Analfabetismo ambiental e oportunismo político

Depois de o governador Paulo Hartung – em entrevista coletiva no domingo (8) –, foi a vez do corpo dos deputados estaduais e do senador Ricardo Ferraço (PSDB) discursarem veementemente, pela primeira vez, em voz uníssona, sem eufemismos, contra “os graves problemas ambientais, sociais e de saúde” gerados pela operação da mineradora em pleno coração da região metropolitana da Grande Vitória, na Ponta de Tubarão, entre os municípios de Vitória e Serra.
Vergonhoso porque o motivo da mudança não foi a defesa, por si só, da saúde e da qualidade de vida da população, mas sim, usar a pauta ambiental apenas como moeda de troca nas negociações com o governo federal e a própria Vale, pela expansão do modal ferroviário com recursos da renovação da concessão da EFVM.
A gravidade dos impactos ambientais e sociais da atividade industrial da Vale – e sua vizinha e colega de transações, ArcelorMittal Tubarão – nos últimos cinquenta anos, vem sendo denunciado pela sociedade civil, e raras exceções da classe política, por meio de incontáveis requerimentos, atos, campanhas, protestos e ações judiciais.
Até mesmo duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs), as do Pó Preto, na Assembleia Legislativa (Ales) e na Câmara de Vitória, conseguiram ser realizadas, em 2015, resultando em Relatórios Finais fartos de informações técnicas fornecidas pelos profissionais de saúde e meio ambiente ouvidos.
Não se teve notícia, no entanto, de ações práticas efetivas, previstas nos próprios relatórios, com atribuições claras para diversas entidades: órgãos ambientais, legislativo e empresas investigadas.
Ao contrário, muito antes, durante e agora, três anos depois das CPIs, continuam rotineiros os favorecimentos à condução criminosa das poluidoras, seja com Termos de Compromisso Ambiental (TCAs) que em nada modificam o modus operandi dentro do Complexo de Tubarão; seja por meio da ineficiência forçada do controle ambiental por parte dos órgãos responsáveis; seja pela forma autoritária e antidemocrática de lidar com a insatisfação da sociedade com a perpetuação dos crimes ambientais históricos.
Já é sabido a presença robusta da Vale e da ArcelorMittal no financiamento de campanhas políticas, decisiva para a eleição de enormes “bancadas do pó”, incluindo os atuais deputados e governador, todos atuantes desde o ano das CPIs. E ponto. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.
Por isso, foi somente sob a ameaça de perder uma oportunidade singular, em pleno ano eleitoral, de movimentar bilhões com mais uma grande obra, que a “consciência ambiental” foi despertada no Palácio Anchieta e no Plenário da “Casa do Povo”, incluindo parlamentares das esferas estadual e federal.
“A Vale está sendo muito covarde com o Espírito Santo. Instalada aqui há muitos anos porque gera emprego e desenvolvimento, mas gera impactos também”, acusou o senador Ricardo Ferraço, sendo seguido pelos demais deputados presentes, a começar por Marcelo Santos (PDT) e Janete de Sá (PMN), os primeiros a se inscreverem.
“A Vale não pode em nome do desenvolvimento econômico gerar esse passivo ambiental enorme sem nos pagar. E uma forma de pagar é fazendo essa ampliação da ferrovia”, cobrou o presidente da Comissão de Infraestrutura.
“A gente viu os impactos de um grande empreendimento industrial como esse. Ambientais, sociais e na saúde. Em muitas cidades com empregados da Vale falam que a Vale só deixa o pó preto e mortes, com muitos acidentes ao longo do vale do Rio Doce. Não é justo que os problemas e o pó preto fiquem no Estado e os investimentos vão pro Centro-Oeste!”, disse a presidente da Comissão de Agricultura.
Resta saber até quando durará o espasmo de lucidez sobre os problemas socioambientais produzidos por uma das principais financiadoras das campanhas políticas no Estado. E, mais importante, no que ele resultará em relação a ações práticas, como fiscalização e punição dos crimes ambientais e exigência de medidas realmente efetivas para a redução dos incríveis índices de poluição, geradores de tantas doenças, ainda não totalmente mapeadas.
Essa cumplicidade com a construção do passivo socioambiental da Vale, que até então parecia ser decorrente de uma falta de visão sobre os impactos negativos evidentes, se revelou, essa semana, ser, na verdade, um analfabetismo ainda mais grave, uma ignorância ainda mais detestável e funesta, que é aquela que acomete todos aqueles que vêm, mas fingem não ver, e, com isso, deixam de cumprir sua missão primordial –  nesse caso, a defesa de um dos mais caros bens coletivos, que é o direito à saúde e à qualidade de vida, em qualquer tempo, sob quaisquer circunstâncias.

Fonte: Século Diário