O perigo que ronda a produção sustentável do açaí no norte do país

Quem me acompanha aqui neste blog já leu várias vezes sobre o Arquipelago do Bailique, um espaço lindíssimo que fica no topo do Brasil, faz fronteira com a Guiana Francesa. São oito ilhas, 50 comunidades, cerca de onze mil habitantes que recentemente acabaram de realizar o primeiro Protocolo Comunitário.  Acompanhei grande parte do processo de realização do Protocolo, sob a batuta de Rubens Gomes, então presidente do Grupo de Trabalho Amazônico.  Foi trabalhoso, mas valeu a pena.

O Protocolo é hoje, para a comunidade do Bailique, uma espécie de ferramenta para a gestão daquele território tão rico em bens naturais quanto distante de políticas públicas que os beneficiem. Apesar de serem cidadãos e pagarem impostos, os bailiquenses precisam lidar com muitas precariedades. Para se ter uma ideia, quando estive lá,  há três anos, não era raro as comunidades ficarem sem luz por dias seguidos.

Rubens Gomes, ex-presidente do GTA e sempre organizador e coordenador do processo de realização do Protocolo, postou em sua rede social uma notícia que me fez procurá-lo para a entrevista que vocês vão ler abaixo. Era um lamento, um alerta, dando conta de que o extrativismo sustentável do açaí no Bailique, uma das grandes vitórias conseguidas pela união das pessoas e pelo trabalho do Protocolo, está correndo perigo.

Vale a pena contar para vocês o que é o extrativismo do açaí. O fruto nasce numa palmeira, árvore que tem preferência por crescer perto de água. Para extraí-lo é preciso ter uma perícia que só quem nasce e é criado perto de açaizeiros consegue ter. Com uma corda enrolada nos pés, a pessoa vai subindo, escalando a árvore, que é muito fina. Lá em cima, pega o galho de frutos com uma faca e desce com eles. Nesse caminho, porém, tudo pode acontecer: da existência de bichos peçonhentos até a envergadura da haste, são muitos os perigos.

O extrativismo sustentável, porém, evita alguns desses perigos. O trabalhador passa a usar ferramentas adequadas, a proteger o corpo dos perigos. E, mais do que isso: a altura das árvores é acompanhada. Não se deve deixar um pé de açaí ter mais de dez metros porque os frutos não são bons e porque é difícil extraí-los.

Ocorre que todo este trabalho tem um preço. E os pequenos produtores de açaí do Bailique, depois de muitas reuniões e estudos, agora sabem muito bem o valor que têm. Não querem mais vender o produto de seu trabalho para atravessadores, que vão repassá-lo para empresas que vão cobrar o dobro dos consumidores. Agora eles querem queimar essa etapa e passar direto a vender para quem vai usufruir dos benefícios do açaí. Mas não é nada fácil. Há uma barreira sendo montada para impedir isso, como conta Rubem Gomes. Leia abaixo:


Explica melhor o que é o manejo sustentável do açaí e o motivo que levou os moradores do Bailique a buscar esta forma de produção.

Rubens Gomes – O primeiro passo foi dado quando decidimos cuidar da floresta, conhecê-la mais e  mantê-la em pé, produtiva. Foi uma escolha sábia. Tempos atrás, para suprir o que o mercado ilegal do palmito exigia, fazia-se  o abate da árvore, e na sequência ficava sem nada. O produtor tinha que esperar um novo ciclo de crescimento, o que acabou quase dizimando os açaizais. Eles começaram a perceber este perigo. Eu ainda era conselheiro do GTA quando começamos a elaborar um projeto de certificação sócio-participativa que tinha como objetivo a valoração socioambiental , colocando também a questão de gênero, de trabalho infantil, porque não é só o meio ambiente.

Deu resultado imediato?

Rubens Gomes – Sim, a priori deu. Fizemos treinamentos com aqueles que trabalham recolhendo o fruto, compramos equipamentos de segurança para eles, melhoramos a assepsia do local onde o fruto era retirado do galho. Com a adoção dessas novas práticas ninguém mais punha o fruto junto de porcos nem de combustível, por exemplo. Quando iniciamos o Protocolo Comunitário, esse desenvolvimento foi ampliado e, em 2015, fizemos um treinamento para 136 famílias de produtores de açaí. E fomos a campo para trabalhar essas boas práticas, introduzindo novos conceitos. Porque o pé de açaí muito denso e muito alto é perigoso e de baixa produção. Tem um estudo da Embrapa que diz que cada touceira (conjunto de pés de açaí) deve ter apenas 4 ou 5 árvores que não podem ficar muito altas.

Qual o tamanho ideal?

Rubens Gomes – Se deixar ficar com dez, 15 metros, é perigoso. Temos um colega nosso que caiu de uma árvore de dez metros e enfiou a perna inteira na lama. Eles correm muito risco se não estiverem bem equipados.

Essas iniciativas de proteção ao homem e à produção vai dando mais qualidade ao açaí?

Rubens Gomes – Sem dúvida! A floresta passa a produzir mais e melhor.

Então onde está a questão?

Rubens Gomes – Quando esse produto melhor, top de linha, chega ao mercado, começa a sentir a barreira construída em torno dele. Em primeiro lugar,  não se tem uma política pública de fomento que possibilite ao estado dar força para o pequeno agricultor. O que acontece é que eles ficam sendo servidos pelos grupos tradicionais, os atravessadores. E são estes que determinam o preço do produto. Os compradores das indústrias de fora chegam com muito dinheiro e pagam para os compradores locais, determinando assim o preço do produto desse trabalhador. É essa a prática. Os grupos que chegam tentando furar esse bloqueio, como os bailiquenses, são excluídos. Os atravessadores de açaí do Ver-o-peso (mercado municipal de Belém do Pará), por exemplo, não permitiram que a nossa cooperativa vendesse direto aos compradores alegando que era de produção comunitária.

E  a diferença de preço que eles querem pagar a menos para os pequenos produtores é muito alta?

Rubens Gomes – Hoje chega a quase 40%. Esta é a grande dificuldade das organizações comunitárias, o grande empecilho para elas se libertarem disso. Tem que ter estratégia, atores externos, o envolvimento da comunidade precisa ser intenso, aliado às boas práticas, para se chegar ao desenvolvimento sustentável.

Onde é que os consumidores que querem ajudar podem encontrar esses produtos?

Rubens Gomes – No caso do Bailique, a comunidade em assembleia decidiu criar um entreposto em Macapá. A loja está sendo montada, é um açaí certificado que será vendido diretamente para as batedeiras de açaí. Mas vamos melhorar isso ainda mais e pretendemos criar formas de vender a polpa do açaí para o Brasil todo. Cada 5% de cada lata vendida vão para a escola família que já está sendo erguida no Bailique. É a responsabilidade das famílias da cooperativa com os moradores do Bailique. São 95 produtores certificados e, até agora, 59 já se associaram à cooperativa.

A sensação que tenho é que toda essa participação, iniciativa tão positiva, é resultado das reuniões (muitas das quais eu assisti), que eles fizeram para estruturar o Protocolo Comunitária. Estou certa na percepção?

Rubens Gomes – Sim! O Protocolo Comunitário é o berço dessas iniciativas. Deu tão certo que nosso financiador está apoiando a Oela (Oficina Escola de Lutheria)para fazer o Protocolo em outros lugares. O próximo será em Macacuari, comunidade que fica a três horas de Macapá. Eles lá já estão num processo bem interessante: criaram uma escola família agroecológica que é dirigida pelos jovens de comunidades que estudaram em escolas-família. Não tem conflito com ninguém, não tem disputa religiosa ou partidária: é só ter desejo de ser responsável pelo lugar onde se vive.

Fonte: Amelia Gonzalez, G1

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