O caminho para um consumo mais consciente

Estávamos no meio da tarde, entre uma e outra atividade para preparar o Protocolo Comunitário, sob um calor amazônico que só quem viveu sabe o que é. As redes do barco onde passáramos já uns cinco ou seis dos dez dias previstos para a viagem ao Arquipélago do Bailique, no Amapá, quase fronteira com a Guiana Francesa, estavam paradas. Não havia brisa e as águas da Foz do Amazonas pareciam um espelho, de tão quietas. O cenário deixava a cabeça meio sonolenta, sobretudo depois de um bom prato de açaí. Mas ninguém dormia. E a conversa ia se arrastando, até que alguém decidiu propor uma brincadeira de memória. Do que mais sentíamos falta ali, tão longe dos centros urbanos onde morávamos?

Éramos um grupo de cerca de dez pessoas e viajávamos  a convite do Grupo de Trabalhos Amazônicos (GTA). Ninguém se conhecia antes do início da viagem, mas àquela altura parecíamos todos amigos de infância. E começamos a listar, de memória, nossas saudades. Não valia gente ou bicho, só coisas. Foi divertido. Lembro que botei na roda da brincadeira o gosto da “minha” geleia de framboesa misturada ao queijo sobre uma torrada sem glúten. Teve quem citasse a cadeira preferida, o chá, um livro que esquecera de levar na viagem. Os sentidos iam se aguçando, as lembranças tinham sabor, cheiro.

Lembrei-me disso hoje. Estou em processo de mudança de casa e, como sói acontecer, abismada com a quantidade de coisas que acumulei vida afora sem a menor necessidade. Objetos que nem mesmo me fizeram falta naquela viagem tão longa, numa situação de pouco conforto. Há de ter explicações para essa compulsão por ter, mais ainda por guardar sem sentido. Mas o que me interessa refletir aqui neste espaço é, justamente, o consumo. Porque é o ato de consumir que impulsiona  a produção industrial e que vai impactar diretamente as pessoas que precisam ser deslocadas por causa de grandes empreendimentos e o meio ambiente.

Ou seja, é tudo uma grande rede e depende – e muito – de nós, cidadãos comuns, a pavimentação para um caminho sustentável da economia. Depende, em última instância, de criarmos novos hábitos, com valores revistos para fazermos frente às exigências de uma nova ordem mundial.

Decidi buscar informações sobre o consumidor brasileiro e, por coincidência, neste mesmo dia em que me deixava refletir, recebi da assessoria do site especializado em trocas pela internet, o OLX, a informação de que o número de pessoas que negociaram seus itens com sucesso nos últimos três anos aumentou 392% (70% ao ano) mostrando uma mudança nos hábitos de consumo do brasileiro. Ou seja: em vez de comprar em lojas, o povo estaria mais interessado em trocar seus pertences.

E temos também, em evidência neste cenário, “a crise”. Uso aspas porque ouvimos que estamos em crise há dez anos, desde que o Lehman Brothers, quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos, declarou falência há dez anos. Desde então, várias outras situações extremas no setor econômico e financeiro nos deixaram sob tensão, mas a crise teve início lá.

Aqui no Brasil demoramos um pouco a senti-la. Mas hoje, por conta dos revezes palacianos, de empresários corruptores e políticos corruptos, estamos navegando em mares que ainda não nos oferecem garantia. Sendo assim, um estudo chamado “O Brasil Pós-crise: Transformações que vieram para ficar”, feito por profissionais da agência Publicis e pelo Instituto Locomotiva e divulgado no mês passado, mostrou que 93% dos brasileiros entrevistados assumiram que mudaram seus costumes por causa da crise.

“Oitenta por cento diminuíram o consumo de alguma categoria de itens, 53% migraram para marcas com preços mais baratos e 24% pararam de comprar algum tipo de produto por conta da piora do ambiente econômico”, diz o texto que apresentou a pesquisa.

O presidente do Instituto Locomotiva,Renato Meirelles, diz que a crise resultou em uma melhora na maturidade do brasileiro.

“Uma coisa é adiar o sonho de viajar pela primeira vez de avião. Outra coisa é descobrir como é bom viajar de avião e ter que voltar a fazer São Paulo-Fortaleza dentro de um ônibus”, diz Meirelles.

De qualquer maneira, é sempre bom começar mais cedo. As crianças devem perceber, no comportamento dos pais, um desejo de mudança. Para elas é mais fácil absorver. Sim, estou falando de menos coisas e mais contato com o que já existe e está aí, em natura. Ensinar que ser não é ter pode ser um bom caminho.

Para isso, o Instituto Akatu de Consumo Consciente, organização que sempre martelou sobre o tema, enviou sugestões ao Conselho Nacional de Educação (CNE), que foram aprovadas e inseridas na versão final da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologada em dezembro passado pelo Ministério da Educação (MEC). A BNCC é um documento previsto na Constituição de 1988 com o objetivo de organizar e determinar o conteúdo mínimo que deve ser ensinado em todas as escolas públicas e privadas do país.

Para se ter uma ideia, para o primeiro ano a turma do Akatu, que desenvolve desde 2008 as sugestões para as escolas mas só agora foi ouvida, sugeriu que, na área de Ciências, as crianças pudessem ouvir de seus professores que é possível comparar características de diferentes materiais presentes em objetos de uso cotidiano, “discutindo sua origem, seu descarte, e como usá-los de forma mais consciente”. Já para o ano seguinte, a proposta de inserção temática foi relacionada com a área de Geografia, sobre mobilidade: “comparar diferentes meios de transporte e de comunicação, indicando o seu papel na conexão entre lugares, e discutir o seu uso mais consciente de modo a reduzir os riscos para a vida e para o meio”.

Teremos, assim, a possibilidade de criar gerações mais atentas a um dos grandes gargalos que empatam o caminho de um desenvolvimento que, verdadeiramente, leve em conta as causas de pessoas e do meio ambiente.

Fonte: Amelia Gonzalez, G1

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