Nova barragem põe em risco famílias e sustentabilidade do rio Zambeze

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Cahora Bassa, a primeira barragem construída em Moçambique

O novo alerta chegou depois dos recentes pronunciamentos do chefe de Estado, Filipe Nyusi, e de outros atores sobre as intenções do Executivo em avançar com a construção da barragem de Mpanda Nkuwa, no rio Zambeze. Num comunicado conjunto, as organizações não-governamentais Justiça Ambiental e Amigos da Terra Moçambique voltaram a apontar o dedo ao projeto.

Em entrevista à DW África, Anabela Lemos, diretora executiva da organização Justiça Ambiental, afirma que a “barragem vai trazer desgraças para o país e para o povo”. Frisando que existem muitas lacunas desde o primeiro estudo de viabilidade realizado em 2002, Anabela Lemos explica que se mantêm sem resposta algumas das questões levantadas pela sociedade civil, nomeadamente, se o rio Zambeze terá água e recursos naturais para produzir a energia projetada.

Impacto ambiental

Outra das preocupações prende-se com o facto da região onde se prevê a construção da nova barragem ter já um considerável risco sísmico, que poderá aumentar substancialmente com a edificação do projeto.

“O rio Luia é o único rio livre que entra no Zambeze, o resto está com barragens e cortados. Então, é o único rio que traz alguns sedimentos para a vida do rio. Os sedimentos são a base da sustentabilidade do rio e também não vão existir porque vão cortar”, explica a diretora da Justiça Ambiental.

A somar aos argumentos já citados estão os relatórios das Nações Unidas e da International Rivers, que indicam que o Zambeze é um dos rios de África que mais impactos vai sofrer com as mudanças climáticas, prevendo-se cheias e seca severa.

Famílias afetadas

A organização não-governamental Justiça Ambiental estima que, para além do impacto no ecossistema, o projeto poderá afetar diretamente entre 1400 e 2000 pessoas ou famílias que dependem exclusivamente da agricultura e da pesca na região.

Para Anabela Lemos, é uma ilusão pensar que a construção da nova barragem vai resolver os problemas do país, até porque, conforme referiu, entre 80 e 85% da produção deste empreendimento será para exportação para a África do Sul e a uma tarifa mínima.

Aos olhos desta responsável, existem alternativas: “Somos um país com sol e com vento, nós já fizemos um estudo em 2009 que dá um cenário do país inteiro e que recursos energéticos nós podemos usar. Além de mais, a energia para ser barata tem que ser descentralizada”, diz.

O comunicado da Justiça Ambiental e Amigos da Terra Moçambique refere ainda que, caso o Governo insista em avançar com o projeto de construção da barragem de Mphanda Nkuwa, deve realizar antes um estudo de impacto ambiental cuidadoso, imparcial, sério e inclusivo. O Executivo de Filipe Nyusi deverá ainda esclarecer de onde vem o investimento para o projeto e porque razão é uma prioridade para o país, se foram equacionadas outras alternativas.  Deve ainda ser explicado qual o real propósito da barragem e que hipotéticas mais-valias o Governo julga que trará para o país a curto e médio prazo, incluindo como será rentabilizado.

Fonte: Deutsche Welle