ENTREVISTA EXCLUSIVA: Gustavo Fonseca

Mônica Pinto / AmbienteBrasil

Na semana passada, foi divulgado o estudo conduzido por um grupo de cientistas das 52 organizações integrantes da Aliança pela Extinção Zero (AZE, sigla em inglês; www.zeroextinction.org). O trabalho traz dados alarmantes, ao identificar 794 espécies sob ameaça iminente de extinção, a demandarem ações urgentes de conservação.

AmbienteBrasil conversou sobre as estratégias da AEZ para minimizar tal risco com o brasileiro Gustavo Fonseca, chief conservation and science officer da Conservação Internacional – CI – em Washington.

AmbienteBrasil –O que pode ser feito emergencialmente, dada as disparidades econômicas, tecnológicas e sociais existentes, por exemplo, entre a América do Norte e a África?
Gustavo Fonseca -
É claro que diferentes regiões e contextos socio-econômicos demandam estratégias diferenciadas para ações de conservação. Essas se expressam em grande parte com relação ao custo das referidas ações. As espécies-alvo da AEZ são totalmente dependentes de esforços ligados à conservação dos últimos remanescentes de habitat ainda disponível para a sua sobrevivência. A eliminação dos mesmos implica na extinção das espécies, pelo menos da natureza (isto é, ainda restariam, em tese, opções ligadas a reprodução em cativeiro, embora eliminadas as possibilidades de reintrodução em habitats naturais).
Em regiões densamente ocupadas, a criação e gestão de áreas protegidas assume um custo mais elevado. Mesmo assim, as áreas identificadas pela AEZ, independente do custo financeiro, possuem uma relação de custo-benefício altamente favorável para a conservação da biodiversidade do planeta porque são de alta insubstituibilidade. Assim sendo, se forem eliminadas localmente, as espécies delas dependentes serão eliminadas em escala global.

AmbienteBrasil – O estudo diagnosticou ainda que um terço desses locais onde há espécies ameaçadas possui proteção legal. Isso não quer dizer que as ações conservacionistas foram mal sucedidas?
Gustavo -
Não. Isso significa que devemos prestar atenção à efetividade da gestão das áreas legalmente estabelecidas. Como sabemos, nem sempre a criação de áreas protegidas resulta no manejo efetivo das espécies nelas contidas ou nos recursos naturais. Na realidade, o fato de um local identificado pela AEZ já estar sob proteção legal é indicativo de sucesso das ações de conservação, já que as mesmas são de altíssima prioridade em nível local, regional e global. Assim sendo, as ações (criação de áreas protegidas) acertaram o alvo correto (espécies altamente ameaçadas de extinção que demandam ações urgentes de proteção de habitat natural), significando sucesso.

AmbienteBrasil – A Aliança quer proteger 595 sítios da Terra, o que ajudaria a evitar uma iminente crise de extinção global. De que maneira se pode atuar junto a governos e sociedades de maneira a mobilizar culturas diferentes para essa missão?
Gustavo -
A grande vantagem do enfoque da AEZ é mesmo estar ancorado em uma agenda concreta, espacialmente explícita. Todos esses locais possuem grupos de interesses diversos, de governos locais e nacionais, passando por comunidades, setor acadêmico, e o setor privado. Alertar para o altíssimo valor dessas áreas para o futuro da biodiversidade do planeta já deve ser mensagem suficiente para acelerar ações para a sua conservação. Acreditamos que com o tempo as mesmas serão adotadas por interesses locais, da mesma forma que hoje vemos empresas adotando praças, canteiros, hospitais e creches.
Quando a causa é difusa e de difícil decomposição em elementos de ação prática, como a noção de conservação da natureza de um modo geral, existe uma percepção de impossibilidade de sucesso frente às imensas ameaças, ou mesmo de paralisia. Quando se produz um mapa traduzindo as maiores prioridades para se evitar a extinção de centenas de espécies em um curto espaço de tempo, passamos a conceber o potencial de sucesso das ações. É claro que precisamos conservar muito mais do que a coleção das áreas da AEZ para assegurar a biodiversidade e os serviços dos ecossistemas naturais. Isso passa pela conservação e uso sustentado de grandes paisagens para múltiplos benefícios. Mas o que a AEZ revela é que podemos ter uso sustentado e evitar a extinção de espécies ao mesmo tempo utilizando a ciência da biologia da conservação para orientar os investimentos e esforços.

AmbienteBrasil – O que já está sendo efetivamente colocado em prática?
Gustavo –
Já existem mecanismos financeiros priorizando ações nesses locais. Dois destes, associados à Conservação Internacional, estão financiando a proteção de áreas prioritárias. O primeiro é o Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos, um joint venture da CI, Banco Mundial, Fundo Mundial para o Meio Ambiente, Governo do Japão e Fundação MacArthur, que no Brasil investe na conservação de unidades de conservação na Mata Atlântica, que concentra a maior parte das áreas da AEZ no país. O segundo é o Fundo Global para a Conservação, administrado também pela CI, com recursos da Fundação Gordon e Betty Moore. O FGC investe exclusivamente na criação e gestão de áreas prioritárias.

AmbienteBrasil – Que espécies, no território brasileiro, estão sendo priorizadas pela Conservação Internacional nesse trabalho de luta contra a extinção?
Gustavo -
A Conservação Internacional, juntamente com as suas organizações parceiras, procura priorizar as espécies consideradas como ameaçadas ou criticamente ameaçadas, e secundariamente aquelas classificadas como vulneráveis. Essas são as três categorias de ameaça reconhecidas nacional e internacionalmente. Como a CI é uma organização com uma agenda global, preocupa-se em especial com as espécies ameaçadas que são endêmicas (exclusivas) ao Brasil. A sua extinção no país significaria a sua extinção em todo o planeta. Maiores informações podem ser obtidas nos sites: http://www.mma.gov.br/port/sbf/fauna/uf1.html; http://www.biodiversitas.org.br; www.biodiversityhotspots.org.

AmbienteBrasil – O estudo revelou também que a taxa de perda de espécies causada pela ação humana é de 100 a 1.000 vezes maior do que o índice natural. O Brasil poderia ser situado em que nível nessa escala de 100 a 1.000?
Gustavo -
Esses cálculos são aproximados e não foram feitos para nenhuma divisão geográfica ou política. Mas como o Brasil encontra-se no topo da lista global em número de espécies ameaçadas de extinção, é provável que as taxas de perda de espécies provocadas pela ação humana se encontrem nos limites superiores desse espectro quando comparadas às taxas naturais de extinção.

AmbienteBrasil – O secretário da Aliança, Mike Parr, alertou que, além dos riscos para o futuro da diversidade genética dos ecossistemas terrestres, as ameaças de extinção prejudicam também a economia do ecoturismo global, “que movimenta bilhões de dólares por ano”. Essa conseqüência de ordem econômica contribui para arregime ntar apoios importantes?
Gustavo -
Sem dúvida. Um exemplo gritante é Madagascar. O país perdeu 90% de sua cobertura florestal e possui um alto número de espécies ameaçadas endêmicas. É também um país pobre cujo ingresso de divisas é bastante influenciado pelo fluxo turístico associado a ambientes naturais, em particular à sua fauna. A grande diversidade de lêmures e outros primatas únicos à ilha é um atrativo de enorme importância econômica. A perda desse patrimônio implicaria em danos imensos e permanentes para o país.

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