a reatividade dos moradores em responder às perguntas. É que um sem-número de pesquisadores costumam frequentar o local para questionar um sem-número de coisas para estudos diversos. E, no fim das contas, ninguém volta para dar retorno, situação que tem deixado os moradores, legitimamente, avessos a perguntas.

Contornado o problema, porém, foram a campo. E mais um desafio precisou ser enfrentado: a violência. A partir das orientações de Thainã de Medeiros e Renata Trajano, do Coletivo Papo Reto, o questionário deveria abordar o tema da violência como um dado a ser levado em conta: em dias de conflito, como se movem os moradores?

“Em fevereiro de 2017, até o mês de setembro do mesmo ano, houve tiroteios em aproximadamente 200 dias, ou seja, uma média de 70% de dias com tiroteio em alguma área do Complexo. Mais especificamente, de acordo com o Coletivo Papo Reto, no mês de janeiro 48,39% dos dias tiveram tiroteios todos os dias. O cotidiano de tiroteios manteve o padrão nos meses seguintes: 90,32% em março; 70% em abril; 67,74% em maio; 83,33% em junho; em 74,19% em julho; 64,52% em agosto e em 56,67% em setembro”, diz a pesquisa.

Em situações como essa, em que mesmo os pesquisadores não puderam subir às comunidades por causa do risco, “o trânsito pelas ruas e becos, a saída dos moradores de casa para o trabalho, a entrada de trabalhadores na região oriundos de outros locais da cidade e, enfim, o estado de normalidade do dia a dia da comunidade são suspensos, bem como os direitos básicos à vida, à moradia e ao acesso à cidade”. Neste cenário, a avaliação dos moradores é de que o Estado entra com a força, diferentemente daquilo que ele deveria estar fazendo, que seria garantir o direito de locomoção dos moradores.

Antes de serem impossibilitados de trabalhar por causa dos tiroteios intensos, os pesquisadores conseguiram concluir que o ônibus é o meio de transporte mais utilizado (52,2%) pela população entrevistada – 84 mulheres, 76 homens e três pessoas que se autodeclararam de outro gênero, um total de 163 pessoas – para acessar o Centro da cidade. Em segundo lugar são usados os moto-táxis e, em terceiro, as vans. Desses 52,2%, 46,6% disseram utilizar apenas um ônibus para chegar ao destino, enquanto 35% responderam que utilizam dois ônibus ou um ônibus e um metrô. Quase 30% criticaram bastante o estado dos ônibus.

Aqui, é necessário fazer um link que não está na pesquisa. É que, na hora de contratar um funcionário, sobretudo as pequenas empresas preferem aqueles que precisam utilizar apenas um transporte público para ir e outro para voltar de casa, pois o preço das passagens aumenta bastante o custo com empregados.

Ao serem perguntados para quais regiões da idade o(a) entrevistado(a) se locomove com frequência, apenas 5,1% responderam que vão até bairros da Zona Sul. A grande maioria – 84,9% – transitam somente pela Zona Norte/Centro e, mais especificamente, pelos arredores do Complexo do Alemão.

Este dado “revela a precarização do acesso à cidade por parte de sua população e reflete um aspecto característico da segregação social carioca, que divide a população e cria muros invisíveis entre as várias zonas que compõem o espaço urbano do Rio de Janeiro”, concluem os pesquisadores.

Já que estamos começando um novo calendário, peço licença aos leitores para voltar bastante no tempo. Vamos a 1933, quando aconteceu o IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (Ciam) realizado em Atenas. Dali resultou um produto chamado  “Carta de Atenas”, que aqui no Brasil só chegou em 1993 (Ed. USP), assinada  pelo famoso arquiteto Le Corbusier. O texto do documento reúne sugestões e propostas para uma cidade que funcionasse adequadamente para todos os seus habitantes, proporcionando qualidade de vida e bem-estar.

O texto é separado em capítulos e cada um tem as observações dos arquitetos quanto aos problemas existentes e as sugestões de mudanças que deveriam ser endereçadas aos governantes. No capítulo que nos interessa aqui, no documento descrito como “Circulação”, a existência de uma segregação já se fazia sentir, criada pelas estradas de ferro.

“… foram construídas antes da prodigiosa expansão industrial que elas mesmas provocaram. Penetrando nas cidades, elas seccionam arbritariamente zonas inteiras… elas isolam uns dos outros setores que viram-se privados de contatos para eles indispensáveis”.

A sugestão dos arquitetos? “Remediar, por meio de medidas adequadas, uma situação que caminha para o desastre”.

Deixo os leitores com essa possibilidade de reflexão. Se tudo já foi dito e pensado, o que ainda falta dizer e pensar?

Fonte: G1 Amelia Gonzalez

Esta entrada foi escrita emArtigos, Clipping