‘Águas pela paz’ será encontro preparatório para Forum da Água que vai acontecer em Brasília

Vai  ser em março deste ano, em Brasília, o 8º Fórum Mundial da Água. É a primeira vez que este evento, que acontece de três em três anos desde 1997,  será realizado no Hemisfério Sul, e cerca de 40 mil pessoas são esperadas, representando perto de 170 países.  O último encontro foi em 2015, na Coréia do Sul.  Vai ser um momento de se debater questões sobre o recurso natural que, hoje, não chega para cerca de 750 milhões de pessoas em todo o mundo. E este quadro tende a piorar.

Para se preparar para o megaencontro, nos dia 11 e 12 de janeiro, também em Brasília, cientistas nacionais e internacionais, líderes espirituais, políticos e pesquisadores da iniciativa privada dos mais diversos setores vão se reunir para debater sobre a sustentabilidade dos recursos hídricos do planeta. Este evento será gratuito e estará aberto a quem quiser participar, basta entrar no site aguaspelapaz.eco.br.

Um dos idealizadores deste seminário é Sri Prem Baba, mestre espiritual brasileiro, em conjunto com o Centro Internacional de Água e Transdiciplinaridade (Cirat). É uma parceria com a Unesco no Brasil e conta ainda com a participação do Instituto Espinhaço, da Universidade da Paz (UniPaz), da Universidade de Brasília (UnB) e da Secretaria de Meio Ambiente do Distrito Federal (Sema/DF).

Por que um líder espiritual está encabeçando o debate sobre recursos hídricos? Assim como os leitores, também fiquei curiosa e busquei a explicação para o fato na leitura dos resumos dos painéis que recebi. A ideia faz sentido: na atual crise em que estamos vivendo -  e falamos aqui sobre a relação entre os humanos e os recursos naturais -  é preciso ter um olhar integral. Diz o texto:  “(olhar) proveniente das sabedorias e dos conhecimentos das diferentes tradições em diálogo com as descobertas da ciência, capazes de forjar novas visões para realizar o desafio de reconstruirmos o projeto humano em nosso planeta”.

Para o painel que vai pôr em pauta o fato de a água ter se esvaziado de seu sentido pleno, transformando-se em uma representação desprovida de ancestralidade, desconectada da própria memória do universo e da vida orgânica na Terra, foram convidados líderes de várias religiões, entre eles o Diretor do Memorial dos Povos Indígenas, Álvaro Tukano.

Mas o seminário vai também tentar enfrentar e discutir o encadeamento de  fatores nos quais os desastres climáticos, entre os quais se inclui a seca, colaboram para criar fissuras sociais. Nesse caso, a proposta é transformar a água numa espécie de ferramenta da paz. O objetivo é nobre e a tarefa é inglória. Não custa lembrar aqui que, segundo um relatório publicado pela Unicef em agosto do ano passado, mais de 180 milhões de pessoas não têm acesso a água potável em países afetados por guerras, violência e instabilidade.

Além disso, dos cerca de 484 milhões de pessoas que viviam em situações instáveis em 2015, 183 milhões não possuíam serviços básicos de água potável, também de acordo com uma análise da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Tem mais dados vergonhosos com relação à água: a OMS divulgou um estudo em abril do ano passado, dando conta de que, em todo o mundo, dois milhões utilizam água potável com fezes.

Segundo o estudo feito pelos organizadores do Seminário, que recebeu o título de “Aguas pela paz”, nas últimas décadas o consumo de água cresceu duas vezes mais do que a população e a estimativa é que a demanda aumente 55% até 2050.

“Em cenário diametralmente oposto, projeta-se que as reservas hídricas do mundo podem encolher 40% até 2030. Soma-se a esse cenário desafiador, a estimativa que 20% dos aquíferos – grandes reservatórios que concentram água no subterrâneo e abastecem nascentes e rios – estão sendo explorados acima de sua capacidade. Agrava-se a situação com a perspectiva que 1,8 bilhão de pessoas em breve vivam em países ou regiões afetadas pela escassez hídrica”.

A torcida é para que dessas reuniões surjam, de fato, ideias novas para promover um uso eficiente desse recurso. Que o desenvolvimento não seja mais importante do que facilitar a distribuição de água para todas as pessoas, sobretudo levando em conta o quão necessário é, para os humanos.

“O aumento da população exige não só mais água para se beber como também para produzir alimentos necessários para satisfazer a demanda de um planeta cada vez mais populoso e próspero”, diz o texto sobre água escrito pelo economista Luís Torras, que serviu como base de discussão, ano passado, no Forum Econômico Mundial.

A questão é que exatamente a agricultura consome 70% da água do planeta: sem água não há agricultura. O jogo de xadrez é difícil, qualquer iniciativa com relação a racionalizar o uso da água exige investimento pesado. Ao mesmo tempo, é preciso. Que seja se reunindo e debatendo novas ideias que a humanidade consiga chegar perto de uma solução, sem precisar buscá-la em outro planeta.

Fonte: G1 Amelia Gonzalez

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