Por dentro das “fazendas de tigres” que abastecem o comércio ilegal no sudeste asiático

Há menos de quatro mil tigres na natureza, enquanto a quantidade em cativeiro na Ásia chega a mais de oito mil. Investigações mostram que muitos desses estabelecimentos criam e abatem tigres para o comércio ilegal.

NA SALA DE estar de uma casa no fim de um estreito caminho de terra no Vietnã, um pouco afastado da estrada principal, o esqueleto de um tigre é disposto no chão, o único completo disponível para venda, disse o homem aos visitantes.

Era uma oferta atraente para alguém que desejasse preparar vinho de ossos de tigre, uma bebida cobiçada feita a partir dos ossos mergulhados em vinho de arroz. Mas o que os visitantes queriam eram os tigres vivos.

Após um pouco de conversa, eles foram levados até uma casa próxima. O dono da casa claramente tinha dinheiro. Ela apresentava uma bela pintura, um grande pátio de cimento na frente, muitas árvores e diversos veículos de luxo parados à porta. A casa era protegida por uma alta cerca de ferro.

O grupo atravessou a sala de estar em direção à parte de trás da casa. Ao chegarem, a mulher removeu um pedaço da parede que revelava uma porta secreta. Atrás dela, estavam três tigres, cada um em sua jaula, trancados na escuridão. Ao lado, uma cesta com algumas centenas de cabeças de galinha. Um dos tigres grunhia, andando de um lado para o outro em sua cela.

A mulher diz haver mais tigres no quintal e, então, convida seus hóspedes para tomarem chá na sala de estar quando, finalmente, faz sua oferta. Eles poderiam comprar um dos tigres, cujo preço é determinado conforme seu peso, além de uma taxa extra para processar a pele. A entrega para diversas cidades na China estava inclusa no preço base e, sem custos adicionais, os compradores também poderiam levar os ossos, dentes, genitálias e garras, se quisessem.

Eles informaram à mulher que pensariam, e então partiram.

Os visitantes eram investigadores infiltrados da Comissão de Justiça para a Vida Selvagem (WJC). A organização sem fins lucrativos baseada em Haia trabalha na exposição de redes criminais por trás do comércio ilegal de animais silvestres e, desde 2016, sua Operação Emboscada tem como foco os cativeiros de tigres no sudeste asiático. Eles compartilharam com a National Geographic diversas informações, fotos e vídeos do caso, um conjunto de provas que oferece uma rara e exclusiva visão de uma das indústrias por trás do mercado negro multibilionário de animais silvestres e suas partes.

Os investigadores infiltrados da Comissão de Justiça para a Vida Selvagem visitaram uma casa no Vietnã com oito peles de tigre (duas fotografadas) e um tigre empalhado.

Em cativeiro

Do marfim de elefantes às orquídeas, o comércio ilegal de vida selvagem põe a mão em dezenas de milhares de espécies em todo o mundo. E ele está cada vez mais sofisticado, com redes organizadas que obtêm, transportam, vendem e subornam em busca de grandes lucros. O comércio ilegal de tigres em cativeiro e suas partes é apenas parte dele.

Há menos de quatro mil tigres na natureza, enquanto a quantidade em cativeiro na China, Laos, Tailândia e Vietnã pode chegar a oito mil. Alguns dos estabelecimentos são licenciados pelo governo federal e abertos ao público, comercializados como zoológicos, centros para conservação e locais turísticos. Um exemplo é o infame Templo dos Tigres, na Tailândia, operado sob pretexto turístico. Muitos locais assemelham-se ao confinamento da pecuária moderna, procriando tigres rapidamente, como gado, para satisfazer principalmente a demanda chinesa e vietnamita de suas partes. Outros são negócios menores de porão ou quintal, que existem ilegalmente.

Cativeiros de tigres na Tailândia acusados de comercializarem ilegalmente os animais e suas partes normalmente operam sob pretexto turístico ou de entretenimento, como o Templo dos Tigres, que foi invadido pelas autoridades em 2016 e desativado. Seus donos planejam agora abrir um zoológico.

Os ossos dos tigres de cativeiro são muitas vezes utilizados para a fabricação de vinho ou pasta medicinal. A pele é usada no estofamento de móveis e itens de decoração, como tapetes ou tapeçarias de parede, e os dentes podem ser encravados em ouro e transformados em joias. Poder usar, expor ou consumir produtos de tigre simbolizam um status cobiçado entre alguns chineses e vietnamitas.

Os centros de criação de tigres começaram na China em meados dos anos 1980, na tentativa de diminuir a caça ilegal de tigres selvagens, mas conservacionistas dizem que eles apenas agravaram a situação. “A própria existência destes estabelecimentos pode induzir a caça ilegal de animais selvagens para estocá-los”, diz Kanitha Krishnasamy, diretora interina da filial da TRAFFIC no sudeste asiático, uma organização que monitora o comércio de vida selvagem. Além disso, sua existência ajuda a eliminar o estigma associado à utilização de partes de animais em alto risco de extinção, ela diz.

O comércio internacional de tigres e suas partes foi banido em 1987, após votação dos países participantes da Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (CITES), um tratado internacional que regula o comércio de vida selvagem. Em 2007, os membros da CITES aprovaram uma medida dizendo que tigres não deveriam ser procriados para o comércio.

Ainda assim, tigres de cativeiro vêm aparecendo junto aos tigres selvagens no mercado ilegal. A Agência de Investigação Ambiental (EIA), baseada em Londres e responsável por monitorar a apreensão de tigres e suas partes, estima que quase 38% dos tigres vivos, congelados e empalhados confiscados pelas autoridades entre 2010 e meados de 2018 vieram de cativeiros, devido às condições de suas peles e circunstâncias nas quais foram traficados.

Porões e quintais

A casa no Vietnã com os tigres escondidos em uma sala secreta parecia ser um negócio familiar. “Esta é uma entre muitas pequenas casas [no Vietnã] que mantêm tigres”, diz Doug Hendrie, responsável pela unidade de combate ao crime contra a vida selvagem da organização Educação pela Natureza – Vietnã (ENV), que investiga o comércio de tigres de cativeiro no Vietnã desde 2007.

A maioria dos tigres de cativeiro do Vietnã estão em zoológicos licenciados públicos e privados, muitos deles suspeitos de suprir o comércio ilegal, mas a província de Nghe An, no norte do Vietnã, é notória por seus diversos negócios ilegais em porões e quintais. Este foi o destino da WJC.

Investigadores da organização Educação pela Natureza - Vietnã tiraram esta foto de um tigre em uma jaula inóspita em uma fazenda no país em 2016.

A irmã mais velha da mulher que fez a oferta aos investigadores explicou que, como compradores, eles teriam o direito de assistir o abate para garantir que aquele era o animal comprado. Eles deveriam fazer o depósito antecipado de 30% do valor em sua conta bancária chinesa, e os 70% restantes deveriam ser pagos após a entrega das partes do tigre na China.

“As duas [irmãs] estavam muito relaxadas”, disse um dos investigadores da WJC que fingia ser um comprador chinês. “É apenas um negócio para eles. É apenas uma maneira de ganhar dinheiro”.

Embora boa parte da demanda por partes de tigres venha da China, o Vietnã tem sua própria e longa história com o consumo de tigres. A pasta de ossos de tigre, um medicamento tradicional, é um produto exclusivo do Vietnã, diz Krishnasamy. O comércio doméstico de partes de tigres no Vietnã é ilegal, e a pasta de ossos de tigre é um dos principais catalisadores do comércio ilegal dentro do país.

A pasta de ossos de tigre é utilizada na medicina tradicional vietnamita e é o principal catalisador do comércio ilegal de tigres no país. Ela é feita a partir do cozimento dos ossos dos tigres durante sete dias e a secagem da substância obtida em blocos.

O processo normalmente começa com um agente intermediário que une um grupo de pessoas que concordam em comprar um tigre juntos, diz Hendrie. O agente encontra um vendedor, é responsável pela transação financeira, e verifica a entrega. Os compradores então se juntam para o processo de cozimento.

O agente também é responsável pela contratação de um “chef” de ossos de tigre, o especialista que preparará a pasta. Os ossos do tigre são fervidos, provavelmente em conjunto com os ossos de diversos outros animais, por sete dias, diz Hendrie. A substância marrom obtida, que tem a consistência de um mingau, é derramada, secada e cortada em blocos. Cada comprador recebe uma certa quantidade de blocos, que podem ser guardados, vendidos ou dados de presente. Pedaços dos blocos são raspados e misturados no vinho, disse Hendrie.

Importação

Quando os investigadores da WJC foram ao Vietnã pela primeira vez, a irmã mais nova disse para eles: “A minha família tem a maior quantidade de peles de tigre”. Durante uma das reuniões, ela os levou para uma sala onde peles de quatros tigres estavam penduradas em paletes de madeira, duas peles já secas se encontravam enroladas ao lado, e outras duas peles estavam de molho em um tipo de líquido desinfetante. Havia também um nono tigre, inteiro e empalhado.

Para acompanhar a demanda, ela disse, eles às vezes importam tigres do Laos. O vizinho ocidental do Vietnã é mais um local conhecido pela criação de tigres em cativeiro e seu comércio ilegal. Por isso, a WJC também enviou investigadores para o país.

Um dos locais visitados foi Muang Thong, uma conhecida fazenda de tigres laociana associada ao tráfico internacional há muitos anos. Em 2009, um dos gerentes da Muang Thong contou para a Target magazine, uma revista do Laos, que “empresários estrangeiros vieram ver os tigres na fazenda, mas decidiram por não comprá-los uma vez que os tigres eram pequenos demais para exportação”. A exportação comercial na época era ilegal.

A revista também ligou a fazenda Muang Thong à Vinasakhone, uma empresa laociana exposta pelo jornal The Guardian em 2016 como uma entre diversas empresas autorizadas pelo governo para movimentar grandes quantidades de flora e fauna protegidas através de determinadas alfândegas, desrespeitando as regulações da CITES e a legislação do Laos. Em 2016, o secretariado da CITES reportou uma visita à “fazenda de tigres da Vinasakhone”, e um representante confirmou para a National Geographic que o local também é conhecido como Muang Thong.

O jornal The Guardian também divulgou ter examinado provas convincentes de que a Vinasakhone vinha matando e vendendo ilegalmente tigres para compradores no Vietnã, China e do “Triângulo Dourado”, ponto de encontro do Laos, Tailândia e Myanmar, onde o tráfico de pessoas, vida selvagem e drogas é desenfreado.

O gerente do Muang Thong que conversou com os investigadores da WJC explicou que os tigres são mortos sob encomenda. Um comprador em potencial, normalmente vietnamita, ele disse, marca uma visita com o dono da fazenda para escolher o tigre. O tigre é então morto, geralmente com uma injeção letal. Depois, um açougueiro, normalmente levado pelo comprador, processa o animal.

“O objetivo é monitorar todo o processo”, disse Sarah Stoner, responsável pela unidade de inteligência da WJC. “Você compra o animal inteiro como uma commodity, e pode fazer o que quiser com ele”.

Uma das irmãs vietnamitas também disse aos investigadores que às vezes recebem filhotes de tigres da África. De acordo com dois relatórios recentes de duas ONGs sul-africanas, o país possui pelo menos 56 cativeiros de tigres. Conforme dados comerciais obtidos pela CITES, o Vietnã já recebeu mais de 50 tigres vivos da África do Sul desde 2010. A África do Sul também exporta ossos de leões para o sudeste da Ásia, e especialistas como a Krishnasamy acreditam que eles sejam vendidos como ossos de tigres, entrando no comércio ilegal. De 2008 a 2015, quase 98% dos esqueletos de leões exportados da África do Sul foram para o Vietnã ou para o Laos, de acordo com o grupo de conservação sem fins lucrativos Born Free Foundation. Um dos importadores no Laos era a Vinasakhone.

Promessas

Em maio, o primeiro ministro do Laos, Thongloun Sisoulith, anunciou uma medida que proíbe a instituição de novas fazendas de vida selvagem e recomenda que as já existentes sejam transformadas em zoológicos ou safáris. A medida cumpriu com uma promessa feita em uma reunião da CITES em 2016, na qual o governo disse que pretendia começar a buscar maneiras de eliminar sua indústria de criação de tigres.

“A medida é preocupante, uma vez que sugere que os proprietários das seis fazendas conhecidas, todas envolvidas com o comércio ilegal, não serão indiciados”, disse Debbie Banks, responsável pelo programa de tigres da EIA em um e-mail. “Em segundo lugar, se este é o mesmo modelo que vemos na Tailândia, onde turistas interagem com os tigres, a procriação continua em ritmo acelerado, e diversos estabelecimentos estão envolvidos no comércio ilegal, é muito preocupante que um modelo similar de comércio ilegal e procriação continue no Laos”.

O governo do Laos não respondeu aos pedidos de resposta.

Muang Thong já se dividiu em duas, e uma de suas novas empresas se tornará um centro de tigres voltado para o entretenimento.

O Vietnã, como parte de seu novo código penal deste ano, tornou crime a posse de tigres e elevou a pena máxima para o transporte, comércio e tráfico de tigres e outras espécies ameaçadas. Apesar disso, disse Hendrie, zoológicos no Vietnã ainda podem possuir e procriar tigres, garantindo uma fonte de suprimento para o comércio por muitos anos. O governo e a polícia ambiental do Vietnã não responderam aos pedidos de resposta.

O Vietnã conta com leis robustas o suficiente para combater o comércio ilegal de tigres, mas carece na sua execução devido à falta de recursos, falta de especialização no combate do crime organizado e, ocasionalmente, à corrupção, diz Stoner.

Há também outro problema: “Com base na nossa experiência, os donos e comerciantes de tigres no Vietnã tendem a suspeitar mais de compradores vietnamitas do que chineses, o que dificulta para a polícia do Vietnã enviar agentes disfarçados”, diz o chefe de investigações da WJC, que se mantém em anonimato devido a razões de segurança. É muito menos provável que um chinês seja um policial disfarçado, ele diz. É por isso que a WJC sempre compartilha suas informações com as autoridades policiais e se oferece para trabalhar em conjunto, inclusive “emprestando” detetives disfarçados.

A organização está trabalhando com as autoridades vietnamitas no caso, e a Operação Emboscada continua em andamento. Não é comum para a WJC compartilhar muitas informações publicamente antes da conclusão de um caso, mas a comissão acredita ser importante expor imediatamente a brutalidade do comércio de tigres no sudeste asiático e a urgente necessidade de combatê-lo.

“Todos [no povoado] sabem o que estão fazendo”, diz o investigador que visitou a casa no Vietnã e conversou com a National Geographic. E, mesmo assim, os negócios continuam em operação.

Fonte: National Geographic