Jornal britânico reproduz história sobre a morte do Rio Cateté, no Pará

Conheci” a etnia Xikrin, do Cateté, na leitura de “Economia Selvagem”, de Cesar Gordon (Ed. Unesp), indicação de um amigo extremamente envolvido com a causa indígena. Trata-se de uma versão modificada da tese de doutorado e antropologia do autor que, sem se deixar levar por conclusões óbvias, traçou um importante perfil desse povo, ressaltando sobretudo o modo como o dinheiro e a mercadoria funcionam para esses indígenas, que “há décadas experimentam um processo de intensificação do seu envolvimento com o que se convenciona definir por ’sistema capitalista mundial’”.

Os Xikrin, que habitam um território à beira do rio Cateté, no Pará, estavam no caminho do “desenvolvimento” e é com usinas que vêm precisando conviver desde que, nos anos 80, a então Companhia Vale do Rio Doce inaugurou a mina de Carajás, na Floresta Nacional de Carajás, em Parauapebas, um mega projeto de exploração mineral.

O livro de Gordon foi publicado em 2006 e se ocupa, o tempo todo, em mostrar a relação dos indígenas com os dividendos que recebem da Vale e de madeireiros da região. A questão da poluição não aparece, simplesmente porque nas aldeias ainda havia proteção, já que o megaempreendimento foi erguido longe delas.

Mas hoje em dia, segundo reportagem da “Agência de Jornalismo Investigativo Pública“, republicada ontem no site do jornal britânico“The Guardian“, a situação mudou. O povo Xikrin está vivendo a morte do rio que dá nome a sua terra e que banha duas das três aldeias existentes.

Segundo a reportagem, originalmente publicada em dezembro de 2017 e assinada por Naira Hofmeister e José Cícero da Silva, em 2015 os índios começaram a sentir coceira na pele e ardência nos olhos depois de dar seus mergulhos no Cateté. E passaram a observar, espantados, uma diminuição do número de peixes nas águas de seu rio.

“A pedido dos Xikrin, um professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) mediu a presença de metais pesados na água, encontrando níveis acima do recomendado pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) – o dado para o ferro dissolvido na água era 30 vezes superior ao limite aceito pelo órgão. Havia também cromo, cobre e níquel em volumes e concentrações elevadas”, contam os repórteres.

O laudo atestou aquilo que os indígenas estavam suspeitando desde o início das negociações para botar a usina em funcionamento.

“Essa coisa de tirar pedra da serra vai acabar com o rio. Vocês podem falar e explicar, mas kuben [homem branco] é mentiroso, vai sujar o Cateté”, discursou uma indígena Xikrin, conforme registra um relatório antropológico feito a pedido da Mineração Onça Puma antes de iniciar o empreendimento.

A Vale, que se tornou a maior produtora mundial de níquel – minério que extrai das terras vizinhas ao território indígena dos Xikrin, uma área de 4,4 mil quilômetros quadrados no Sudeste do Pará – não se convence de que é a causadora da poluição do Cateté. O Ministério Público comprou a causa dos indígenas, a Justiça Federal ordenou a interrupção das atividades. Só em 2015 foram 40 dias em que a mina Onça de Puma não funcionou.

Em setembro de 2017 houve mais um impedimento que, em seguida, foi cassado por uma das muitas liminares que a empresa vem conseguindo. E o empreendimento continua. A situação não é incomum. O fato de a reportagem ter sido agora publicada num jornal estrangeiro, o que vai dar uma dimensão maior para a causa, sim, é resultado de nossos tempos com informações tão globalizadas.

Ontem à tarde, numa reunião de amigos, falou-se sobre essa imbricada relação entre o desenvolvimento, a degradação ambiental e a necessidade que nós, humanos, temos de preservar nosso entorno e de nos preservar contra a poluição das atividades industriais. A leitura do livro de Gordon me ajuda a refletir ainda mais. Quando ele conta o quanto os índios se sentem beneficiados com o dinheiro que ganham da empresa que extrai minério de suas terras, o imbróglio, para mim, fica ainda maior. E, aparentemente, sem solução plausível.

O título da reportagem da “Pública” é “Quanto vale um rio?”. E eu me pergunto, a essa altura, se ao ver sua principal fonte de vida, o rio, ser contaminado pelo níquel, os Xikrin continuam dando tanto valor ao dinheiro que recebem. O Cateté não só dá o peixe aos Xikrin, que os tiram do rio depois de bater nele o timbó, uma planta que possui uma substância tóxica que tira o oxigênio da água e obriga os peixes a virem respirar na superfície, quando ficam à mercê das flechas. Mas é em suas águas também que eles lavam e deixam de molho a mandioca, outro alimento importante, assim como a batata doce.

Pois tudo isso, agora, está proibido. O professor e médico João Paulo Botelho Vieira Filho, da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, que cuida dos Xikrin há mais de 50 anos, deu orientação para evitar o rio e usar apenas a água encanada das aldeias.

“Ele atribuiu ao acúmulo de metais pesados no organismo dos Xikrin uma série de problemas de saúde, incluindo um inédito surto de nascimentos de crianças com defeitos congênitos”, conta a reportagem.

Quanto à compensação financeira que deveriam receber pelo níquel, ainda segundo os repórteres, ela não existe.

“O MPF pede uma compensação financeira de R$ 1 milhão por mês por aldeia (as três Xikrin e outras quatro Kayapó), acrescido de correção monetária, juros e inflação, retroativos a 2015, quando a Vale foi condenada pela primeira vez pelas irregularidades no processo de licenciamento. A mais recente decisão da Justiça arbitrou um salário mínimo mensal por habitante, o que reduziria o volume total da indenização ainda devida a R$ 19 milhões – mais o equivalente ao tempo que a Vale demorar para concluir os estudos. A Vale se insurge contra a cobrança, argumentando que já destina cerca de R$ 1,3 milhão mensalmente para os Xikrin, mas esse pagamento não tem nenhuma relação com a operação em Onça Puma”, conforme a reportagem.

De verdade, toda essa numeralha fica sem sentido quando se está tratando de algo muito maior. Estamos falando de vida. Ao mesmo tempo, muitos vão argumentar, não sem razão, que o níquel é necessário – olhe em volta! – para quase tudo aquilo do qual nos tornamos dependentes. Inclusive, moedas.

Conforme nos conta Gordon, também os índios Xikrin foram fisgados e, legitimamente, reivindicam sua participação nesse mundo. É para refletir.

Fonte: Amelia Gonzalez, G1

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