“Aviões elétricos podem ser realidade em 20 anos”

Avião modelo da Easyjet com propulsão elétricaEmpresa aérea Easyjet experimenta com a propulsão elétrica em colaboração com a americana Wright Electric

Entre as diversas pesquisas em andamento no sentido de incrementar a mobilidade, mas contribuindo o mínimo possível para a mudança climática, o desenvolvimento de aviões movidos a eletricidade merece destaque especial.

Josef Kallo trabalha no Instituto de Termodinâmica da Engenharia, no Centro Aeroespacial Alemão (DLR) em Stuttgart. Desde 2006 ele encabeça o Departamento Sistemas Eletroquímicos, Células de Combustível e Sistemas de Baterias.

Ele explica que, à medida que os obstáculos tecnológicos vão sendo sucessivamente superados, e com os primeiros protótipos já em construção, adotar ou não essa forma de transporte é, cada vez mais, uma questão de investimentos.

Pouco poluentes, e com autonomia para viagens de até 2 mil quilômetros, os aviões elétricos poderiam ser uma alternativa perfeita para deslocamentos entre grandes centros urbanos ou em locais onde o transporte de passageiros é incipiente.

Empresas aeronáuticas também já começam a se interessar pela tecnologia e, segundo Kallo, a cooperação entre ciência e indústria é bem-vinda.

DW: Professor Kallo, o senhor está pesquisando sobre aeronaves propelidas por baterias em vez de querosene no Centro Aeroespacial Alemão (DLR). Quando será possível viajar em aviões elétricos?

Josef Kallo pesquisa no Instituto de Termodinâmica da Engenharia do Centro Aeorespacial Alemão (DLR)Josef Kallo pesquisa no Instituto de Termodinâmica da Engenharia do Centro Aeorespacial Alemão (DLR)

Josef Kallo: Eu diria que dentro de uns 20 anos. O voo elétrico faz mais sentido nas viagens regionais, ou seja, para distâncias de 250 a 2 mil quilômetros, uma vez que os aviões movidos a eletricidade têm apenas 60% da autonomia dos abastecidos com querosene.

Já estamos construindo protótipos, mas vou continuar desenvolvendo e certificando modelos pelos próximos 10 a 15 anos. O voo elétrico é definitivamente possível do ponto de vista tecnológico. Se vai ser mesmo implementado, entretanto, é uma questão de investimento.

Como funcionaria o transporte local com aviões elétricos na prática?

Criaríamos pequenos terminais para “ônibus aéreos” com dez a 12 lugares, talvez até 40 lugares. Como essas aeronaves são muito silenciosas e só precisam de uma pista relativamente curta para decolar e aterrissar, esses terminais poderiam ser construídos perto de cidades. Os passageiros reservariam a viagem num aplicativo e decidiriam se preferem tomar o trem ou o ônibus aéreo, ou uma combinação de ambos.

Na Alemanha, os aviões elétricos conectariam áreas rurais onde o transporte público ainda não está bem desenvolvido. No estado de Baden-Württemberg, por exemplo, são necessárias três horas de trem para se ir de Aalen a Freiburg. De avião elétrico, seriam menos de 45 minutos.

Os aviões elétricos seriam antes uma adição ou um substituto para o transporte público local?

As aeronaves movidas a eletricidade poderiam ser empregadas em áreas que não estão bem conectadas, sem que se tenha de investir em trilhos ferroviários ou autoestradas. Essa concepção poderia ser útil para países como a China ou a Índia, onde ficaria relativamente fácil conectar grandes áreas entre si.

Também veremos o crescimento de megacidades onde o transporte de solo, como ônibus e trens, talvez não possa operar com a flexibilidade necessária. Aí os aviões elétricos conectariam gente e lugares sem afetar o meio ambiente urbano.

Capaz de decolar verticalmente, Lilium Jet Flying exige pouca infraestrutura em terraCapaz de decolar verticalmente, Lilium Jet Flying exige pouca infraestrutura em terra

Por falar de meio ambiente: quão ecológicos são os aviões elétricos? Hoje em dia o CO2 é responsável por menos da metade de todas as emissões relacionadas ao tráfego aéreo: rastros de inversão, óxido de nitrogênio e micropartículas são fatores significativos de aquecimento global.

Ao todo, as aeronaves com propulsão elétrica vão ser 10% mais eficientes do que as convencionais. A fonte de energia – uma bateria com células de combustível ou um gerador de turbina movido a gás – pode ser separada do motor elétrico, possibilitando um design mais flexível. Por conseguinte, todo o sistema é mais eficiente: precisa de menos energia para voar e causará menos emissões.

Além disso, as células de combustível não emitem nenhum CO2, benzeno, partículas, óxido de nitrogênio, e assim por diante. No total, seriam ambientalmente menos agressivas. Ainda não podemos dizer nada sobre os rastros de inversão, pois temos que realizar mais experimentos.

No entanto os aviões elétricos só serão menos nocivos para o clima se propelidos com energias renováveis. Vamos ser capazes de gerar suficiente energia solar ou eólica para movimentá-los?

Na Alemanha, o mercado determina que não se produza mais energia do que o efetivamente necessário. Portanto precisaríamos criar capacidades para projetos de tráfego elétrico. Tecnicamente seria possível. Já vemos que, em algumas regiões da Itália, da Espanha e do sudoeste dos Estados Unidos, é gerada tanta energia solar e eólica que ela pode suprir o voo elétrico, na forma de eletrólise de hidrogênio [produção de hidrogênio para células de combustível].

Companhias como a Boeing e a Airbus também estão experimentando com aeronaves movidas a eletricidade. Ocorre um intercâmbio entre a comunidade científica e a indústria?

É ótimo os fabricantes aeronáuticos estarem indo nessa direção. Se fizermos os nossos deveres de casa, nos próximos dois a três anos talvez possamos colaborar, talvez desenvolver um protótipo juntos.

Fonte: Deutsche Welle

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